Artigos sobre Radiodifusão

RÁDIO NACIONAL - SAUDADES DA MINHA RÁDIO...

RÁDIO NACIONAL - SAUDADES DA MINHA RÁDIO...

Por Valéria Campos

Uma seqüência de notas da música Luar do Sertão. Momentos de expectativa. “Alô, Alô, Brasil. Aqui quem fala é a Rádio Nacional.” Com a voz grave, o locutor Celso Guimarães anuncia a primeira transmissão da emissora carioca a 12 de setembro de 1936. Estava no ar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, berço de grandes nomes do cenário artístico brasileiro, que nasceram na época áurea do rádio, como Paulo Gracindo, Rodolfo Maia, Mario Lago, Isa de Oliveira e Janete Clair. Mas a pré-história da emissora começa com o Jornal A Noite, de 1911, de Irineu Marinho. “O jornal vive uma fase de expansão na década de 20, sob a direção de Geraldo Rocha, sub-rogado nos direitos de ação de Irineu Marinho”, lembra o gerente da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Osmar Frazão. Ele conta que Rocha ergueu a sede do jornal A Noite na Praça Mauá, onde está localizada atualmente a Rádio Nacional, um prédio de 22 andares, na época um dos mais altos da América Latina. “Rocha ampliou os negócios, criou outros jornais e revistas.”

O diretor comercial do jornal em 1931, Almério Ramos, percebe que as verbas publicitárias estavam muito ligadas ao jornal e entende que poderiam ser ampliadas, caso o grupo tivesse outros meios para captação de receitas. Surge a idéia da criação da rádio, que começa a ser viabilizada quando a Companhia de Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande, na figura do promotor de empreendimentos Percival Farquar, passa a gerir a expansão dos veículos ligados ao jornal A Noite. A 18 de maio de 1933 é fundada a Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional. “Cada sócio entrou com 100 contos de réis”, informa Frazão. Dentre os primeiros sócios estavam Dr. Cauby Araújo, os irmãos Vasco, Otávio e Alfredo Lima, entre outros. Depois da aquisição dos transmissores, comprados da Rádio Phillips, empresa holandesa que estava encerrando as atividades no Rio em 1935, foi inaugurada a Rádio Nacional em 1936, com o programa Hora do Brasil. Em nome do presidente Getúlio Vargas, o então presidente do Senado, Medeiros Neto, fez um pronunciamento oficial durante o programa.

Nessa época, a emissora já estava bastante endividada. Empréstimos do governo haviam assegurado o processo de expansão da Rádio Nacional. “Getúlio Vargas percebeu que o governo precisava de uma alto-falante e decidiu cobrar da rádio o que ela devia”, explica Frazão. Como a emissora não tinha como pagar, a 8 de março de 1940 Getúlio Vargas instituiu o decreto criando as Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União, coordenadas por Luiz Carlos da Costa Neto, e a direção da rádio passou para Gilberto de Andrade. “Com o aporte de capital, a emissora atingiu os maiores índices de audiência naquela época, deixando para trás a Rádio Mayrink Veiga, que era líder disparada”, diz. Frazão afirma que o jornalista paulista César Ladeira foi para o Rio trabalhar na Mayrink Veiga e mexeu nas estruturas da rádio, organizando os programas como se fossem páginas de jornal. “Isso garantiu a liderança da Mayrink Veiga por alguns anos, antes de a Nacional conseguir desbancá-la.”

Frazão destaca que Ladeira tinha um programa na Mayrink, chamado Crônica da Cidade Maravilhosa. A música de fundo era Fascination, composta em 1918, a famosa Fascinação, que se tornou célebre na voz de Elis Regina. “Quem escreveu a letra dessa música foi Armando Louzada, a primeira letra de música brasileira”, garante Frazão. “Ele escreveu para uma radioatriz chamada Simone Moraes”, conta ele. Depois dos investimentos do governo, a Rádio Nacional passou a contratar músicos e artistas. Foram 126 músicos, 33 cantores e 32 cantoras. Carmem Miranda, Barbosa Júnior, Gilberto de Andrade e o maestro Radamés Gnattali eram alguns dos nomes que estavam sob a direção artística de José Mauro. A solidificação da Rádio Nacional deu impulso para a criação do programa Um Milhão de Melodias, em 1943. “O programa lançou a Coca-Cola no Brasil, em 6 de janeiro daquele ano”, ressalta Frazão.

O gerente da emissora destaca ainda que a Rádio Nacional foi importante instrumento para o impulso da música brasileira no cenário nacional. “Ari Barroso ganhou prêmio, vários nomes da música brasileira ganharam notoriedade por meio do rádio”, recorda. Os programas de rádio foram influências marcantes para os de televisão, principalmente na primeira e segunda décadas da TV brasileira. “Programas da Nacional, como Caixade Perguntas e Tribunal de Melodias, foram copiados pela TV, com A Grande Chance”, compara. “O Chacrinha levou para a televisão tudo o que fazia no rádio, mas com a força da imagem.” A 28 de agosto de 1941 o famoso Repórter Esso foi lançado pelas rádios Nacional de São Paulo e Record, também paulista. Na Nacional do Rio, o Repórter Esso foi ao ar em 1944, com a apresentação de Eron Domingues. “Nessa época, todos sintonizavam a Rádio Nacional do Rio, ninguém mudava de estação. Chegava a oxidar o dial”, brinca Frazão.

Com o crescimento da televisão, muitos dos profissionais do rádio passaram a ser requisitados para trabalhar no novo meio. Músicos como Saint Claire Lopes, Paulo Roberto e Mario Lago passaram para a TV e o glamour do rádio foi se esvaziando, principalmente depois da Revolução de 1964. O gerente da rádio, que foi jurado do programa Flávio Cavalcanti na TV e ficou conhecido como “enciclopédia da música popular brasileira”, deixa transparecer saudade e uma ponta de melancolia ao comparar o passado da rádio com a situação atual. “Freqüentar os auditórios das rádios era um evento social, como ir ao teatro hoje”, afirma. “Sinto tristeza ao ver que a Rádio Nacional não é nem de perto aquilo que representou em outros tempos”, confessa Frazão.