Biografia sobre Radiodifusores

VERGARA MARQUES

VERGARA MARQUES

Por Ademar Vargas de Freitas

A paixão pelos cavalos e pelo rádio o levou a inovar. Ele começou no rádio há mais de meio século. Foi locutor de programas românticos, narrador de futebol e expert em corridas de cavalos, sendo considerado o melhor narrador de turfe do Brasil. Seu trabalho em diversas emissoras, inclusive na Rádio da Universidade, lhe trouxe muitas distinções, prêmios e honrarias, como a medalha Negrinho do Pastoreio e o título de cidadão de Porto Alegre. Mas sempre será lembrado com carinho e admiração por ter criado um programa que durante 35 anos agradou ouvintes de todas as idades, misturando turfe, cultura e boa música.

Luiz Carlos Vergara Marques nasceu num dia 7 de novembro, em Jaguarão, município agropecuário da fronteira, ligado à cidade uruguaia de Rio Branco por uma ponte de três quilômetros de comprimento, Uruguai adentro, inaugurada por Getúlio Vargas, em 1930, como a maior da América do Sul. O pai era criador de gado e cavalos puro sangue e crioulos; a mãe, uruguaia da cidade de Vergara, era naturalizada brasileira. Embora o menino passasse as férias na fazenda do pai, a paixão pelas corridas foi herdada de um tio, Osvaldo Vergara, também criador de eqüinos.

Aos 12 anos, surpreendeu-se ao ser escalado pelo professor do primeiro ano ginasial para declamar um poema no grêmio literário da cidade. Criado em ambiente machista, achava que declamar não era coisa para homem. Mas encarou a empreitada, escolhendo um poema de Manuel Bandeira, que falava em sol e terra. Só que, quando era para falar da terra, apontava para o céu; e, quando falava em sol, apontava para a terra.

A vaia mexeu com seus brios, e ele pediu ao professor que o escalasse novamente. Quinze dias depois, bem preparado, declamou um longo poema de Castro Alves. A evolução foi tão grande que, passados três anos, ganhou o concurso de oratória. Em seguida, veio fazer o curso científico no IPA, em Porto Alegre. Mas, a grande guinada de sua vida se deu em 1951, quando já estava na Faculdade de Direito da UFRGS, pensando em se formar logo para retornar a Jaguarão e cuidar dos campos do pai. Um colega, apaixonado por rádio, ia fazer teste para locutor na Farroupilha e pediu que o acompanhasse. O locutor-chefe, Mário Sirpa, reprovou o colega (“Não serves nem para vender amendoim”) e insistiu para que Vergara fizesse o teste. Ele não queria, mas foi desafiado e acabou aceitando. Saiu-se tão bem que Sirpa fez questão de contratá-lo.

Vergara não tinha gostado da maneira que seu colega foi tratado. E como dois de seus primos, Milton e Ruy Vergara Correia, trabalhavam em rádio, ligou para eles e contou a história. Milton, que era da Gaúcha, concorrente da Farroupilha, lhe disse: “Tu não vais para a Farroupilha, tu vens aqui para a Gaúcha. Vais ganhar uns caraminguás para deixar de pedir dinheiro a teu pai”. No dia em que entrou para a Gaúcha, Mendes Ribeiro estava sendo admitido no setor de notícias. Na época, o chefe dos locutores era Rubens Alcântara, que já no primeiro dia o colocou “no ar”. Ele tinha que empostar a voz e ler textos como: “Leite de Colônia, o embelezador da mulher, apresenta mais um capítulo da emocionante novela...” E dê-lhe reclame de sabonete, creme dental, leite de magnésia...

Em pouco tempo, Vergara já fazia parte da equipe de esportes da Gaúcha, onde brilhavam Cândido Norberto e Guilherme Siebenberg, enquanto, na Farroupilha, as estrelas eram Leonel Silveira e Rafael Merolillo. “Naquele tempo, irradiava-se com um locutor em cada metade do campo, para não se cansar nem cansar o ouvinte.” O mesmo esquema seria usado mais tarde na transmissão do Grande Prêmio Brasil: Vergara irradiava os primeiros 1.500 metros, e Theófilo de Vasconcellos, os outros 1.500 metros.

ROMANCE E FANTASIA

Na década de 50, se fazia um rádio romântico, com radioteatro e grandes orquestras. Na Gaúcha, o conjunto melódico do Norberto Baldauf se apresentava três dias por semana, entre as dez e as onze da noite. Nos outros dias, nesse horário, tinha “Tangos à meia luz”. Depois, entrava o programa “Acalanto, música e poesia para embalar teu sono”. “Isso dava prestígio aos apresentadores. Eu tive momentos sensacionais, numa Porto Alegre social por excelência”, conta Vergara.

À meia-noite, quando encerrava a programação, ele ia tomar uma taça de café  com pão e manteiga na lancheria Matheus junto com amigos que o aguardavam para ir à boate Marabá, onde havia uma mesa reservada para radialistas. Essa mesa era partilhada com integrantes da equipe do Grande Jornal Falado Farroupilha, como Hamilton Fernandes, que mais tarde virou astro nacional ao interpretar o papel de Albertinho Limonta, na novela “O Direito de Nascer”, nos primórdios da televisão, no Rio de Janeiro. Da boate Marabá, seguiam para o show de tangos da boate Maipu, mas o grande espetáculo da noite estava na American Boate, que trazia atrações internacionais. “Isso era todas as noites. Freqüentemente acontecia de eu chegar em casa às cinco da manhã e encontrar um bilhete pedindo que fosse abrir a rádio. A sorte é que eu não bebia nem fumava.”

Vergara ficou na Gaúcha até 1956, quando fez concurso para a Rádio da Universidade, que iria ao ar no ano seguinte. Seu irmão, Clóvis Vergara Marques, foi diretor da Escola Técnica da UFRGS e vice-diretor do Instituto de Geociências. Por essa época, alguns diretores da Gaúcha compraram a Rádio Itaí e o convidaram a produzir um programa. Aí nasceu “Turfe e Boa Música”, que intercalava corridas de cavalo com informação e música de qualidade. Depois de uma longa carreira na Rádio da Universidade, Vergara se aposentou. Mas não deixou de trabalhar. Em 1991, passou a atuar como comentarista de turfe do programa Camisa 2, da TV Guaíba, onde ficou até 1998. Atualmente, participa de um projeto do bibliófilo Valdemar Torres, que já editou três CDs de literatura. Num dos CDs , Vergara interpreta contos de Sérgio Faraco, e num dos contos contracena com a neta.

Vergara mora numa rua tranqüila do bairro Menino Deus, junto com a esposa, Carmen, a filha, Isís, que é professora estadual, o genro, Inácio Berlitz, e a neta, Natália, de 17 anos, que vai fazer vestibular para Direito. Em casa, além de fotos e documentos dos tempos de glória, conserva o pedestal em que assentava o binóculo para acompanhar os páreos que narrava. No Jockey Club do Rio Grande do Sul, tem muitos afilhados; no Hipódromo do Cristal, tem uma cabine com seu nome; e, no Hipódromo do Rio de Janeiro, ainda mantém uma égua de corrida, Liberty Hill, remanescente do plantel que teve ao longo da carreira de turfista apaixonado.

TURFE E BOA MÚSICA PARA TODOS

Por amor ao turfe, Vergara trocou a Rádio Gaúcha pela Itaí deixando de lado os programas românticos que lhe traziam uma aura de estrela. Pensou: “As interrupções nas transmissões de futebol para dar notícia de turfe incomodavam os ouvintes, mas para o aficcionado do turfe seria um purgatório não poder ouvir a narração dos páreos”. E concluiu: “Vou para a Itaí, criar um programa de turfe, intercalando música, notícia e conhecimentos gerais para ir ao ar nos sábados e domingos, durante as corridas no Hipódromo dos Moinhos de Ventos, e às quintas-feiras, quando há corridas em Canoas.” Assim nasceu o programa “Turfe e Boa Música”, imperdível para quem gostava de turfe, imperdível também para quem gostava de música, informação e curiosidades. No horário do programa, a Itaí chegou a ser a emissora mais sintonizada entre as quatro existente na época.

Em 1972, quando a Itaí foi vendida a um grupo evangélico, o programa passou a ser transmitido pela Farroupilha. Em 1974 foi para a Princesa. Entre 1978 e 1985 esteve na Difusora, passando depois para a Pampa, a Capital, a Sucesso e a 1.120 RBS, hoje Rural, onde permaneceu até 1992, quando foi extinto. Dois locutores apresentaram a parte musical e cultural do programa: Aurélio Câmara e Edy Amorim.

NO MEIO DO TORVELINHO

“Conheci a Carmen no dia da morte do Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954, em meio ao torvelinho que tomou conta da cidade. Tinham botado fogo no prédio onde funcionava a Farroupilha e a Difusora, e estavam incendiando o Diário de Notícias. Eu saía de casa, na esquina da avenida João Pessoa com a rua Luiz Afonso, quando passou aquela moça que me encheu os olhos. Conversamos um pouco, e eu a acompanhei até sua casa, na rua Lima e Silva. Nessa mesma manhã, subi ao décimo-primeiro andar do Edifício União para anunciar a novela das nove. Mas, em vez disso, avisei, por conta própria, que, no lugar da novela, a Rádio Gaúcha apresentaria um programa de música erudita em respeito ao presidente morto. Foi uma correria para achar um disco de música erudita...”

RENNER CAMPEÃO

“Não sou gremista nem colorado, sou Renner, eu e as costureiras que trabalhavam nas indústrias Renner. O técnico Selviro Rodrigues era professor de educação física do IPA. Mas, dois anos depois de conquistar o título de campeão gaúcho (1954), o clube foi extinto: estava sendo muito oneroso. Na época não havia os grandes patrocinadores que existem hoje.”

RÁDIO DA UNIVERSIDADE

“Eu coloquei a Rádio da Universidade no ar, em 18 de novembro de 1957, e chefiei por 20 anos a equipe de locutores. Tinha Lauro Hagemann, o Carlos Alberto Carvalho, o Renato Rossi... Em seguida, veio o Celestino Valenzuela e o Wilson Rivoire. O setor de jornalismo era chefiado pela Iara Bendati. Em 1984, passei a diretor, administrando também o Planetário, onde narrava as projeções. Fico contente em saber que o reitor está dando atenção à rádio e espero participar da festa dos 50 anos, em 2007.”