Biografia sobre Radiodifusores

JUAN GANZO FERNANDEZ

JUAN GANZO FERNANDEZ

05.10.1872 - 02.04.1957

Espanhol, nascido nas Ilhas Canárias, Las Palmas, a 5 de outubro de 1872. Em 1885 veio para o Uruguai, trabalhando um tempo na fábrica de tintas da família. Em Montevidéu estudou, especializando-se em eletricidade. Era um admirador convicto do sábio Alexander Graham Bell, criador dos serviços telefônicos nos Estados Unidos, em 1876. Idealista e empreendedor, acreditava ser a voz humana o natural meio de comunicação. Instalou linhas telefônicas em San José / Uruguai e ligou Montevidéu a Canelones, Florida e Santa Lúcia. No Uruguai, Juan Ganzo Fernandez pertencia as fileiras do Partido Nacional, dos líderes blancos da família Saraiva, ao lado dos quais esteve lutando nas revoluções de 1897 e 1904. Das batalhas contra os colorados, conquistou o título de coronel, que ostentava com orgulho. Convidado por Dr. Carlos Barbosa, Juan Ganzo Fernandez instalou telefonia em Jaguarão, Bagé e em muitos outros locais no Rio Grande do Sul. Juan Ganzo Fernandez foi o Pioneiro da Telefonia no Rio Grande do Sul.

Em 1908, Juan Ganzo Fernandez criou, em Porto Alegre, a COMPANHIA TELEPHONICA RIO-GRANDENSE e, em 1922, introduziu o telefone automático, a fonografia e o serviço rádio-telefônico, ligando Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. O Livro-Diário com a ata da fundação da Companhia Telephonica Rio-Grandense hoje está no acervo do Museu da CRT - Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações, na Avenida Antônio de Carvalho, 555, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O Museu reúne em seu acervo mais de 600 peças, entre aparelhos telefônicos, fotografias, livros, documentos, equipamentos, enfim, objetos que denotam a evolução das comunicações telefônicas em nosso Estado. Em 1927 o Coronel Ganzo vendeu o acervo telefônico à ITT - International Telegraph and Telephone, empresa norte-americana, permanecendo como Diretor até 1940, quando passou a residir em Florianópolis, Estado de Santa Catarina, onde faleceu a 2 de abril de 1957. Juan Ganzo Fernandez, a 7 de setembro de 1924, fundou, juntamente com o Dr. Décio Martins Coimbra, Diretor do Jornal “A Federação” e Augusto de Carvalho, a Rádio Sociedade Rio-Grandense, primeira emissora do Rio Grande do Sul. O transmissor foi doação de Juan Edison Ganzo Fernandez e Evaristo Bicca Quintana, que foram busca-lo em Buenos Aires, na Argentina, onde o rádio já estava bem mais desenvolvido. Foi o primeiro transmissor de rádio broadcasting que chegou ao Rio Grande do Sul. Juan Edison Ganzo Fernandez era filho de Juan Ganzo Fernandez, batizado conforme uma mania familiar de homenagear inventores, no caso, o da lâmpada incandescente, o norte-americano Thomas Alva Edison.

O Jornal “A Federação”, tradicional jornal gaúcho diário, na data de 5 de setembro de 1924, na secção “Radiotelephonia”, estampou, como subsídio histórico:

“No salão nobre da “Federação” reuniram-se numerosos amadores de radiotelephonia, resolvendo fundar uma sociedade no gênero das existentes no país e no estrangeiro. Aclamado para presidir os trabalhos, o Dr. Décio Coimbra, diretor desta folha, expôs os fins da reunião, propondo que se desse à novel Associação o nome de “Rádio Sociedade Rio-Grandense”.

No mesmo Jornal “A Federação”, edição de 8 de setembro de 1924, na página 5, temos a confirmação de que se cumpriu o previsto na Assembléia já descrita. O jornal, com destaque, estampou:

“A RADIOTELEPHONIA ENTRE NÓS
inauguração da R. S. R.
(Rádio Sociedade Rio-Grandense)
suas primeiras irradiações

Inaugurou-se ontem, às 21 horas, num dos salões da Vila Diamêla, gentilmente cedido pelo Sr. Cel. Juan Ganzo Fernandez, a novel Rádio Sociedade Rio-Grandense, fundada por amadores residentes nesta Capital. O Sr. Eduardo Guimarães saudou o Presidente do Estado e demais autoridades afirmando:

“Já não há, conquista da nossa época, distâncias invencíveis, e as antigas morosidades do tempo e do espaço foram abolidas”.

Programação inaugural:

- Lohengrin, de Wagner: Sonho de Elsa, pela Professora do Conservatório, Srta. Olinda Braga.
- Da ópera Thais, de Massenet: “Dis-moi que je suis belle”, pela Srta. Aracy Godoy Gomes.
- “Ricordando”, de Genero Napoli, pela Sra. Marques Pereira.
- “Polonaise”, de Chopin, pela srta. Zaira Autran.
- “A Canção da Saudade”, de Olegário Mariano, pela Srta. Diamêla Ganzo Fernandez.

Um mês depois, 7 de outubro de 1924, a secção “Radiotelephonia”, do Jornal “A Federação”, inseria a convocação para uma Assembléia Geral para eleição da primeira Diretoria definitiva da “Rádio Sociedade Rio-Grandense”, marcada para o dia seguinte. A mesma convocação anunciava que o número oficial de cem sócios já se elevara para trezentos. E relacionava seus nomes. À 11 de outubro, à página 2 do mesmo jornal, divulgavam-se os resultados daquela Assembléia que teve por local os elegantes salões da “Rocco”, a mais requintada confeitaria da época:

“Directoria eleita:
Presidente: Juan Ganzo Fernandez; Vice-Presidente: Dr. João Alcides Cunha; 1º Secretário: Augusto de Carvalho; 2º Secretário: José Pessoa de Mello; 1º Thesoureiro: Dario Coelho; 2º Thesoureiro: Gustavo Leyraud.
Conselho Diretor: Edison Ganzo, Dr. Mário Reis, Prof. Tasso Corrêa, Adeodato Araújo. Suplentes: Germano Heussler, J. Ennet, Alfredo Meneghetti e Pelegrin Filgueiras. Conselho Fiscal: Dr. Viterbo de Carvalho, Luciano Junqueira e Luciana Cunha.

Da mesma ata constou a notícia, das mais animadoras aos presentes, de já estar “quase instalado novo e potente transmissor da Rádio Sociedade Rio-Grandense, na Escola Complementar”. A Rádio Sociedade Rio-Grandense procurou seguir o modelo da época, implantado no Rio de Janeiro por Roquette Pinto. Radioamadorismo e associativo. Cada um de seus trezentos sócios deveria contribuir com mensalidade de cinco mil réis.

Nem sempre pontuais nas contribuições, os sócios deixaram a empresa com sérios problemas econômicos. Partiu-se para o debate sobre as conveniências ou não de se apelar ao comércio. Este foi voto vencido. Pretendeu-se fidelidade aos princípios exclusivamente culturais ditados pelo fundador da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. A Rádio Sociedade Rio-Grandense, por isso mesmo, não chegou a comemorar o seu segundo aniversário. Os depoimentos colhidos, quanto aos receptores da época, 1924, em Porto Alegre, esclareceram que, além do razoável número de “galenas”, já existiam receptores à válvulas, importados pela firma “Barreto Viana” ou comprados no estrangeiro, principalmente em Buenos Aires, por eventuais viajantes. A tais aparelhos eram acopladas cornetas metálicas, alto-falantes, sem condições ideais de sonoridade. Os receptores usavam energia de “pilhas”, mais propriamente, “baterias”, bastante volumosas.

Cel. Juan Ganzo Fernandez era não só um trabalhador mas, um sonhador voltado a grandiosas realizações. Possuía uma enorme área verde entre a Rua do Menino Deus (atual Av. Getúlio Vargas) e Av. Praia de Belas, conhecida como “Vila Diamêla”, nome de uma de suas filhas. Em 1913 organizou, na Vila Diamêla, o 1º Zoológico Porto-Alegrense. Havia variada coleção de pássaros de vários portes, em viveiros adequados e artísticos, alguns lagos, sombreados por taquaras. Era muito variada a coleção de macacos, de sagüis nativos e até orangotangos africanos. Tinha também: tigres, leões, leopardos e ursos em jaulas especiais, camelos, elefantes e uma onça pintada vinda de Erechim, a qual era muito admirada.

No prédio fronteiro do Zoológico funcionava um cassino e um café concerto, inédito e atraente recanto nesta Capital. Mais ou menos em 1925 foi fechado o Zoológico. Os animais foram levados para o zoológico de Montevidéu e Buenos Aires. Certa ocasião, no centro do Zoológico, foi montada a ópera “Aida” (Verdi) por uma companhia italiana. Nos fundos do terreno ficavam as oficinas da Cia. Telephonica Rio-Grandense e um grande galpão de madeira com canchas, onde os funcionários da Companhia Telephonica jogavam bocha.