Artigos sobre Radiodifusão

O RÁDIO NAS PÁGINAS DA REVISTA DO GLOBO

O RÁDIO NAS PÁGINAS DA REVISTA DO GLOBO

(1929 / 1967)

Por Doris Fagundes Haussen e Adriana Ruschel Duval

De 1929 a 1967 circulou a Revista do Globo, de Porto Alegre. Em 1924 começam as primeiras experiências radiofônicas no Rio Grande do Sul, com a Rádio Sociedade Riograndense, na capital gaúcha. Como a Revista do Globo e o rádio iniciam as suas atividades praticamente ao mesmo tempo, o presente artigo procura resgatar de que forma a nova tecnologia do rádio era registrada nas páginas da revista. O nascimento do rádio em Porto Alegre ocorre em 1924, com a criação da Rádio Sociedade Riograndense, uma experiência amadorística que não chega a durar dois anos. Oficialmente, no entanto, considera-se a data de 8 de fevereiro de 1927, quando foi criada a Rádio Sociedade Gaúcha, pertencente hoje à Rede Brasil Sul de Comunicações - RBS, como a referência ao início da radiodifusão com continuidade no tempo, na capital gaúcha. Seguem-se a Rádio Difusora Porto-Alegrense - PRF-9, em 1934, e, em 1935, a Rádio Sociedade Farroupilha - PRH-2. No interior do Rio Grande do Sul a mais antiga foi a Rádio Pelotense, fundada em 1925, na cidade de Pelotas.

Era o início de uma nova era na área da Comunicação, o tempo e o espaço estavam sendo dominados a serviço da divulgação de informações e da cultura. As primeiras experiências colocavam no ar os valores locais - músicos, cantores, declamadores. Os países da América Latina começavam a se construir como nações, com a emergência das massas urbanas em torno das cidades. O populismo espalhava-se com o surgimento de líderes que tomavam para si o papel de “pais” das nações. No Brasil, em 1930, Getúlio Vargas assumiu este papel e desde o início percebeu as potencialidades do rádio como veículo de divulgação das idéias populistas e de organizador de uma consciência nacional.

A Revista do Globo

Em 1928, ainda quando governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas e o então secretário do Interior e Justiça, Osvaldo Aranha, discutiam a importância da criação de uma revista no Estado. A idéia já vinha sendo estudada por Mansueto Bernardi desde 1925 e, com o apoio dos sócios da Livraria do Globo, Osvaldo Renzsche e Mário Barcellos (o outro sócio, José Bertaso, estava receoso com a aventura mas acabou concordando), a revista saiu em 5 de janeiro de 1929 e circularia até 1967, ano do seu encerramento, num total de 942 fascículos. Ela era composta em sistema tipográfico, com uma média de 70 páginas e formato 20,5x27cm. Desde o seu primeiro número, percebe-se que havia uma intenção regional/internacional sobre a mesma. No preâmbulo da revista, em 1929, Mansueto Bernardi cita os nomes sugeridos para a publicação: Coxilha; Querência; Pampa; Guahyba e outros.

“Mas nenhum satisfez. Enquanto se perdia ou ganhava tempo questionando, com freqüência se nos perguntavam na rua: quando sai a Revista do Globo? Foi daí que proveio o nome afinal imposto a este quinzenário.” E que efetivamente caracterizaria o rosto da revista: ao mesmo tempo preocupada com a cultura gaúcha, mas sem perder de vista a universalidade em seus textos e reportagens. A editora Globo teve suas origens na livraria, criada em 1883, e que já tinha uma tradição consolidada. O lançamento do periódico causou grande agitação - nas confeitarias, nos cafés e restaurantes da Porto Alegre do final da década de 20 o assunto era o mesmo: a Revista do Globo. Desde o início a sociedade se fez presente em suas páginas e capas e o conteúdo tratava de notícias locais, reportagens nacionais e internacionais e crônicas sobre literatura, teatro e cinema. “Ela passou a ser o mais importante instrumento da literatura e da arte em geral, espaço que compartilhava com acontecimentos sociais e políticos, com moda, humor e esportes”.

            Também havia uma estrutura de correspondentes no exterior e autores nacionais. “Junto a isso, possuía uma cara regional - o Rio Grande do Sul tinha uma marca forte na edição. Ela tinha o pé fincado na região, mas com expressão nacional. O projeto editorial era o mais importante nas décadas de 30 e 40”.

O Rádio nas páginas da Revista

Em 1929, ano do seu surgimento, a Revista do Globo editou 24 números. A Rádio Gaúcha, a única da cidade, fazia dois anos, era mantida pela contribuição de associados que pagavam cerca de dois mil réis mensais e possuía uma programação amadorística e eclética. Nesse primeiro ano, a revista destinou apenas seis colunas a temas ligados ao rádio, sendo que três delas eram ocupadas pela foto da Miss Rio Grande do Sul visitando a Rádio Gaúcha - era o sexto número da revista. O cinema, por seu turno, aparecia em 12 revistas.

Na década de 30, o rádio merece pouco destaque nas páginas da revista - em média seis matérias no total dos 24 números anuais. Após 1935, há um pouco mais de divulgação sobre o veículo, a partir da inauguração das outras duas emissoras em Porto Alegre - a Rádio Difusora, em 1934, e a Rádio Farroupilha, em 1935. No ano seguinte, 1936, a revista cria a seção “Música no Ar” que aborda o trabalho nas emissoras locais e os acontecimentos quinzenais. O radialista pioneiro em Porto Alegre, Nilo Ruschel, redige uma crônica sobre a rotina em um estúdio de rádio (revista nº 192, de 10.10.1936). Nessa época há publicidade sobre aparelhos receptores das marcas General Elétric, Telefunken, Zündapp Mende, American Bosch, RCA Victor, Tefag, Crosley, Olympia, Andrea Radio, Philips e Rádio Pye. Quanto ao cinema, aparece praticamente em todos os números da revista.

O início da década de 40 não apresenta grandes modificações no panorama - o rádio quase não é divulgado e o cinema aparece quase sempre. Em 1940 há uma foto de Getúlio Vargas e de Loureiro da Silva ao microfone da Rádio Difusora. Começam a aparecer timidamente matérias sobre atores de rádio: é divulgado o “romance” entre Pery Borges e Estelita Bell. Em 1942, na seção “Correio da Revista”, uma leitora escreve dizendo-se “apaixonada” por um “speaker” da cidade.

Em 1945 a radionovela é abordada:

“Romances inteiros são transformados em diálogos repassados de exclamações e suspiros (...) E o ouvinte, com a força da sua imaginação, vai criando, enquanto escuta, o cenário maravilhoso de um mundo de sonho...” (Revista do Globo, ano XVI, nº 388, p. 33).

É também comentada a novela “Dúvida”, escrita por Saint Clair Lopes e irradiada pela Rádio Farroupilha, com direção de Walter Ferreira e elenco gaúcho. Na publicidade há divulgação do Repórter Esso. Um dado interessante em 1946: era a primeira vez que a revista abordava a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a mais importante do país, e que tinha sido criada em 1936 e encampada pela União em 1940, no governo Vargas. A matéria tratava do programa de calouros “A Hora do Pato”, animado por Jorge Cury. E a década de 40, na revista, revela que o rádio continuava com pouco espaço - em 1949 era dez vezes menor que o destinado ao cinema.

Na década de 50 a revista dava mais espaço à Rádio Farroupilha, que aumentava a sua potência para 50kw e a publicidade divulgava a Brahma Chopp, que tinha na Rádio Gaúcha um programa esportivo com o seu patrocínio. Emissoras do interior e de outros Estados divulgavam-se através das páginas da revista, entre elas a Jornal do Commércio, de Recife, e as Rádios Record e Panamericana, de São Paulo, demonstrando o alcance da publicação. Em 1952 há matéria sobre a futura emissora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em 1954, o suicídio do presidente Getúlio Vargas leva a multidão a destruir os estúdios da Rádio Farroupilha, de propriedade dos Diários e Emissoras Associados, bem como a Rádio Difusora, assim divulgados pela revista:

“Os Associados Diário de Notícias e Rádio Farroupilha tiveram sorte pior. Foram totalmente destruídos, primeiro a porrete e depois a fogo (...) A Rádio Difusora, também Associada, e seu auditório, à rua Siqueira Campos, foram abandonados a destroços”. (Revista do Globo, ano XXVI, nº 621, p. 57)

Na década de 50, a revista dedicou um número maior de matérias sobre o rádio abordando os programas de auditório das emissoras locais, bem como a escolha da Rainha do Rádio, tanto nacional como local. Nesses anos, os atores, cantores, humoristas e locutores tiveram um tratamento semelhante ao dos astros e estrelas de cinema. Eram os “anos dourados” do rádio.

Na década de 60, nos três primeiros anos, o rádio teve divulgação razoável. A partir de 1963 houve grande diminuição de espaço, chegando a se registrar apenas uma matéria nas 25 revistas editadas em 1965, por exemplo. A televisão já se consolidava - embora a revista não destinasse ao veículo muito atenção - e o cinema continuava reinando nas páginas da Revista do Globo até 1967, ano de encerramento da mesma.

Considerações finais

De um modo geral, a Revista do Globo teve uma trajetória estável em seus 38 anos de existência. Mantendo coerência com a sua proposta inicial, foi regional e universal ao mesmo tempo. Contou com um corpo importante de profissionais tendo trabalhado muito a reportagem, inclusive com correspondentes nacionais e internacionais, e dedicado bastante espaço à literatura e ao cinema. O rádio, no entanto, foi o grande ausente. Embora tenham nascido praticamente juntos, a revista abriu pouco espaço ao “novo” veículo de comunicação. O cinema sempre foi o veículo privilegiado. Por que? De alguma forma, o cinema, desde o seu início, significou “a busca de se produzir arte para um público de massas” (Oroz, 1993). E esta aproximação de arte/literatura/cinema ajustava-se melhor à linha editorial da revista.

A relação da Revista com o rádio, assim, foi superficial, uma vez que possuía uma proposta literária - portanto voltada a uma tradição advinda da escrita - e nela legitimada. Mesmo levando em conta a novidade do veículo à época e, inclusive, tendo o escritor Érico Veríssimo como um dos seus diretores (nos anos 30 ele apresentava um programa infantil na Rádio Farroupilha onde contava histórias - que mais tarde viriam a constituir a Coleção Nanquinote, para crianças), a revista deu pouca atenção ao veículo.

Outra questão a ser considerada é o fato do rádio, passados os primeiros anos amadorísticos, ter se tornado um veículo popular com suas radionovelas e programas de auditório. A Revista do Globo, de algum modo, sempre teve intenções literárias voltadas para um determinado público que, aparentemente, não era o do rádio. Apenas “aparentemente”, pois quem viveu aqueles anos e não ouviu radionovela? Foi preciso o escritor Mario Vargas Llosa (um literato, portanto) recuperar em seu romance Tia Júlia e o Escrevinhador a importância desse gênero na cultura, para que se prestasse maior atenção ao mesmo e ao rádio.

Assim, resgatar o papel desempenhado pelo rádio na cultura brasileira é de suma importância. Pesquisas futuras, que analisem outras publicações semelhantes da época, poderão oferecer novas pistas para aprofundar o assunto.

* Doris Fagundes Haussen
Prof. Dra. da FAMECOS/ PUCRS e da FABICO/UFRGS
* Adriana Ruschel Duval
Professora da UNISINOS