Artigos sobre Radiodifusão

RÁDIO ITAÍ AM - A DONA DA AUDIÊNCIA

RÁDIO ITAÍ AM - A DONA DA AUDIÊNCIA

Domingo, 6 de abril de 1969, bairro Tristeza, Porto Alegre. Um homem magérrimo aproxima-se da concentração da seleção brasileira pelo Guaíba. Caminhando. Água batendo no peito.    O massagista Luiz Américo vê aquele jovem com um gravador na mão, já pisando as areias da praia, e vai executar sua função de segurança: “Não pode fazer entrevista, sai, sai...”.

Mas o jovem de gravador é Sayão Lobato, um repórter de uma rádio pequena, cujo único esporte que transmite é o turfe, de boa conversa: “Pô, eu estou começando na rádio, tenho três filhos, moro numa pensão, é o jeito me afirmar na rádio, não quero falar de futebol! Quero que o Pelé peça uma música...”. Sayão fala e caminha. Pelé, já a uns 10 metros de distância se solidariza: “Deixa, eu peço a música para o guri”. O pedido foi uma música do cantor Moacir Franco. Sayão avança: “Me dá uma camiseta para fazer uma promoção com os ouvintes?” Uma hora depois, ele saía da concentração, da mesma maneira que entrou, com pedidos musicais de todos os jogadores e mais promessa de duas camisetas. Voltou para a rádio, falou com o gerente Lorenzo Gabellini, apresentou a proposta: “Que tal a gente botar os jogadores da seleção pedindo música, uma por hora?” Gabellini riu. A seleção estava brigada com a imprensa, as entrevistas estavam proibidas e era impossível entrar na colônia de férias do Banrisul na Tristeza, onde os jogadores estavam concentrados. “Está tudo aqui”, respondeu Sayão, com o gravador na mão. E foi assim que na segunda-feira, dia 7, a Itaí passou o dia tocando os sucessos pedidos pelos jogadores da seleção.

Naquela época, Sayão ainda não tinha inventado o “Não diga não”, um programa em que o ouvinte ganhava um prêmio se não dissesse não a uma saraivada de perguntas. Mas já existia o “Itaí, a dona da noite”, das 20h às 24h, seguido pelo “Itaí, a dona da madrugada” até às 6 da manhã, ambos fazendo o gosto de boêmios, apaixonados, solitários e profissionais como vigias, plantonistas e demais trabalhadores da noite: atendendo pedidos musicais, conversando com ouvintes ao telefone, recitando poesias e ditos populares. Por exemplo: “Beijo pedido nunca é dado; beijo roubado sempre é perdoado”.

Era sucesso garantido. O jornalista Luiz Artur Ferrareto, professor da Faculdade de Comunicação da Ulbra em Canoas, é doutorado em rádio. Ele pesquisou a Itaí AM e descobriu que ela foi líder de audiência entre 1966 e a metade dos anos 80. No Ibope de setembrode 1969, ela tinha 40% da audiência, contra 20% da Gaúcha, 10,53% da Difusora e 3,78% da Farroupilha. A idéia de uma programação assim, conclui Ferrareto, foi de Lorenzo Gabellini. Aprendeu dentro da própria emissora e trabalhando como locutor e no comercial. À frente do microfone, Gabellini comandou um programa em italiano, com notícias e músicas, a partir de 15 de março de 1952. Dessa forma, matava um pouco da saudade da terra natal, a Cidade do Vaticano, mas o reforço no orçamento doméstico vinha mesmo da comercialização. O programa, que se chamava L’Italia al microfono, deu lucro em pouco tempo e Lorenzo começou a vender comerciais para o restante da programação. Além disso, fazia pesquisas de mercado para outros clientes, um deles a Shell Brazil Limited. Em 1954, montou Real Publicidade e em 1961 criou a Pró-marketing, especializada em consultoria mercadológica. Hoje, seria chamado de marqueteiro. Se deu tão bem nesses negócios que recebeu o convite de um dos sócios da rádio, Ulysses Sabatine Moreira, para organizar a programação, então centrada em músicas caipira e gauchesca, e em seguida a parte comercial. Afinal, a empresa estava endividada, os salários eram baixos e sempre atrasavam.

A Itaí, ZYU-33 entrou no ar dia 8 de março de 1952, iniciativa do ex-corretor de anúncios da Rádio Gaúcha, Marino Esperança, que em seguida passou a propriedade a outros sócios. A primeira atitude de Gabellini, o ano era 1965, foi encomendar uma pesquisa para descobrir o que o público queria. O resultado mostrou que havia uma grossa parte da população “abandonada” pelo entretenimento, por causa da televisão. A novidade tinha levado os melhores artistas de rádio e seus programas de auditório. Mas não levou o público junto, porque o televisor era muito caro. Assim, as duas televisões locais, Piratini e Gaúcha, estavam repletas de atrações, fazendo dinheiro, e as rádios tentavam reposicionarse. Muita gente chegou a falar em “fim do rádio”, naqueles anos, imaginem. A rádio Guaíba nasceu em 1959, voltada para as classes A e B, e só agradando C, D e E na transmissão do futebol. Já as outras, como Difusora, Gaúcha e Farroupilha, pareciam não mirar algum futuro. Assim, justamente quando o transistor facilitava ouvir radinho de pilha, as classes C, D e E não tinham opções.

Gabellini decidiu fazer uma rádio para esses “órfãos”, com o princípio de entretenimento e serviço. Muita música, resume Sayão: “A Itaí não fazia lançamento. Só tocava sucesso comprovado. As únicas exceções eram Roberto Carlos e Júlio Iglesias, porque certamente a nova gravação deles seria sucesso”. Podia não agradar a quem estava interessado em saber primeiro qual a novidade musical, em compensação, sempre tocava o que o ouvinte queria. A parte de serviço também agradou em cheio o público pretendido. Um dos destaques foi o quadro Bolsa de Empregos, das 6h às 8h da manhã, em que desempregados e empregadores procuravam e ofereciam vagas de trabalho. “Vimos os pequenos anúncios do Correio do Povo, no tempo do standart”, conta o filho de Lorenzo, Alberto Gabellini, “e decidimos fazer o mesmo”. De manhã, Alberto ligava para as empresas pedindo autorização para ler as ofertas de emprego gratuitamente, na rádio. Eram os ufanistas anos do “milagre brasileiro”, também da concentração de renda. O Bolsa atendeu tanto a intensa procura de emprego que, no auge, recorda Lydia Gabellini, viúva de Lorenzo, “ia das 5h às 10h da manhã”. Muitas empresas ligavam pedindo para tirar o anúncio do ar porque havia filas na procura. Em pouco tempo, o anúncio passou a ser cobrado, “com um tratamento diferenciado dos comerciais comuns e o faturamento foi superior ao do resto da rádio”, conta Alberto. A repercussão foi tão positiva que no final da tarde havia outro, das 18h às 19h, “para quem estava voltando para casa”. Bolsa de Empregos era um quadro dentro da programação e o locutor era Telmo Grassi.

Também entra na rubrica “entretenimento” o Aconteceu, uma espécie de precursor do “Linha Direta” da Globo, recorda Luiz Carlos Aguiar, que durante 10 anos foi discotecário da emissora: “Tinha um apresentador e uma equipe de atores fazia uma representação do crime”. O clima tendendo ao sensacionalismo prendia ouvidos ao radinho, garante Aguiar: “Todos os rádios ouviam. Os ‘caras’ já matavam naquela época”. Entre serviço e entretenimento situavam-se programas que mesclavam músicas e curiosidades, como o já citado “Não diga não” e transmissões de corridas do Hipódromo do Cristal, a opção esportiva para quem não apreciava o futebol. Itaí, turfe e boa música com Vergara Marques mesclava transmissão de corridas com pedidos musicais. O pedido de música é do início dos anos 60. Um ouvinte telefonava, a ligação era passada para a técnica para quem ele fazia o pedido. Em seguida, era repassada para o estúdio, enquanto o técnico preparava o disco, o apresentador falava com o ouvinte, que fazia o pedido no ar e então entrava a música. A iniciativa inusitada causou sensação. Quando Sayão Lobato entrou na emissora, levou a prática para as ruas. A diferença é que os pedidos eram gravados. “Não havia tecnologia para entrar no ar ao vivo. Mas a gente fazia como se fosse e todo mundo ficava admirado”, recorda. Nos tempos do AI-5, editado em 1968 e que, entre outras coisas, estabelecia censura prévia à imprensa, nenhuma música podia ir ao ar sem prévia autorização da censura.

Itaí, a dona da noite fechava a programação vitoriosa. A trilha sonora era a música “Mãe” instrumental do trumpetista Herb Alpert e a banda Tijuana Brass. “Foi um programa precursor”, acredita Luiz Carlos Aguiar, hoje na coordenação de programação da Rádio Farroupilha, “seria uma Love Songs, da Rádio Cidade”, compara com um programa atual. Lydia garante que agradava a tanta gente por ser um programa romântico, “mas hoje”, lamenta, “as pessoas têm vergonha de serem românticas. Mesmo quem é diz que não é para não parecer fora de moda”. Já o Itaí, a dona da madrugada, explica, “era o oba-oba da noite, com muita conversa, notícia, interatividade”. Com outra trilha sonora, Um bacio alla volta, de um disco que Gabellini havia trazido da Itália. E foi assim que a Itaí finalmente saiu dos últimos lugares no Ibope e passou aos primeiros. Em abril de 1966, ela estava com 30,5% da preferência, contra 22/32% da Gaúcha, 15,4% da Farroupilha e 9,6% da Guaíba entre 8 e 9h da manhã, o horário nobre do rádio. A posição foi se consolidando ao longo dos anos, a ponto de ter o dobro da audiência do segundo colocado, como aconteceu em setembro de 1969. Em 1973, a emissora publicou um provocativo anúncio nos jornais comemorando sete anos de liderança:”Esforcem-se rapazes do rádio. Vocês estão muito próximos de chegar ao segundo lugar, já que o primeiro há sete anos é da Itaí”.

As pesquisas do Ibope mostravam que entre 70% e 80% dos ouvintes eram das classes C e D, que 70% eram mulheres e entre 70% e 75% tinham instrução equivalente ao ensino fundamental. Os dados do Ibope ajudavam, mas não eram suficientes para Gabellini, que montou sua própria equipe de pesquisa de ouvintes. “Lembro de com 13, 14 anos ir a Pelotas, bater de porta em porta para fazer pesquisa de rádio”, diz Alberto Gabellini. Por faixa etária, a distribuição era equilibrada. O menor índice era na faixa entre 25 e 29 anos, 10% da audiência, e o maior, 25%, dos que tinham mais de 40 anos. Em 1969, Gabellini fez uma proposta de compra da emissora aos antigos proprietários, para pagar em 40 prestações de CR$ 220 mil cada. Lydia Gabellini conta que o marino pagou 39 prestações, mas antes de saldar a última, três dos antigos proprietários tentaram reaver a rádio, alegando que Gabellini não poderia ser proprietário por ser naturalizado brasileiro, o que contrariava a Constituição Federal. Para evitar tal tipo de constrangimento, ele tinha colocado Lydia na direção. Porém, os antigos sócios mantêm a concessão da emissora e retomam a rádio. “Eles invadiram à mão armada”, diz Lydia. Mas no mesmo dia, 2 de setembro de 1972, a empresa de Gabellini consegue liminar mantendo-se proprietário da emissora. O caso só se encerrou em 14 de agosto de 1973, com a publicação de um apedido no Correio do Povo, anunciando a nova composição acionária, favorável aos Gabellini.

O episódio não abalou a audiência, mas deixou Lorenzo Gabellini triste, diz Lydia: “Ele foi um herói, pegou uma rádio quebrada, inclusive fisicamente, com os parquês soltando no estúdio, com uma programação popular escrachada, muito parecida com a programação da maioria das emissoras de hoje, e colocou qualidade. Fez um popular com qualidade. Depois de colocá-la no primeiro lugar, comprou, e quando tinha pago 39 de 40 prestações, tentaram tirar dele”. Lorenzo Gabellini buscou expandir seus negócios nos anos 70, foi dono da Rádio Caiçara, antes de vendê-la ao atual proprietário, Otávio Gadret, lançou a primeira FM do Estado e também foi proprietário de rádio em Gravataí-RS. Porém, diz o filho Alberto, “ele não era um grande empresário, eu sempre disse isso para ele. Era um grande diretor artístico, uma pessoa sensível”. A preocupação central era com a programação, com o trabalho dos profissionais. “O segredo dele era a capacidade de trabalhar a programação. Até a entonação ele cuidava”, diz Alberto. Nem Sérgio Zambiasi escapou: “Ele corrigiu o Zambiasi, que veio da Difusora, mas foi na Itaí que ele se tornou famoso”.

Tão famoso que a Itaí não conseguiu mantê-lo. Aconteceu com ele, com Sayão Lobato e muitos outros. “A Itaí era um ‘mosquitinho’, frente às outras empresas”, compara Lydia, “a RBS estava crescendo, a Pampa estava crescendo, a Guaíba era forte - e continua com prestígio”, e a Itaí cada vez com menos poder. “A gente até brincava: não estamos conseguindo manter os profissionais, mas estamos melhorando a vida de muita gente”, diz Alberto, “porque os concorrentes faziam uma proposta, nós cobríamos e eles aumentavam”. A estratégia para vencer a quebra-de-braço envolvia vários veículos de uma mesma empresa, explica ele: “Como existe isonomia salarial, para não aumentar os salários de outros funcionários, uma empresa poderia oferecer mais de um emprego, mesmo que em algum o cara nem precisasse cumprir horário”. Quando vendeu a emissora para a Igreja Pentecostal Deus é Amor, em 1983, Gabellini, diz Lydia, estava querendo ficar longe de tudo: “Ele não quis mais saber mesmo, foi alvo de muita maldade”. Mas o modelo que criara tinha fincado raízes e ajudado a resgatar o rádio.

As emissoras que começaram a disputar audiência com a Itaí, e a vencer em muitos casos - como Farroupilha, Gaúcha (antes da remodelação do final dos anos 70 para centrar-se no radiojornalismo), Difusora, que depois trocou para Bandeirantes e também optou pelo radiojornalismo, Caiçara -, copiaram a fórmula de falar para a classe C e D, prestar serviço e incentivar a participação do ouvinte. Hoje todo mundo chama isto de interatividade. A fórmula possibilitou a entrada de anunciantes locais, pequenos e grandes, veiculando anúncios específicos para o público. Foi assim que o pequeno Magazine Alberto Bins, com seu slogan “aquele da escadinha”, ficou conhecido. Quem está na faixa dos 40 para cima sabe do que se está falando. “Café Carioca, o amigo do paladar”, “Soberana dos Móveis, o crediário mais amigável da cidade”, “Marinha Magazine veste bem toda a cidade” são slogans inesquecíveis. Assim como o time de comunicadores que passou por ali: Edi Amorim, Marne Barcelos, Cícero Augusto, Telmo Grassi, João Batista Marçal, João Carlos Maciel, Vergara Marques, Sayão Lobato, Antônio Marques e Sérgio Zambiasi.

Na noite de 7 de abril de 1969, Sayão Lobato estava no Beira-Rio, inauguração dos refletores no jogo da seleção brasileira contra a seleção do Peru. Mal terminara o jogo e ele corre para pedir a prometida camiseta a Pelé. Mas o rei responde: “Não tem camiseta” e vai para o vestiário. Sayão vai atrás, temendo que Pelé tenha esquecido da promessa. Mas não. Faz nova abordagem, Pelé olha e diz: “Não te reconheci no campol. Está aqui a camisa, disse para os outros que não ia dar porque estava te esperando”.

NOVA  DIRETORIA DA RÁDIO ITAÍ

A Rádio Itaí desta Capital alterou o seu quadro social em 1970, deixando de participar da Sociedade diversos sócios fundadores que foram substituídos por novos. O respectivo processo, depois de longa tramitação nos diversos órgãos do Ministério das Comunicações, vem de receber a aprovação do Presidente da República, que por despacho de 14 de agosto homologou aquelas transferências de quotas e a nova Diretoria da emissora. Esta ficou assim constituída: Diretor-Presidente Gen. Edgar Salis Brasil e Diretores, Lydia Thereza Miotto Gabellini e Carlos Lopes dos Santos, os quais já estão no pleno exercício do mandato.

RÁDIO ITAÍ FM STÉREO

PIONEIRA NO SUL DO PAÍS

A Rádio Itaí FM Stéreo inaugurou, em Porto Alegre-RS, a implantação de emissoras do gênero. O grupo Rádio Itaí lançou esta modalidade radiofônica a 8 de maio de 1975. Da Rádio Gaúcha, onde era sonoplasta e discotecário versátil, a Rádio Itaí FM Stereo levou para o seu quadro de funcionários Luiz Bitencourt, responsável direto pela expressiva audiência da nova emissora desde seu início. Em 1977, era inaugurada por Otávio Gadret a Rádio Universal FM Stéreo. Gadret já tinha adquirido a Rádio Caiçara, Pampa e Eldorado, que formavam a Rede Riograndense de Emissoras. Com a inauguração, em 1977, da Rádio Universal FM Stéreo, a empresa passou a denominar-se Rede Regional de Emissoras.