Biografia sobre Radiodifusores

RUI FIGUEIRA

RUI FIGUEIRA

A VOZ DO REPÓRTER ESSO

Em 1936, um rapazinho de 18 anos, de nome Rui Figueira, entrou na Casa Langer, uma loja de produtos elétricos, e comprou todos os apetrechos necessários para a montagem de uma galena. Para quem desconhece o termo, galena era um tipo de rádio artesanal, composto essencialmente por uma bobina, uma barra de ferro, uma agulha, um fragmento de cristal de galena e um fio de cobre denominado “bigode de gato” (antena). O aparelho tinha lá suas limitações, mas era capaz de captar as transmissões das três únicas rádios existentes em Porto Alegre: Gaúcha, Farroupilha e Difusora. A Galena foi na verdade o primeiro elo de ligação entre o futuro locutor do Repórter Esso no Rio Grande do Sul e o então recente e surpreendente veículo chamado rádio. A carreira de Rui Figueira iniciou-se mesmo um ano depois, graças justamente a sua condição de bom ouvinte.

Em 1937, ele criou coragem e foi fazer um teste na Rádio Gaúcha depois de ouvir na “Hora do Estudante”, um programa de Penha Rodrigues, que a emissora estava disposta a descobrir e apoiar locutores, humoristas e músicos desconhecidos, desde que os candidatos fossem estudantes. Rui Figueira era aluno do Colégio Militar e possuía uma voz promissora. “Bom, alguma chance eu tinha”, comenta. Fez o teste, e assim que deixou a cabine de som, o próprio diretor da rádio, Nilo Ruschel, o esperava. “Escuta rapaz, você não quer ser locutor?” Foi perguntando de sopetão. “Nós não vamos parar mais e precisamos de outro locutor. Te damos uma ajuda de custo para o transporte, tu vens treinar e depois te empregamos.” Rui ficou eufórico e pasmo ao mesmo tempo. “Afinal, aquele era meu objetivo final.”

Na época, a Rádio Gaúcha ficava num barracão de madeira e tinha duas torres de transmissão de madeira entalhadas no feitio da Torre Eiffel. Sua programação começava às 10 horas, era interrompida às 14 horas, ia ao ar novamente às 18h45min e encerrava-se às 23 horas. Quando a emissora começou a funcionar ininterruptamente, Rui passou a ser locutor ao lado de Nero Leal e Prates de Figueiredo.

Um anúncio mais redondinho

Apesar do sonho ter se transformado em realidade, o salário era um verdadeiro pesadelo e Rui precisou providenciar um trabalho extra. Assim, logo nos primeiros meses, começou a vender anúncios para a Rádio Gaúcha, que naquele tempo não eram cobrados por segundo, mas por palavra - aliás, 400 réis a palavra. Os anúncios da década de 30 não dispunham, nem de longe, da sofisticação que caracteriza a publicidade em nossos dias. Eram apenas o que o próprio nome indica: anúncios. E se eventualmente apareciam numa forma mais elaborada, ainda corriam o risco de serem rejeitados.

Um exemplo. Um dos clientes mais importantes da Rádio Gaúcha no final dos anos 30 era a Casa Eleotério Araújo, que lotava, com dezenas de ofertas, tanto a frente, quanto o verso das fichas de anúncio. Disposto a oferecer um tratamento especial à Casa, o Departamento Comercial apresentou ao proprietário “um anúncio mais redondinho”, explica Rui. “A Roupa Faz o Homem e Soares Faz a Roupa”, Soares era o sobrenome do proprietário que, diga-se de passagem, achou o slogan muito inferior ao tradicional listão.

Criatividade a toda prova

“Eu vivi a fase empírica do rádio”, afirma Rui Figueira, um tempo em que a inventividade contava pontos a favor, tanto para os profissionais, quanto para os ouvintes. Um tempo em que não existiam aparelhos simples como um alto-falante. Em que as rádios conseguiam a maioria de suas notícias nas páginas dos jornais, “na base da tesoura-press”. Em que era comum ver um repórter fazendo rádio-escuta das emissoras argentinas. Um tempo em que era preciso trocar a agulha do toca-disco dezenas de vezes durante um único programa musical.

As alternativas empregadas para contornar a carência de recursos técnicos mais elaborados até que surtiam efeito, mas, em muitos casos, provocavam situações curiosas. Para suprir a falta de alto-falantes e amplificadores domésticos, utilizavam-se rádios. Quando a Rádio Gaúcha irradiava os bailes da Sociedade Navegantes e São João, o som ambiente era feito por uma série de rádios, instalados nos melhores pontos do salão de dança. A estratégia funcionava, mas a tarefa de montar e desmontar a rede elétrica a cada festa era um tanto trabalhosa. Em certas ocasiões, as medidas paliativas podiam ser ainda mais exóticas, como foi aquela adotada para a transmissão da inauguração da estrada entre Pelotas e Porto Alegre.
O evento aconteceria entre as duas cidades, e, como não existiam unidades móveis, o DNER informou à Rádio Gaúcha o quilômetro onde seria instalado o palanque, para que a rádio providenciasse a baixada da linha no lugar certo. No entanto, quando Rui Figueira e o operador Alcides Krebs chegaram no local marcado, não encontraram o palanque, que estava mesmo a quase cinco quilômetros à frente.

Trabalho perdido? Não. Numa lição de criatividade, Krebs ligou parte da aparelhagem na baixada da linha, instalou o amplificador ao lado do palanque e ligou as duas pontas do sistema de transmissão na cerca de arame que acompanhava a estrada. “Ficou uma linha de ferro no meio da linha de transmissão, e fizemos toda a cobertura com um sinal que era uma beleza”, garante Rui. “Quer dizer: a dor ensina a gemer. Não tínhamos nada naquele tempo. Não sei se esta turma de hoje teria expediente para fazer coisas como estas. Eles têm tudo de bandeja.”

Com o surgimento da primeira gravadora, parte do trabalho nas rádios começou a ser simplificado, mas em termos. No começo, os aparelhos utilizavam um fio de arame, e quando o carretel da direita empacava e o da esquerda continuava, aquele arame pulava, enrolava-se e era preciso substituí-lo. Mesmo com todos estes empecilhos, o rádio era senhor absoluto para os ouvintes. Um fenômeno tão grande que era chamado por muitos de “o Dr. Rádio”, porque os remédios de maior vendagem nacional eram aqueles anunciados no rádio.

A guerra traz o Repórter Esso

Na extensa lista de programas que marcaram a história deste veículo, o Repórter Esso conquistou um espaço privilegiado. “As pessoas paravam tudo para assistí-lo. Ele foi o programa de maior audiência do seu tempo, teve mais audiência que a novela O Direito de Nascer”, atesta Rui Figueira, locutor do Repórter Esso no Rio Grande do Sul entre 1941 e 1949. “E posso dar as razões pelas quais ele alcançou tanto sucesso.”

Em primeiro lugar, havia uma guerra mundial, e todos queriam acompanhar os movimentos das tropas, passo a passo. O Repórter Esso cumpria esta função com precisão, porque era abastecido instantaneamente pelas informações da United Press. Aqui em Porto Alegre, quem possuía os direitos pela transmissão e produção do Esso era a Rádio Farroupilha, que dispunha de um telegrafista “bom à beça”, capaz de ir datilografando as notícias no momento em que as ouvia, sem precisar escrevê-las em Morse primeiro.

“Além disso, transmitíamos dentro de um espírito de síntese absoluto e de forma metralhada”, comenta Rui, que até hoje sabe de cor textos do Esso, como este, escrito por Emílio Farrat: “Se tivéssemos que levantar um monumento, esse monumento hoje seria o caminhão. O caminhão é uma força viva, levando sangue da retaguarda à frente de combate, onde as tropas aliadas destroçam as hordas nazi-facistas.”

Rui Figueira associa a entrada do Repórter Esso em Porto Alegre à expansão da propaganda norte-americana em favor da guerra. “Os aliados tinham que abrir uma frente de combate no norte da África e, para alcançarem Dakar, precisavam instalar um trampolim aqui na América do Sul. A cidade escolhida para cumprir esta tarefa havia sido Natal, Rio Grande do Norte. Acontece que esta parte do continente estava sob regimes ditatoriais, que simpatizavam com o Eixo. Havia Perón na Argentina e Getúlio Vargas no Brasil. Os Estados Unidos perceberam, então, que era preciso catequizar o povo brasileiro, e o Repórter Esso, que só era transmitido no Rio de Janeiro e São Paulo, passou a ser ouvido em Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife. As pessoas terminaram indo às ruas exigindo a entrada do Brasil na guerra ao lado dos aliados. Getúlio Vargas, que era muito esperto, acabou aprovando a construção da base aérea norte-americana em Natal, Rio Grande do Norte, contanto que ela passasse a ser brasileira quando a guerra terminasse.”

O Repórter Esso não era apenas um programa patrocinado pela Standart Oil, era o rádio-jornal da própria Esso. A empresa escolhia até os locutores. O representante da McCann-Erikson no Rio de Janeiro, Armando Morais Sarmento, veio especialmente à capital gaúcha para supervisionar o teste de seleção dos candidatos a locutor do Repórter Esso e foi ele quem optou por Rui Figueira. A McCann-Erikson era uma das maiores agências de publicidade do mundo e detinha a conta da Esso há várias décadas.

De volta à Rádio Gaúcha

A partir dos anos 50, Rui estava de volta à Rádio Gaúcha e pode ver de perto as comemorações dos 25 anos da emissora. “Fizemos uma programação majestosa”, recorda ele. “E como queríamos marcar bem a data, o diretor artístico, Cândido Norberto, que era muito inteligente, ´bolou` o slogan: “A Rádio Gaúcha falando mais forte, para mais longe, do alto do seu passado, para o infinito de seus ouvintes.” Neste novo período na Rádio Gaúcha, participou também da elaboração de um projeto que conseguiu trazer artistas famosos a Porto Alegre. Pelo esquema montado, a Rádio Nacional intercedia junto aos artistas para que eles viessem ao Rio Grande do Sul. Paralelamente, a Rádio Gaúcha acompanhava os jornais argentinos para saber que celebridades iriam a Buenos Aires e conseguia negociar uma apresentação em Porto Alegre, arcando apenas com o cachê do artista, sem ter de se preocupar com o ônus do transporte.

Através desta alternativa, apresentaram-se aqui em Porto Alegre artistas como Emilinha Borba, Edu da Gaita, Quatro Ases e um Coringa, Tito Guizar, ator de cinema e cantor de bolero, Georges Boulanger, um dos maiores violinistas ciganos que o mundo já viu, e Arthur Rubenstein, pianista reconhecido internacionalmente. A passagem de Rubenstein provocou, inclusive, um acontecimento atípico. Seu piano não coube no elevador e decidiu-se que seria melhor carregá-lo até o 12º andar do Edifício União, onde funcionavam os estúdios da Rádio Gaúcha. Acontece que o instrumento também era grande demais para contornar a quina da escada. Resultado: foi preciso desmontar as pernas do piano, carregá-lo, remontá-lo e, é claro, afinar muito bem suas cordas.

É preciso resgatar a informação

Estabelecendo um paralelo entre o rádio de sua época e o de hoje, Rui Figueira acredita que “ele era mais criativo antigamente. Foi o negócio de uma época. Foi um mistério e quem trabalhava nele era o misterioso da coisa. A maior parte dos programas que a televisão produz hoje, o rádio daquela época já fazia. Para mim, que sou daqueles anos, a televisão é um estúdio de rádio com uma câmera na frente. A grosso modo, posso dizer que o rádio regrediu. Com o advento do transistor, ele virou um companheiro, e com surgimento do FM, as rádios AM poderiam ser eminentemente rádio voz. No entanto, vemos muitas rádios AM que só tocam música. O tratorista que está no campo, com seu rádio ligado, não quer ouvir música, quer informação. O rádio precisa de uma voz, mesmo que esta voz seja apenas um bom anúncio.”

Rui Figueira cita a propaganda de modo tão privilegiado porque depois de vender seu primeiro anúncio nunca mais abandonou o setor publicitário. Trabalhou 12 anos na Rádio Gaúcha e 13 na Rádio Farroupilha como locutor, mas chegou a diretor do Departamento Comercial das duas emissoras. Formou-se em Jornalismo e Direito, mas também em Publicidade e Propaganda. Casou-se e teve um filho. Em 1960, inaugurou sua própria rádio, a Rádio Clube de Canoas (depois Rádio Eldorado), mas, “como dava muita mão-de-obra ser dono de uma rádio dentro do guarda-chuva da capital”, vendeu a emissora para Otávio Dumit Gradet. Foi também diretor do Departamento Comercial do Jornal Ultima Hora e o primeiro Diretor Comercial do Jornal Zero Hora. Atuou como locutor no primeiro jornal da RBS, mas decidiu “dar espaço para os mais jovens” e determinou a aposentadoria para sua voz.

RUI FIGUEIRA

Nasceu em Rio Grande, em 1º de maio de 1918, mas construiu sua carreira nas rádios de Porto Alegre. Trabalhou 12 anos na Gaúcha e 13 na Farroupilha como locutor, mas alcançou o cargo de diretor do Departamento Comercial nas duas emissoras. Com apenas 23 anos de idade assumiu a responsabilidade de ser voz do Repórter Esso no Rio Grande do Sul entre 1941 e 1949. Em 1960, inaugurou sua própria rádio, a Rádio Clube de Canoas (mais tarde Rádio Eldorado), mas, “como dava muita mão-de-obra ser dono de uma rádio dentro do guarda-chuva da capital”, vendeu a emissora para Otávio Dumit Gradet. Foi também diretor do Departamento Comercial do jornal Ultima Hora e o primeiro Diretor Comercial do jornal Zero Hora. Atuou como locutor no primeiro jornal da RBS, mas decidiu “dar espaço para os mais jovens” e determinou a aposentadoria para sua voz.

Formado em Jornalismo, Direito, Publicidade e Propaganda, ele garante que o rádio precisou e soube ser criativo e fascinante num tempo sem muitos recursos técnicos. Rui Figueira era casado e teve um filho.