Biografia sobre Radiodifusores

Paixão Côrtes

Paixão Côrtes “O gaúcho tem de acompanhar a modernidade sem fazer modismo”

Paulo Monteiro (*)

João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes nasceu em Santana do Livramento no dia 12 de junho de 1927. Aos 20 anos, estudando no tradicional Colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, juntamente com outros sete jovens secundaristas, deu início ao atual Movimento Tradicionalista Gaúcho. Nos primeiros dias de setembro de 2010 esteve em Passo Fundo, onde realizou uma palestra nas dependências do Centro de Tradições Gaúchas Lalau Miranda e concedeu entrevista ao programa Literatura Local, produzido em parceria pela TV da Câmara de Vereadores e a Academia Passo-Fundense de Letras.

A entrevista, que aqui se publica em texto integral, transcreveu-a a Revista Somando, de maneira resumida, para adaptar às suas características gráficas, nas edições de novembro e dezembro de 2010. Ainda resumidamente, foi divulgada na Internet por alguns sítios tradicionalista, graças ao sempre generoso amigo Hilton Araldi.

Monteiro – O nosso entrevistado, João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes é um dos intelectuais mais conhecidos e influentes do Rio Grande do Sul. Homem de múltiplos instrumentos culturais: escritor, historiador, folclorista, cantor, compositor e bailarino. Profundo conhecedor do folclore gaúcho, foi um dos fundadores do moderno movimento tradicionalista gaúcho. 

Paixão Côrtes - É bom a gente estar aqui, sabendo dessa preocupação com o aspecto cultural e das experiências, das vivências, das pesquisas que a gente vem realizando há tanto tempo e que às vezes encontra dificuldades de divulgá-las, de colocá-las ao alcance da cultura popular, e nesse sentido é que a gente está editando, publicando e colocando ao alcance das entidades culturais, dos centros de tradições, das agremiações, dos aspectos escolares, dos museus, esse material é resultado de sessenta e tantos anos de pesquisa. É alguma coisa que eu trouxe aí. Já vi que tu tens aí esse Danças Tradicionais do Rio Grande do Sul que foi editado aqui graças à colaboração da Prefeitura Municipal, através de diferentes órgãos culturais e turísticos e que já está esgotado, quem sabe amanhã ou depois nós não conseguimos uma outra reedição, como contribuição cultural do município às nossas tradições.

Paulo Monteiro – Esse livro é uma prova material da profunda ligação de Paixão Côrtes com Passo Fundo, com a cultura de Passo Fundo, um livro editado em Passo Fundo. Mas o senhor foi eleito o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, a mais tradicional do Rio Grande do Sul e uma das mais importantes do Brasil. Como é que o senhor recebeu essa escolha?

Paixão Côrtes - Eu recebi com júbilo, naturalmente, uma distinção que me foi outorgada em relação aos outros demais concorrentes, que era participantes, jornalistas, professores, dicionaristas, historiadores, que foram indicados pela Câmara [Rio-Grandense do Livro]. É a primeira vez que tenho essa indicação. A minha contribuição seria inicialmente, unicamente de colocar esses aspectos ligados à ciência do Folclore, as pesquisas das expressões naturais do povo ao alcance da feira do povo. A Feira do Livro é um momento em que o povo, as pessoas que por esta ou aquela razão se constrangem, às vezes, de entrar numa livraria têm a possibilidade de ver os livreiros, as obras com preços mais cômodos e conviverem com os autores, os escritores, dialogarem, encontrarem novos rumos, quer dizer, não é um espaço estanque, é movimentado, tem exposições de arte, tem movimentos musicais. Então, é nesse sentido que eu acolhi a indicação. E ontem foi a confirmação e minha presença, o que me dá uma responsabilidade muito grande diante do que tu mesmo expuseste que é uma das feiras mais importantes do Brasil e da América do Sul. Então, estão não são só os autores rio-grandenses, brasileiros, mas também autores que vêm da Europa, do Uruguai e da Argentina contribuir para o conhecimento cultural com todos nós, brasileiros, e especialmente, os porto-alegrenses.

Paulo Monteiro – Retirei alguns livros seus, de minha biblioteca, que trouxe para esta entrevista, mas o senhor trouxe outros, inclusive este Origem da Semana Farroupilha: Primórdios do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Eu gostaria que o senhor resgatasse para aqueles que não conhecem; até para a memória nossa como é que foi aquela “gauchada” [a entrevista é interrompida por uma sonora gargalhada do entrevistado] de 47, aquela “piazada” do Julinho, o senhor, que creio seja o único ainda vivo daquela turma... 

Paixão Côrtes – Não. Ainda tem Antônio João Sá de Siqueira. É um companheiro, é um veterinário brilhante, foi professor na Faculdade, mas que fez parte e ainda faz parte da história daqueles rapazes, os oito, que começaram junto comigo, no Colégio Júlio de Castilhos, onde, então, nós criamos um Departamento de Tradições Gaúchas do Colégio Júlio de Castilhos. Eram oito e se criou a chama crioula, candieiro crioulo, a semana farroupilha, desfile, palestras, conferências, desfiles, no meio estudantil. E depois, nós deixamos para fazer pré-vestibular e fundamos, fora,  o 35 – CTG. Esse livro, aqui, teve o cuidado de reproduzir as fotografias, os documentos da época, com toda a precisão, porque hoje, passados sessenta e tantos anos já se constitui numa ótica em que a cultura regional, gauchesca, está inserida na cultura de erudição rio-grandense e com reflexo no panorama nacional, já que o movimento iniciado por oito rapazes, jovens, de vinte anos, depois o 35, que foram mais quarenta e cinco, e hoje se estendeu pelo Universo todo, pelo mundo, e existem quatro mil entidades em torno das quais giram cinco milhões de pessoas. Então, o movimento em sessenta anos saiu do galpão, vamos dizer assim, das coisas singelas, do fogo de chão, para adquirir uma projeção universal. Então, nós vamos encontrar nos Estados Unidos cinqüenta ou sessenta centros de tradições, no Japão, na Alemanha, na França, então diz bem da preocupação que nós tivemos, inicial, para pegar essa expressão popular, espontânea, voluntária, das nossas heranças, dos nossos avoengos e colocá-las na dignidade que merece a história e projetá-las no cenário universal.

Paulo Monteiro – Quando vocês construíram aquele galpão no Julinho, quando fizeram a ronda crioula e quando saíram na rua a cavalo no translado dos restos mortais de David Canabarro, com toda aquela história de pessoas debochando, vocês tinham consciência, chegaram a imaginar onde é que ia acabar aquilo?

Paixão Côrtes – À época era muito comum apelar para os Estados Unidos que tinha um grande foco nos modismo da época e procurar alguma pessoa que tivesse a visão norte-americana, um futurologista, para dizer do Brasil – estou falando do Brasil, eu não estou falando do Rio Grande do Sul, eu não estou falando das tradições gaúchas –. Se este futurologista norte-americano, que vinha para resolver (resolver entre aspas) os aspectos econômicos, culturais, políticos, do Brasil, imagina, nós, rapazes com a idade, o verdor dos vinte e cinco anos, não podíamos imaginar que teria esta projeção que hoje, nem com a idade correspondente, que eu disse, se louvaria de pretensões de visão mais ampla, mas uma coisa nós tínhamos consciência, está nos folhetos que nós distribuímos aqui, no Centro [de Tradições Gaúchas Lalau Miranda], as perspectivas, as causas, os momentos e os textos que em 1947 nós colocamos quando fundamos o Departamento de Tradições [do Colégio Júlio de Castilhos]. Era preocupação de preservar, multiplicar e enaltecer, no seu sentido cívico, as tradições gaúchas às novas gerações. Então, se esta preocupação de preservar, de dignificar e de exaltar, no aspecto cívico, não era o civismo gauchesco, regional, mas o civismo brasileiro.

Paulo Monteiro – Em 1947, naquele período de guerra, pós-guerra, começa a entrar a moda americana no Brasil, através do cinema, da música no rádio, da literatura de far-oest. O movimento de vocês não era, de certo modo, contra essa cultura? O movimento tinha muito de nacionalismo contra esse imperialismo cultural, digamos assim? Tinha esse conteúdo ou não tinha?

Paixão Côrtes – Tinha, realmente; tinha esse conteúdo, tanto assim que como eu disse, era um sentido cívico. Está escrito isso. A Liga de Defesa Nacional, aonde tinha a Chama da Pátria, então fomos buscar lá, montei a cavalo e levei para o Colégio Júlio de Castilhos e começou então a Chama Crioula, o candieiro crioulo, a Semana Farroupilha, as palestras dizendo das heranças nossas, dos velhos farrapos e toda a seqüência dos acontecimentos históricos do Rio Grande do Sul, especialmente atinente à atividade da cultura popular, não documentos históricos, políticos, que representavam filosofias da época como era a norte-americana, e que os ianques faziam os convênios. “O que é bom para os Estados Unidos é bom para os americanos (do Norte, não é?!)". E do Sul é outra coisa... Esses aspectos é que... (O cinema, Fred Astaire e seus sapateios! Bill Crosby e suas rosas! O Super-Homem! O Capitão América!) eram as figuras mais exaltadas à juventude do segundo pós-guerra. E nós nos levantamos exatamente no sentido de dizer que nós tínhamos o nosso gaúcho; nós tínhamos a Revolução Farroupilha; nós tínhamos os nossos hábitos; tínhamos não Coca-Cola, mas tínhamos o chimarrão. E assim por diante! E isto calou profundamente no transcorrer dos anos. E verificaram, sociólogos verificam, e até ficaram com surpresa, quando nós dissemos que o nosso movimento começou de baixo para cima e não de cima para baixo.

Paulo Monteiro – Como é que foi? ... na verdade era uma “piazada”... não era nem um figurão...

Paixão Côrtes – Era uma piazada consciente e documentada como está aqui [mostrando o livro Origem da Semana Farroupilha: Primórdios do Movimento Tradicionalista Gaúcho] nos textos. Não era uma invenção porque nós não podíamos inventar uma coisa de que nós éramos naturais. Todos os meus parentes eram gente de campo, filhos de fazendeiro, netos de fazendeiro. Eu mesmo sou produto de campo. Eu não sou de holofote. Agora, no transcorrer dos anos, as necessidades de levar a mensagem a este ou àquele meio de comunicação de imagem, de som, de palco me levaram a tomar as atitudes que eu sempre usei na Campanha, agora na cidade, e com luzes adequadas. E precisa ser entendido que o gaúcho tem de acompanhar a modernidade sem fazer modismo procurando conservar as suas raízes, as fundamentações espontâneas do povo. Não fazer modismo, porque aí, realmente, perde a razão do movimento ser; é transitório, é estanque, é circunstancial e não diz da nossa ideia inicial.

Paulo Monteiro – No começo de sua conversa sobre esses primórdios do tradicionalismo o senhor falou da questão nacional. Vocês tinham uma visão nacional, mais do que regional, do que rio-grandense do sul, digamos assim? Nós estamos agora na Semana da Pátria. A palavra pátria vem de patren, de pai. Pátria é a terra, a cultura; é aquilo que nós herdamos dos nossos pais. De certo modo vocês sentiam que aquilo herdaram dos pais de vocês e os pais de vocês tinham herdado dos avós, e assim por diante, aquilo estava sendo destruído por uma cultura estrangeira, alienígena, que dizia: “O que é bom pra nós e bom pra vocês, seus macaquinhos!”

Paixão Côrtes – Não tomem chimarrão e bebam Coca-Cola! 

Paulo Monteiro - Então, esse sentido de revolta íntima e de amor patriótico, digamos assim, mais do que gauchismo. Essa palavra veio depois...

Paixão Côrtes – Não, isso surgiu depois. Realmente, não havia preocupação de exaltação regional, mas sim fixação regional, vale dizer, nós somos assim, vestimos assim, cantamos deste modo, vivemos assim, falamos descansado porque temos herança. Agora, se vocês querem entender as nossas heranças melhor. Se não entenderem nós vamos nos entender e preservar porque as novas gerações estão chegando aí e nós estamos assumindo isto.  Tanto isso é verdadeiro que aí começou a surgir o 35 – Centro de Tradições, o Lalau Miranda, em seguida. E CTG não existia; nem o registro civil. Nós tivemos que ter o cuidado quando levamos a sigla CTG não houve a possibilidade de registrar. Nem patrão, sota-capataz, invernada, nada disso fazia parte da sociedade civil da época. Hoje já não. Você vai numa solenidade cívica ou de importância e dizem: Aqui está o patrão, o coordenador da região, o índio sãs falas. Então, quer dizer, nós já trouxemos uma contribuição à cultura linguística e representativa da sociedade brasileira.

Paulo Monteiro – Paixão Côrtes, quando vocês deflagraram aquele movimento de 47 e que depois acabou resultando em pesquisas que culminaram neste livro Danças e Andanças da Tradição Gaúcha, juntamente com Barbosa Lessa, que deu início a todo o processo de resgate das danças gauchescas, das músicas, revitalizando nossa cultura popular... Como é que foi o trabalho de resgatar essas músicas e essas danças que já estavam perdidas conforme o senhor conta neste livro?

Paixão Côrtes – O aspecto é que quando nós voltamos, em 1949, do Uruguai, onde fomos representar o Rio Grande do Sul e o Brasil no Dia de la tradicción, no Uruguai, eles ficaram surpresos pela maneira com que nós nos manifestamos e ficaram surpresos pelas roupas que tínhamos. Diziam: “¡Pero Usteds son semellantes a nosotros!” (Eles nem admitiam que o Rio Grande do Sul e o Brasil tivessem gaúchos). Então, nós mostramos tudo nas encilhas, na parte de declamação, cantiga. Só uma coisa que eles nos perguntavam e que nós estávamos ausentes: “¿Y sus bailes? ¿Qué bailam Usteds?”  (O que dançam vocês?) E nós, o [Barbosa] Lessa, meu companheiro, e mais os outros, em número de nove, que não tínhamos resposta, a não ser que xote e rancheira era o que dançávamos... Mas eles queriam os temas do nosso folclore, as coreografias, os sapateados, as dançadas, etc. E quando voltamos de lá, verificamos que não era possível que o Uruguai e a Argentina tivessem tão rico repertório coreográfico e nós, no Rio Grande do Sul, no Brasil, nada. Então, nos dispusemos, o [Barbosa] Lessa e eu, a ir de rincão em rincão mais afastado e desconhecido de nossa vivência de mais jovens, na fonte, no gomo da taquara, como eu chamo, para ver, ouvir, olhar, escutar e aprender, não só as roupas, não só as danças, não só os cantos, mas também os motivos populares, religiosos, e que fazem parte da cultura. E isto resultou neste livro agora, Festas, Bailes, Música e Religiosidade Rural, onde estão as cavalhadas, os aspectos ligados à religiosidade do homem gaúcho, que até agora é pouco exaltada, inacessível e demonstrada. O gaúcho parece que é só homem a cavalo, epicismo e grandes espetáculos gauchescos, mas que não tem também o seu aspecto religioso. Então, nós fomos lá e isso resultou no Manual de Danças Gaúchas, resultou nesse outro livro que nós fizemos com o Barbosa Lessa; depois, ele esteve ausente do Rio Grande por motivos de atividade profissional ligada à educação e à publicidade e eu fiquei aqui, no Rio Grande, e dei continuidade a esse trabalho que resultou então, hoje, que a gente está distribuindo nos centros de tradições, para as entidades culturais, para os núcleos campeiros regionais, para as churrascarias, às instituições culturais, um pacote contendo, da minha parte, dez publicações de títulos diferentes, como este aqui que foi um livro que eu fiz, o deputado Francisco Appio mandou reeditar e está na casa dos cem mil distribuídos gratuitamente, uma colaboração que não se via antes do poder público, no caso do deputado Francisco Appio, mandando editar por sua conta e para ser distribuído, indo ao encontro do povo. É este o sentido que nos preocupa atualmente para que o Centro de Tradições não seja uma figura transitória, um modismo, mas sim que tenha um alicerce baseado na pesquisa fotográfica, documental, sonora, de imagem, e que nós gravamos todos esses aspectos no início.

Paulo Monteiro – O senhor falou que a cultura evolui com o tempo. O senhor foi piá de campanha. Outro dia, estávamos indo a Porto Alegre de ônibus e uma criança disse: “Olha lá aquela vaquinha!” E a “vaquinha” era uma ovelha. Como manter o tradicionalismo gaúcho, que é de matriz eminentemente rural, numa sociedade que é hoje eminentemente urbana? O senhor sabia muito bem a diferença entre uma vaca e uma ovelha. Hoje as crianças não sabem a diferença entre uma galinha e um pato. Como é preservar essa cultura num meio completamente diferente do meio onde ela, a cultura gaúcha, surge? Como o senhor vê isso?

Paixão Côrtes – Eu vejo uma deficiência de conhecimento de responsabilidade do cidadão porque nós não queremos viver de tradicionalismo e sim cultuá-lo, e isso é diferente. O culto é um símbolo e o símbolo é imorredouro. Se você não tem a simbologia para representar não pode transmitir às descendências aquele valor do que representa nem a foto, nem o som, nem a dimensão, nem a cor. Então, há uma preocupação de que o tradicionalismo não seja simplesmente um momento de concurso, de ganha ou perde ou pode ou não pode. Isso é o transitório, o momento de uma sociedade, nos aspectos de Sociologia, muito jovem e que está atravessando diversos segmentos. O importante é que a pessoa tenha consciência das suas heranças, que tome conhecimento dos dias atuais e que as novas gerações possam entender o que é que você está falando para elas, como é o caso desse “ovelha e carneiro”. Quer dizer, as pessoas não se preocupam com a simbologia que pode representar, não só do visual, da moral, da dignidade, da postura, da família, dos símbolos do civismo. Tudo isso fazem parte dessa cultura; não é uma expressão de forma, de simbologia, de corpo somente, mas uma coisa muito mais profunda. É isso que nos preocupa no movimento tradicionalista que frequentemente dá uma dimensão simplesmente transitória de pode ou não pode, perde ou não perde, faz ou não faz, o ano que vem nós modificamos. E tradição do povo não se modifica de uma hora para a outra. É um processo que vai lentamente acrescentando para substanciar a maneira do comportamento da pessoa, independente se for rural ou urbana. É o comportamento da pessoa no conhecimento e na postura dos desafios dos dias atuais.

Paulo Monteiro – Muitas pessoas criticam os CTGs. Falam: “O CTG virou um lugar de dança, comilança e bebedeira”. Fazem uma crítica direta. Na sua concepção o CTG é deve ser muito mais um lugar do que baile, do que churrasco? Tem que ser, na verdade, é uma escola de história, de cultura, de resgate dessas memórias?

Paixão Côrtes – Eu acho que dança, churrasqueadas, bebedeira, fazem parte, mas não são os motivos essenciais para se dizer razão de formar um CTG. Isso é um clube como qualquer outro, como também não dá o direito de ser exclusivo e auto-suficiente para ditar normas. Isso é uma sociedade junto com as outras, participando de um grupo de responsabilidade coletiva e não individual. O centro de tradições é importante quando ele participa ao lado dos outros, condizente com as outras sociedades da comunidade, e não isolado porque, se não, fica como lagarto que só come a cola no inverno pra sobreviver, quer dizer, as entidades não podem se impor condições históricas, circunstanciais do passado aos dias presentes. Tem que acompanhar, naturalmente, mas com dignidade, sabendo eu vou ser um cidadão social, hoje, e vou a um baile de gala, como eu vou amanhã, no mesmo lugar, num baile de gala, vestido regionalísticamente.

Paulo Monteiro – A questão da indumentária. Em 1947 os tecidos eram o algodão, a lã, o linho, a casimira, depois veio o tergal, a fibra sintética, industrializada. Agora, porque há cem anos a trás as pessoas só usavam a roupa de linho, de algodão ou de casimira, eu não posso usar uma camisa ou um casaco de material sintético?

Paixão Côrtes – Eu acho que é isso que eu volto a falar. Nós estamos vivendo um movimento tradicionalista, a simbologia dos fatos e não a vivência. Essa é a diferença. Não se pode, porque se não nós vamos viver com a cabeça virada pro passado, só achando que são bonitas as coisas que os outros fizeram e que nós não sabemos que não temos informações, mas concluímos imaginativamente ou poeticamente e às vezes nem historicamente.
Nós temos é que culto e culto exige simbologia, simbologia moral, de dignidade, de postura, de respeito, de consideração e de vivência coletiva. Não podemos viver separado. Nós temos que fazer do galpão um elemento importante e projetá-lo no Universo, para que os outros nos conheçam, nos valorizem e ele trazer do Universo as manifestações para dentro do galpão para que tenhamos uma ideia dos nossos valores em relação aos valores dos outros, quer dizer, uma ponte entre o tempo passado, o tempo atual como um todo, dentro do Universo. Isso chama-se evolução de consciência. Eu sei que sou, resolvo fazer e me postar hoje, assim, porque sei que vou transmitir aos meus descendentes uma imagem que sempre me dignificou.

Paulo Monteiro – A cultura gaúcha ou gauchesca, digamos assim, não pode se tornar um elemento retrógrado?

Paixão Côrtes - A cultura não pode se tornar uma cultura retrógrada. Temos que colocar dentro das entidades os problemas sociais da comunidade e da cidade e universais porque nós somos importantes quando nos tornamos universais porque fazemos nossas identificações e não somos índios, irracionais.

Paulo Monteiro – Quando nós pegamos os clássicos da literatura gauchesca, como um Aureliano de Figueiredo Pinto, vemos que há uma diferença com os poetas de hoje... E agora entrou a moda dos concursos de poesia. A gente vê, por exemplo, que pessoas, como aquele menino do ônibus, que não sabem a diferença entre uma ovelha e uma vaquinha se metem a escrever poesia gauchesca. Eu tenho visto algumas poesias gauchescas e tenho me assustado.

Paixão Côrtes - Eu também tenho lido algumas poesias gauchescas (entre aspas) e também fico assustado porque as crianças copiam dos adultos que imaginam coisas irreais. Então se torna um círculo vicioso porque a arte declamatória da juventude e da criança é substituída por aspectos adultos e que nem eles sabem o linguajar. É uma forma de deseducar, transformar o sentido da palavra, do verso, do texto como simplesmente uma forma de exposição imaginativa declamatória. É diferente, criança tem que ser educada como criança, vestida como criança, com dança de criança, com voz de criança. O problema é que dão às crianças poemas épicos com deformações dos farroupilhas que nem eles sabem o que é, nem a razão de ser. Isto é que são os educadores, são os professores que sem ter disciplina de educação e os pais que chamam o mesmo, o filho, seu aluno, uma maravilha, dizendo coisas que nem eles sabem o linguajar. São expressões que não dizem diretamente dos objetivos maiores que é a dignificação humana desde criança. Se você não aprende quando criança, quando adulto se torna muito mais difícil. É por isso que os povos europeus se restabelecem das lutas, das brigas, porque tem centenas de anos de vida. Eu estive lá. Fui nos museus procurar origens nossas. Eu vi a bombacha (1580). Mas como? E o gaúcho? Estive lá, nos biombos japoneses, na arte lambam. Tive nos museus maiores, procurando exatamente os elementos que a moda, que o tempo trouxe para as províncias, para os continentes. E aqui houve reformulação. Então, é isso que está faltando ao movimento tradicionalista. Não a história por história, mas a sapiência das razões de se portar desta maneira, daquela maneira, de ser deste jeito ou daquele mais adequado ou dizer um verso correspondente ao ciclo x, y, z e de saber a posição do movimento, seja infantil, seja juvenil e adulto, assim como vestir. As moças se vestem, as prendas todas iguais. Nunca existiu isto no mundo, nem na sociedade, a não ser milico, soldado, padre e freira, jogador de futebol e desportivo ou colégio, que tenha ainda poder aquisitivo para fazer. O restante da sociedade sempre foi difusa. E isso caracteriza o gênero universal em qualquer sociedade. É uma pena que o movimento tradicionalista uniformize externamente porque internamente, às vezes, são piores: vazios, sem saber o que estão fazendo.

Paulo Monteiro – Enquanto há pessoas que se aposentam aos 40 anos de idade e param com qualquer atividade produtiva, o senhor, aos 83 anos, continua em plena atividade...

Paixão Côrtes - Eu não parei. Eu estou terminando um livro de 700 páginas. Aos 83 anos de tempo, de nascimento, mas de cabeça eu estou bem forte. E danço meu xote afigurado.

(*) Paulo Monteiro, jornalista, poeta e historiador, é autor dos livros “A Trova No Espírito Santo – História e Antologia”, esgotado em edição impressa, “Combates da Revolução Federalista em Passo Fundo” e “O Massacre de Porongos & Outras Histórias Gaúchas”, além de centenas de artigos e ensaios sobre temas históricos e culturais.