Artigos sobre Radiodifusão

E TUDO VAI MUDAR QUANDO O DIGITAL CHEGAR

E TUDO VAI MUDAR QUANDO O DIGITAL CHEGAR

Por Nélia R. Del Bianco

Tornou-se lugar comum dizer que o rádio no Brasil é o companheiro inseparável de milhares de pessoas que estão em casa, no trabalho, no carro ou no shopping. Espalhado por toda a parte, é incontestável sua presença no cotidiano. De tão comum, nem sempre é notado. Soa, às vezes, apenas como um ruído de fundo.

A tecnologia de transmissão de som por ondas eletromagnéticas inventada há cem anos ainda parece perfeita. Um simples e barato aparelho receptor pode atender com rapidez às demandas por lazer e informação de boa parte da população. O que parece tão bom pode ficar ainda melhor. Tudo por causa de uma revolução tecnológica que está sendo experimentada em vários países.

Imagine acordar pela manhã ao som de um rádio com qualidade de CD programado para sintonizar sua emissora favorita. Logo em seguida, você aciona um botão do aparelho e recebe pela tela de cristal líquido - um display acoplado - um boletim meteorológico de sua cidade. Ao sair para o trabalho, liga o rádio do carro, coloca no painel da tela o seu destino e o sistema lhe indica, no mapa da cidade, o trajeto livre de congestionamentos. Se desejar, o mesmo aparelho disponibiliza vários tipos de informação: o nome do cantor de uma música, notícias selecionadas, a programação diária da emissora, a cotação da bolsa de valores e de outros índices econômicos. Tudo muito fácil de acessar e com a vantagem adicional de poder ler essas informações ao som do comunicador mais animado e divertido que você conhece. Delírio de futurista otimista? De forma alguma. A digitalização do sinal de transmissão de rádio oferece essas e muitas outras vantagens para o ouvinte.

A transformação do sinal de analógico em bits (informação numérica) provocará, talvez, a mudança mais radical experimentada pelo rádio desde a invenção do transistor e da freqüência modulada. E não é para menos. A qualidade de som do AM melhorará de forma fantástica, passando a ter qualidade equivalente ao do FM atual. O ganho maior é da FM, que contará com som igual ao do CD. Favorecerá ainda o desaparecimento por completo de interferências na transmissão de sinais nas freqüências AM e FM.

Outra vantagem é a possibilidade de transmissão simultânea de dados para os aparelhos receptores dos ouvintes ou em outras plataformas de mídia e de distribuição de informação - organizadores pessoais, telefones móveis, leitores eletrônicos e a Internet. Enfim, a digitalização abre as portas para o rádio integrar-se ao processo de convergência entre as telecomunicações, os meios de comunicação de massa e a informática que dará origem a um novo sistema de comunicação identificado por seu alcance global, pela interatividade e pela integração de todos os meios em uma rede.

Um jeito novo de fazer rádio

O rádio digital é uma revolução técnica tão significativa que irá alterar o modo de produção da programação, de distribuição de sinais e a recepção da mensagem radiofônica. Pesquisadores da área de várias partes do mundo apontam para a necessidade de uma "reinvenção" do rádio para que possa se adaptar à nova tecnologia.

A mais evidente reinvenção está relacionada à diversificação do conteúdo para atender ao crescimento da oferta decorrente da diversificação de modalidades de canais. A tecnologia permite a multiplicidade de formas de transmissão. Uma única emissora poderá operar transmissores terrestres para cobertura nacional ou local, transmissores por satélite para cobertura de grandes zonas, transmissores por cabo para zonas pequenas, além de transmitir dados e serviços especializados.

Essa variedade de formas de transmissão provocará uma reconfiguração dos atuais conteúdos e das funções sociais do rádio. É evidente que haverá um aprofundamento da segmentação da programação para atender a diferentes faixas ou segmentos da audiência: uma hiperespecialização não só pela música, com seus mais variados gêneros e estilos, mas também pela temática - emissoras especializadas em esportes, turismo, economia, literatura, entre outros.

Tais mudanças poderão pôr fim à audiência massiva e à fidelidade do ouvinte a uma única emissora, o que exigirá dos radiodifusores muita criatividade não somente para gerar conteúdos específicos, como também para enfrentar o desafio de fazer rádio para ser lido. É isso mesmo. Diante da possibilidade de transmissão de dados e oferta de serviços especializados, o rádio não mais se caracterizará como um meio de comunicação exclusivamente sonoro. Boa parte de seu conteúdo também poderá ser lido na tela de cristal líquido do aparelho receptor digital - portátil e multifuncional - ou em outras plataformas de mídias convergentes.

Ao conviver com outros serviços de áudio, texto, imagens e integrar cadeias de serviços de informação, entretenimento e comércio eletrônico, fatalmente haverá uma sinergia que estimulará o radiodifusor a buscar parcerias e alianças estratégicas com provedores de conteúdo para desenvolver serviços complementares e agregar valor à programação do rádio. Um cenário que sugere ao radiodifusor abrir mão do conteúdo exclusivo para entrar no campo da troca de informação. Significa modificar a estrutura de trabalho dos produtores de rádio tradicionais adequando seu perfil para mais próximo do provedor de conteúdo.

Definitivamente, no futuro o rádio não será mais um negócio para solitários. A digitalização abre caminhos para a diversificação do negócio a partir de parcerias que favoreçam o aumento da oferta de novos produtos e, conseqüentemente, da rentabilidade das emissoras. Quem sabe, finalmente, o rádio deixará de ser o eterno primo pobre entre os demais meios de comunicação.