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RÁDIO RECORD - INÍCIOS INUSITADOS

RÁDIO RECORD - INÍCIOS INUSITADOS

Carreira de um dos mais antigos funcionários reflete espírito da emissora

Não é exagero, tampouco injustiça, dizer que a história da Rádio Record corre na mesma esteira da carreira de Murilo Antunes, hoje com 83 anos e assessor de relações públicas da emissora, que iniciou as transmissões em 1931 com apenas 500 watts de potência e hoje opera com 200 mil watts, o que permite ter ouvintes do outro lado do mundo, como da Finlândia. O fundador Paulo Machado de Carvalho conta que tudo começou quando encontrou na rua o filho de Claro Liberato Macedo, um excelente motociclista, que lhe ofereceu a loja de discos chamada Record. “Disse que se pudesse pagar, compraria. Fomos até a Praça da República, subimos a escadaria, fizemos negócio, paguei os 25 para ele, que era uma dureza naquele tempo, e fui em frente”, diz. A maneira inusitada do negócio tem o mesmo ritmo da estréia de Antunes, que em 1938 integrou a equipe que irradiou o jogo de futebol Paulistas x Cariocas de fora do estádio. “Foi em setembro. O Geraldo José de Almeida queria irradiar a partida do Parque Antarctica, mas as rádios Cruzeiro do Sul e Kosmos detinham a exclusividade. Então a Record articulou com a Tupi e com a Rádio São Paulo e juntas alugaram uma casa na Rua Turiassu, de onde era possível avistar o campo do telhado. O jogo foi narrado dali”, lembra Antunes. Os locutores comerciais ficaram cansados de ler as propagandas sob laterna e de cócoras e foram embora. O então principiante acabou ganhando a deixa do intervalo.

Dois dias depois Geraldo Almeida foi contratado pela Cruzeiro do Sul e logo depois, o locutor da Rádio São Paulo, Aurélio Campos - famoso na época - decidiu irradiar futebol e convidou Antunes para ser comentarista. Durante quatro anos a São Paulo transmitiu jogos de fora do campo à moda lançada pela Record. Certa feita em 1942, Aurélio não pôde narrar o jogo entre Corinthians e Juventus, então Antunes cumpriu a tarefa. No dia seguinte a Rádio Bandeirantes o contratou como locutor esportivo. A carreira foi só de sucesso, tanto que Antunes decidiu se candidatar a deputado, mas as eleições de 1946 foram adiadas e ele acabou sem mandato e fora do rádio.

No fim da era getulista, Antunes encontrou-se com Paulo Machado de Carvalho. “Havia um incêndio na Estação da Luz e eu disse para o Paulo que aquilo poderia ser irradiado. Em dois dias fui contratado para fazer reportagem”, lembra Antunes. A audiência aumentou com as reportagens e a Record começou a importar equipamentos como o primeiro gravador elétrico. Também importou transmissor de Ondas Curtas que permitiu deslocamento e transmissão in loco das notícias. Antunes rodou o País, entrevistou Ademar de Barros e irradiou até eclipse solar. A dedicação ao jornalismo lhe rendeu sete anos consecutivos do prêmio Roquette Pinto de melhor repórter. Do Brasil, Antunes foi para o mundo. Transmitiu a primeira eleição italiana depois da guerra, missa do galo rezadas pelo papa e outros acontecimentos internacionais.

Mas a passagem mais marcante da carreira aconteceu em julho de 1948. Antunes mantinha programas de 30 minutos aos domingos, intercalando entrevista e reportagem. No dia 2, uma sexta-feira, percebeu que não tinha matéria e que não havia ninguém para entrevistar. Pensou em Monteiro Lobato e foi à casa dele, na Barão de Itapetininga. “Solicitei a entrevista e ele negou; enquanto eu insistia, a esposa dele, dona Purezinha, reclamou do fogão elétrico que não funcionava. De pronto fiz um trato com Monteiro, que se meu operador consertasse o fogão eu teria a entrevista e ele concordou”, lembra. Para sorte de Antunes, o problema do fogão era um fuzível queimado. Depois de dez minutos de entrevista, Monteiro Lobato teve uma crise de tosse e disse que queria encerrar por ali. Mas Antunes insistiu mais uma vez e conquistou mais 20 ou 30 minutos de conversa. “A última declaração dele foi: ‘Quero ver esse locutor pelas costas e me recolher’”. Na madrugada de 4 de julho, antes que a entrevista fosse para o ar, Monteiro Lobato morreu.