Biografia sobre Radiodifusores

FRED FIGNER

FRED FIGNER

Figner, possuidor de uma habilidade comercial fantástica, tinha a posse dos direitos de gravação fonográfica de quase todas as músicas e dispunha das várias bandas militares. Confiou a elas a execução de grande parte das gravações de seus discos. Ao entregar a responsabilidade das gravações, entregou também a de toda a orquestração, e para quantas figuras fosse, na certeza tranquila de que teriam a qualidade criativa de um Anacleto de Medeiros, de um Paulino Sacramento, de um Albertino Pimentel. E não errou. O Rio de Janeiro possuia, no começo das gravações mecânicas, o maior e o mais numeroso conjunto de bandas militares do Brasil. A mais importante foi, sem dúvida, a do Corpo de Bombeiros, criada em 1896, tendo como organizador o maestro Anacleto de Medeiros; e reunindo entre seus componentes, além do próprio Anacleto, chorões da qualidade do pistonista Casimiro Rocha, autor da polca Rato Rato, sucesso em 1904; o trombonista e o ofcleidista Irineu de Almeida, o conhecido Irineu Batina, professor de Pixinguinha e o pistonista Albertino Pimentel, mais tarde, com a morte de Anacleto em 1907, seu sucessor na regência. Foi a esta banda, certamente pela qualidade de seus componentes, que Figner deu preferência.

A relação das primeiras gravações encontradas no Catálogo para 1902 da Casa Edison é toda de discos com a Banda do Corpo de Bombeiros do Maestro Anacleto de Medeiros. Outras bandas militares, dentre elas a do 13º Regimento de Cavalaria, a do 52º de Caçadores, a do 10º Regimento de Infantaria, a do Batalhão Naval, também foram requisitadas para gravação dos discos Odeon da Casa Edison; dos discos Columbia, selo azul e verde; dos Discos Brazileiros - Columbia, selo violeta; como também dos discos Victor Record, selo preto, gravados de um lado só.

BANDA DO CORPO DE BOMBEIROS

A Banda do Corpo de Bombeiros soava com uma maciez de interpretação inesperada numa banda militar e, ao contrário das outras, com surpreendente rendimento técnico de gravação. Isto talvez porque seus componentes, além de excelentes músicos, todos grandes chorões, não se prendiam às formas rígidas de execução das músicas importadas que tocavam. Improvisando sobre os temas, foram aos poucos dando caráter brasileiro às polcas, xotes, mazurcas, habaneras, até que todas se tornassem choros, como de fato se tornaram. As outras bandas, mesmo nas peças mais alegres, produziam um som duro e marcial de uma verdadeira banda militar, em parte talvez pela quantidade de instrumentos de sopro os quais treinados apenas para tocar estrondosamente nas aparições em público, não conseguiam traduzir o verdadeiro espírito da música popular de então, ditado pela inspirada criatividade dos músicos de choro. Estas bandas, de toque marcial, supriam as necessidades dos técnicos estrangeiros que operavam os precários equipamentos de gravação e não percebiam e nem estavam interessados nas diferenças de interpretação. Sabiam apenas que elas facilitavam uma melhor qualidade no rendimento final, do que as outras gravações que eles faziam com cantores e conjuntos de flauta, violão e cavaquinho.

Fred Figner, que certamente teve o propósito de economizar o custo das orquestrações e baratear as gravações, jamais poderia imaginar a contribuição incalculável que estava dando à cultura popular do Brasil.

CASA EDISON

Em meados de 1913 um incêndio destruiu as instalações da Casa Edison, na Rua 7 de Setembro, nº. 90, no Rio de Janeiro. Logo em seguida ou mais precisamente a 1º de outubro de 1913, foi fundada a firma Júlio Bohm e Cia., estabelecida à rua da Assembléia, 71, registrada na Junta Comercial sob o nº. 69432 e tendo como sócios Júlio Bohm, cunhado de Fred Figner e ex-gerente da Casa Edison incendiada e Gustavo Figner, irmão de Figner e dono da Casa Edison em São Paulo. A firma tinha como objetivo a importação de gramofones e fabricação de discos musicais. Eram os discos PHOENIX. Na época comentou-se que o nome PHOENIX, se traduzido literalmente, trazia um significado especial: saído ou renascido das cinzas. O selo PHOENIX foi lançado em 1914, fabricado por Savério Leonetti, de Porto Alegre-RS, exclusivamente para a Casa Édison, de Gustavo Figner em São Paulo.

FÁBRICA ODEON

O fato realmente decisivo no panorama discográfico e musical brasileiro foi o aparecimento da Fábrica Odeon, surgida como prolongamento natural do relacionamento desenvolvido, desde 1901, entre a International Talking Machine e Fred Figner. Ligada ao grupo Carl Lindstrom, a fábrica brasileira fazia uma das pontas do complexo mecanismo internacional de registro sonoro. Ligação estabelecida pouco antes da primeira guerra quando o grupo Lindstrom adquiriu o controle da International Talking Machine na disputa para ampliar sua área de ação de forma mais direta, através da aquisição de selos de disco com aceitação comercial indiscutível, como por exemplo Odeon, Beka, Parlophon, Favorite e outros.

Ao encampar a International Talking Machine, a Carl Lindstrom conservou a formação original onde o capital francês majoritário tinha imposto a marca Odeon à todos os produtos. Imposição mantida na fábrica brasileira que chamou-se Odeon e os discos, hoje conhecidos como da Casa Edison, também eram Odeon. A comprovada capacidade de absorção do mercado brasileiro demonstrada por Figner, através da venda de 840.000 discos em apenas um ano, é que deu origem e justificou ao grupo Lindstrom a montagem da fábrica. E o depoimento é o próprio Figner quem nos dá: “No primeiro ano que tomei conta do meu negócio, vendi 840 mil discos e tive um lucro líquido de 700 contos.”

Este primeiro ano a que ele se refere é o período entre 1911 e 1912, depois da volta da Europa, onde passou um ano e seis meses com a família. A tendência do mercado era crescer a cada ano, o que de fato aconteceu.

Fonte: Livro “Registro Sonoro por Meios Mecânicos do Brasil”, de autoria de Humberto M. Francheschi, Editora Stúdio HMF Ltda. - 1984.