Biografia sobre Radiodifusores

Holmes Aquino

Movido pelo rádio

Por Holmes Aquino

Com 50 anos dedicados à Rádio Gaúcha, Holmes Aquino é o colaborador mais antigo do Grupo RBS ainda em atividade. É na estante da sala que ele reserva um espaço para todas as homenagens recebidas na profissão. A última é o seu nome registrado na Central Técnica da rádio. Apesar da experiência e do orgulho das distinções, ele diz que passado é passado e que prefere, sempre, viver o presente. Sobre o tempo de trabalho, o profissional não poupa elogios à empresa. “O crescimento da RBS me toca muito de perto. Se me permitiram permanecer lá por 50 anos, é porque a minha presença ainda é importante”, diz, para em seguida brincar: “Quer queira, quer não queira, tem um pedacinho de Holmes nesta potência.”

Nascido em Pinheiro Machado, no dia 6 de novembro de 1928, o chefe de operações da Gaúcha afirma que quer permanecer na RBS por muito tempo ainda. “Enquanto eu puder falar, ouvir e me comunicar quero continuar lá”. O mais velho de cinco irmãos conta que sente muito carinho pela família Sirotsky. Segundo ele, Maurício o chamava de ‘meu companheiro de todos os domingos’, em referência à transmissão que Holmes fazia de seu programa de auditório.

O filho de dona Maria Joaquina traz na bagagem diversas coberturas esportivas internacionais. A estreia foi na Copa do Mundo no Chile, em 1962. Após esta ainda vieram Argentina, México, Itália, Estados Unidos e Espanha. Apesar da longa experiência com transmissões de futebol, Holmes assegura não ter ligação sentimental com nenhuma seleção, nem mesmo com a brasileira. No que se refere aos clubes, não é diferente. Faz questão de deixar claro que não é gremista, nem colorado. Estranho? Até pode ser, mas ele explica: “Não gostar de futebol me ajudou a ser mais dedicado ao meu trabalho, eu nunca estou preocupado com quem está jogando, quero é desempenhar bem minha função.”

Histórias para contar

Era 1980 quando Holmes foi para o Uruguai transmitir a Copa do Mundo, que ficou conhecida como Mundialito, em alusão aos 50 anos do primeiro evento do gênero. Apesar das condições precárias de comunicação, Holmes conseguiu fazer e acontecer. Apesar de saber da importância da sua participação, ele faz questão de dizer que foi uma vitória de toda a equipe, pois, acredita ele, ninguém consegue nada sozinho. Integrado à equipe da Gaúcha estava o jornalista, e hoje colunista do Jornal do Comércio, Adão Oliveira, que não poupa elogios ao ex-colega: “O Mundialito foi uma experiência muito boa ao lado do Holmes. Não conheço profissional tão competente e tão apaixonado por rádio quanto ele”, registra.

Quando o assunto refere-se a lembranças da carreira, ele conta, com orgulho, sobre a visita do ex-presidente da República Getúlio Vargas, em 1951, ao Rio Grande. Já em sua fase democrática, o governante foi prestigiar uma série de inaugurações na cidade. Um jantar lhe foi oferecido, e duas empresas fariam a cobertura, a Agência Nacional e a Rádio Minuano, onde Holmes atuava. Tudo pronto, no seu devido lugar. Getúlio Vargas sentou-se e, burlando todo o bloqueio, Holmes conseguiu tocar no presidente e orientá-lo sobre a transmissão, avisando que a Minuano transmitiria ao vivo, enquanto a outra gravaria. Por conta disso, ele precisava aproximar-se do microfone da Minuano. “Ele me disse: ‘Ok. Obrigado, meu filho’. Só isso, mas posso dizer que falei com Getúlio”, diz.

Outra história que vem à memória de Holmes é a cobertura da chegada dos Jangadeiros a Rio Grande, que vieram do Ceará para o Estado, em jangadas, viagem que durou cerca de dois meses por alto-mar. Ainda na Minuano, ele foi, com mais dois colegas, ao encontro dos visitantes. “Estávamos a bordo de um rebocador de guerra chamado Tritão”, lembra. Quando houve o encontro, em alto-mar ainda, o profissional liberou a transmissão. Mesmo sem a certeza de que estavam sendo ouvidos pelo estúdio, Holmes garantiu aos colegas que sim. Após a primeira entrevista, os repórteres passaram a fazer um apelo à população para que recebessem os Jangadeiros no Porto. “Quando nos aproximamos do cais, avistamos uma grande população à espera deles. Me senti aliviado. Pensei apenas no poder de alcance do rádio e na vitória conquistada”, orgulha-se.

Todas estas histórias tiveram um princípio. Holmes não iniciou a profissão no rádio, mas num serviço de alto-falante, instalado na praça de Rio Grande, cidade em que residiu por quase 20 anos, em função de uma transferência profissional do pai, Lourival Aquino. Na primeira experiência, quando o salário mínimo era de 230 cruzeiros, ele recebia 15 por mês. “Eu não estava muito preocupado com o dinheiro, queria mesmo era aprender, ter uma atividade”, explica.

Da válvula ao transistor

Enquanto recorda as histórias marcantes, Holmes percebe o quanto tem para contar, e é convicto: “Não sou velho, mas sou usado”. E, fazendo uma retrospectiva, conta sobre o primeiro rádio que viu, enorme, como ele qualifica. O fascínio e a admiração pelo aparelho foram imediatos. Pouco tempo depois, quando ganhou um par de sapatos de presente, Holmes gostou mais da caixa do que o seu conteúdo e tratou de providenciar um arame, para fazer o ponteiro, e uma marcação, que eram as estações. “Aquele era o meu rádio.”

81 anos e em plena era digital, Holmes não só domina a internet como tem um perfil no Twitter, seguidamente troca emails, ouve algumas rádios estrangeiras pela web e alimenta uma página pessoal. Já sobre a evolução do rádio, ele diz que, quando se sabe o princípio, acaba-se por entender tudo o que vem depois. “É só acompanhar. Não é difícil.” Enquanto reflete sobre a tecnologia, Holmes indaga: “Mas quem é que julga esta evolução? Somos nós, humanos. Portanto, ainda estamos na frente de toda esta estrutura.”

Sentindo-se um homem feliz por viver a atualidade, considerando toda a bagagem que carrega, o profissional exalta: “É impressionante. Da válvula ao transistor. E eu acompanhando a era digital, da internet e do satélite”. Todo este balanço da carreira faz Holmes deixar claro que tudo o que ele domina faz sozinho, sem que ninguém tenha que fazer por ele.

Outros bons momentos

Mesmo acreditando que em todo lugar deve haver renovação, o profissional revela que vai todos os dias para a Rádio Gaúcha, às vezes, inclusive, nos três turnos do dia. “Não tenho mais um horário fixo a cumprir, mas ainda acho que a minha presença lá contribui com o trabalho”, acredita, para logo confessar que se considera um pouco conservador. Aliás, sobre isso ele dá um exemplo: “Olha esta casa, é centenária. Segundo consta, Protásio Alves mandou fazer para os netos. Já moro aqui há 30 anos.”

O pai da Karina, de 42 anos, e da Inês, 40, conta que não gosta de ficar parado. Dedicar um tempo na frente do computador, para atualizar suas redes sociais, visitar os irmãos e consertar algo estão entre as suas preferências quando está longe do trabalho. Sobre a família, Holmes não deixa de citar a neta Victória, de 11 anos. “Nos damos muito bem. Ela é uma alegria só.” E a esposa Olenka completa: “Agora só quer saber do avô levá-la na escola, tem que ser ele, e de carro”. O casamento, que começou em Camaquã, quando Holmes trabalhava na rádio da cidade, já dura 47 anos.

O profissional, que enfatiza adorar a família e os amigos, revela o que mais gosta de fazer quando está em casa. Como já era de esperar, a resposta é uma só: ouvir rádio. Ele mantém pela casa um total de oito aparelhos e garante que não ouve apenas a Gaúcha, pois considera importante analisar o que há nos concorrentes. “Eu durmo ouvindo rádio, mas com fone, para não atrapalhar Olenka.” Holmes ainda diz que não gosta de assistir televisão e faz uma comparação ao explicar que não pode ‘guiar’ seu carro vendo TV, mas pode fazer isso ouvindo rádio. Parar de trabalhar? Sim. Mas sem data marcada. Parar de ouvir rádio? Nunca. Esta é uma das grandes certezas dele.

Mostrando os diversos quadros da casa e as homenagens que já recebeu, o profissional recorda momentos pessoais e profissionais ao lado da esposa, que é enfática: “Não há nada que alguém peça que ele não faça sem se importar. Bom filho, bom irmão, bom marido, bom pai e bom avô. Ele é um homem completo”.