Artigos sobre Radiodifusão

O GALENA

O RÁDIO E A CULTURA

Prof. Ir. Elvo Clemente

Ao escolher o título deste artigo pensei no relacionamento estreito existente entre o veículo de comunicação e o produto tão importante para a vida de cada pessoa, de cada comunidade, do país e do universo. Sem a cultura o ser humano não é pessoa, pois entende-se por cultura o aperfeiçoamento do ente, trabalho constante desde antes do nascimento até o fechar os olhos.

O artigo terá várias partes sendo a primeira, uma visão histórico-evolutiva do rádio.

         1 - HISTÓRIA DO RÁDIO

O último quartel do século XIX foi marcado por importantes avanços na ciência e em especial no telégrafo e na telefonia. Em 1876 Alexandre Graham Bell inventava o telefone. Daí por diante as experiências não pararam nos principais países. As teorias das ondas eletromagnéticas foram se afirmando com James Clerk.Maxwell, já em 1864, aperfeiçoadas posteriormente, em 1888, por Heinrich Rudolf Hertz. Em 1894 Guglielmo Marconi usou das novas conquistas, conseguiu captar por uma antena receptora por ele criada, os sinais do alfabeto Morse proveniente de emissor rudimentar, localizado a uma centena de metros. O mesmo cientista italiano, em 1901, conseguiu ampliar as experiências alcançando, sem fio, captar um sinal em Newfoundland emitido de Cornwall, Inglaterra.

Estava inventando o RÁDIO, Marconi incompreendido pelo governo da Itália, estabeleceu na Inglaterra a Marconi Company, que em 1899, chegava aos Estados Unidos da América. Enquanto isso tudo se passava no Velho Mundo, aqui no Brasil, Roberto Landell de Moura, gaúcho, nascido a 21 de janeiro de 1861, na cidade de Porto Alegre, era sacerdote ordenado a 28 de novembro de 1896, em Roma. Fizera estudos científicos e eclesiásticos. Curioso realizava experiências em telegrafia e telefonia, conseguindo com isso a fama de bruxo. Ficou em sua terra natal, Porto Alegre-RS, até 1891, lecionou História Universal, no Seminário Maior e exerceu a capelania da Igreja Nosso Senhor do Bomfim.

Em 1893, realizava uma experiência pública, a primeira precursora do rádio. Sucesso total! Consegue transmitir a voz a uma distância de oito quilômetros sem utilização de fios. A experiência de Marconi conseguia algo de semelhante na Inglaterra em 1901... Monsenhor Roberto Landell de Moura teve o nome lembrado por Nilo Miranda Ruschel, quando da formação da FEPLAM - Fundação Educacional Padre Landell de Moura.... Na história das ciências das descobertas e dos inventos há sempre alguém glorificado pelas benesses da fama e outro relegado à sombra do esquecimento. O rádio surgido no início do século XX, teve seu desenvolvimento por ocasião da primeira Guerra Mundial de 1914 a 18, servindo para comunicados e orientações na movimentação no exército ao longo das extensas e cruéis trincheiras que serpeavam do Mar do Norte ao Cáspio, dos Pirineus aos Cárpatos.

Em 1997, a Professora Mágda Rodrigues da Cunha Galia organizou a dissertação de Mestrado na Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUCRS sob o título “O receptor idealizado pelo discurso radiofônico. Uma análise do emissor em “GAÚCHA HOJE” e “FLÁVIO ALCARAZ GOMES REPÓRTER”. A dissertação possui dois orientadores: Dra. Dóris Fagundes Haussen e Roberto José Ramos. A partir da página 73, até a página 102 há os traços essenciais da história do Rádio no mundo, no Brasil e no Rio Grande do Sul.

A professora apresenta as grandes transformações do rádio após a primeira Guerra Mundial, salientando:

1) Programação na área comercial, na conquista de maior público para facilitar a venda dos produtos anunciados;

2) Criação de novos gêneros quer na música, quer no canto quer nos dramas ou comédias;

3) Atribuição à palavra uma força especial, sem apoio de imagens e da cena teatral desencadear a máxima participação emotiva.

Ainda na década de 1920, Benito Mussolini utilizou o rádio como apoio de seus discursos na Piazza di Spagna, de Roma para a Itália e para o mundo. O rádio, instrumento da difusão das ideologias políticas, foi utilizado com mais freqüência e extensão na década de 1930, com as experiências extraordinárias de Paul Josef Goebbels (1897 - 1945), líder nazista e Ministro da Propaganda hitlerista. Na Rússia, Vladimir Ilich, que assumiu o pseudônimo de Lenin por ter estado prisioneiro junto do rio Lena, na Sibéria, soube valer-se do rádio para instaurar a Revolução Soviética, a 7 de novembro de 1917, constituindo depois a URSS ( União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). O rádio estava presente em Moscou, em São Petersburgo ou nas vastas estepes da Sibéria. Através das ondas hertzianas os discursos dos líderes chegavam aos ouvidos das populações.

O que acontecia nos países totalitários acontecia também nos países democráticos na França, nos Estados Unidos e alhures. Após o Tratado de Versailles, a Liga das Nações sediada em Genebra (Suiça), soube, desde logo, organizar uma associação supra nacional para conseguir o uso pacífico e cultural do rádio. Criou-se então a União Internacional para a Radiodifusão, em 1925. Nos países da Europa tanto  democráticos como totalitários surgiram as rádios oficiais pelos governos, ao lado dessas apareceram as emissoras clandestinas que provinham das guerrilhas, os movimentos opostos à ordem e às ideologias oficiais.

No Brasil, o rádio foi implantado aos poucos, primeiramente na Capital da República, depois nas capitais dos Estados. Em setembro de 1922, por ocasião das celebrações do 1º Centenário da Independência, realizou-se a primeira emissão radiofônica no País: discurso do Presidente Epitácio Pessoa, no âmbito da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência.Experiência importante foi a do educador e antropólogo Edgard Roquette Pinto, nascido no Rio de Janeiro em 1884, falecido na mesma cidade em 1954. Formou-se em Medicina, foi professor de Antropologia no Museu Nacional. Participou da Missão Rondon em 1907 e 8. Escreveu vários livros: Sambaquis, Rondônia. Dedicou-se, porém, ao rádio ao fundar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que passou a constituir a Rádio do Ministério da Educação e Cultura, em 1923. Tomou mais tarde a Rádio Roquette Pinto. Fundou, outrossim, o Instituto Nacional do Cinema Educativo.

Figuras como o Padre Roberto Landell de Moura, Edgard Roquette Pinto muito fizeram para a afirmação do rádio como meio de comunicação, como meio de cultura, como meio de propaganda política. No Rio Grande do Sul o rádio ficava nas experiências de Landell de Moura, que surgiu com toda a força. Octávio Augusto Vampré, em seu livro Raizes e evolução do rádio e da televisão, citado pela Mestra Magda Rodrigues da Cunha Galia, escreve: “Durante muito tempo, a história registrou que, no Rio Grande do Sul, o veículo nasceu em 1925, com a Sociedade Rádio Pelotense, em uma loja comercial no centro da cidade de Pelotas, seguida pela Rádio Sociedade Gaúcha, dois anos depois. Na verdade, o Rádio no Sul acompanhou de perto a implantação do veículo em todo o país. No ano de 1924. foi criada em Porto Alegre a Rádio Sociedade Riograndense.”

Em 1927, continua Magda, em 7 de fevereiro, foi constituída a Rádio Sociedade Gaúcha. No dia 19 de novembro do mesmo ano, era inaugurada oficialmente a emissora que já funcionava em caráter experimental desde setembro. Na festa da uva, fevereiro de 1932, a Rádio Gaúcha irradiava o evento a partir de Caxias do Sul-RS. Em 1934, surgia a segunda emissora-rádio Difusora Portoalegrense, que iniciou o funcionamento num departamento da Casa Coates, fundada pelo proprietário da loja, Arthur Pizzoli. Em 1935, era lançada a Rádio Farroupilha, terceira emissora gaúcha, pelos filhos do Governador do Estado: Luiz e Antônio Flores da Cunha. Participava também da Sociedade, Arnaldo Balvé, que assumiu a direção da emissora e desde aquela época, foi dos mais destacados radiodifusores do Sul do Brasil.

A Farroupilha foi a primeira a possuir um canal internacional exclusivo. Os estúdios situaram-se na rua Duque de Caxias até 1954, quando foi incendiada por populares, exaltados com a morte de Getúlio Vargas no dia 24 de agosto de 1954. As emissoras Associadas, de Assis Chateaubriand, assumiam em 1943, o controle da Rádio Farroupilha. Arnaldo Balvé afastou-se, assumindo a direção da Rádio Sociedade Gaúcha, acompanhado por diversos artista. Balvé deixou a Gaúcha, em 1945, fundando as Emissoras Reunidas-Rádio Cultura, no interior. Os anos 50 e 60 são marcados pela proliferação de emissoras em outras cidades do Rio Grande do Sul. A Rádio Sociedade Cruzaltense iniciou suas operações em 1930, se manteve no ar até 1931. Em Santa Maria, em 1942, o jornal A Razão publicava um edital, convocando acionistas da Rádio Imembuí para a assembléia geral de constituição de capital. No mesmo ano, era fundada a Difusora Riograndina, em Rio Grande-RS. Em 1943, nascia a emissora mais distante da capital do Estado, a Rádio Charrua, de Uruguaiana-RS.

Mais quatro emissoras do grupo de Balvé, surgiam em 1947: rádios Alegrete, Carazinho, Erechim e Santo Ângelo. Em Bento Gonçalves, surgia a Sociedade Difusora de Bento Gonçalves. Em 1948, em São Leopoldo aparecia a emissora Progresso, integrante do grupo Emissoras Reunidas. No dia 30 de abril de 1957, ia oficialmente ao ar, em Porto Alegre, a Rádio Guaíba, sob o comando do empresário Dr. Breno Caldas, ex-proprietário da Rádio Gaúcha, diretor presidente do Correio do Povo e do vespertino Folha da Tarde. O diretor da Guaíba foi Arlindo Pasqualini coadjuvado por Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes. A Rádio Guaíba notabilizou-se desde logo por uma personalidade marcante, diferente das outras emissoras brasileiras, apresentava muita música, futebol e noticiosos. A propaganda era apresentada pela voz dos seus locutores.

Desde cedo a Guaíba apresentou coberturas internacionais: a copa mundial de futebol, na Suécia; retransmissão dos sinais bip-bip do Sputnik II, de Moscou. Vampré registra o ano de 1957 com invulgar importância nas transferências acionárias, juntamente com Maurício Sirotsky Sobrinho, assumiram o controle da Rádio Sociedade Gaúcha, com Frederico Arnaldo Balvé e Nestor Rizzo, no mesmo ano em que nascia a RBS - Rede Brasil Sul de Comunicações. O ano de 1962 marcou a história da Rádio Guaíba. Pela renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961, o Brasil começou uma etapa difícil, pois as Forças Armadas se opuseram à assunção da presidência da República pelo Vice, Dr. João Goulart, em viagem à China. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, formou a Rede da Legalidade, no próprio Palácio Piratini, sob o comando da Rádio Guaíba. Todas as emissoras de rádio entraram em cadeia com a chefia da Rede da Legalidade.

As rádios Gaúcha e Guaíba muito cresceram nas três útimas décadas. Ambas, têm programas diferentes mas intensificam os horários de esporte em especial do futebol. Mantém bons noticiosos e interessantes entrevistas e   reportagens, fazem delas as preferidas em audiência dos radiouvintes dos três estados do Sul e boa parte do Brasil. A Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão - AGERT, assinala que o Rio Grande do Sul, possuía em fevereiro de 1996 o registro de 176 emissoras AM, l45 emissoras FM e 21 emissoras de televisão.

Os números tendem a aumentar apesar do controle do Governo da União, no Rio Grande do Sul.

         2 - RÁDIO e CULTURA

O rádio evolucionou de maneira surpreendente longe de minorar, a sua influência foram crescendo com o correr dos anos. Com a invenção do transistor, o rádio ficou mais perto das pessoas e mais perto da divulgação da cultura. Os radinhos, pequenos em seu formato e de pouco preço podem estar em qualquer lugar sem estarem ligados a uma corrente elétrica, as pilhas minúsculas realizam uma tarefa notável. O rádio está presente 24 horas por dia na vida de qualquer pessoa, em qualquer país do mundo e de qualquer procedência. Experiências sem conta foram realizadas na divulgação da cultura e na sua incorporação pelas pessoas, pelas comunidades. A cultura define-se como ação aperfeiçoadora da pessoa e do grupo social. Inúmeras são as possibilidades do rádio incentivar e semear a cultura.

Vamos enumerar algumas entre tantas:

2.1 - Cursos de aprendizagem a distância, tais como alfabetização para adultos, supletivos, revisão de conteúdos, etc.
2.2 - O rádio criou gêneros totalmente novos como programas de variedades, os de perguntas e respostas. No campo literário surgiu a radionovela, que teve considerável aceitação, pois aí valeu a força e a arte da dicção da palavra sem o apoio de imagens e da cena teatral.
Há dois exemplos memoráveis: o episódio da Guerra dos Mundos, em 1938, organização cômico-dramática de Orson Welles, com 6 milhões de ouvintes e que pelo menos 1 milhão ficaram com medo.... “Direito de Nascer” radionovela cubana teve, outrossim, extraordinária audiência quando veiculada em português pelas rádios brasileiras.
2.3 - Audições de música de vários gêneros de acordo com a preferência do público: popular, erudita, clássica, moderna, etc.
2.4 - Peças de teatro representadas nos estúdios e ouvidas atentamente em salas da família reunida, em clubes, em ambientes pequenos e vastos sempre com a magia da voz dos locutores mesclada com a arte da expressão verbal.
2.5 - Transmissão de conferências de temas científicos, filosóficos, políticos, atuais ou tradicionais.
2.6 - Transmissão de solenidades e de atos cívicos, alimentando nos cidadãos o amor à pátria, ao solo do país de origem.
2.7 - Discussões e debates de temas polêmicos de cunho social, político, partidário ou religioso.

         3 - CONCLUSÃO

As atividades culturais das pessoas, dos grupos, das comunidades todas passavem e ainda passam através das ondas hertzianas sendo levadas a distâncias inconcebíveis. Aí são as ondas direcionadas quando se ouvem programas produzidos no Japão, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha ou alhures. O rádio, ainda hoje, aproxima distâncias. Coloca ao alcance da cultura provinda de estúdios altamente sofisticados das grandes metrópoles da terra. O milagre do transistor de tamanho reduzidíssimo na captação de vozes, de sons musicais, de suspiros e sussurros culturais. O rádio pode ser ouvido em qualquer ambiente, não necessita de corrente elétrica, basta-lhe minúscula pilha.

A comunicação torna-se a base da cultura que vai sendo apreendida através das ondas hertzianas nos mais afastados mundos, longe da civilização que se torna perto, que se desfruta na intimidade mais reservada e abscôndita da personalidade. O rádio, invento maravilhoso, fonte de cultura, campo de lazer, companheiro na solidão, amigo de quem não tem amigos a seu derredor. Do século da radiodifusão em que vive o universo, muitos inventos nasceram dessas mesmas ondas hertzianas. Surgiu a telelvisão com todas as satisfações das redes (NET) de todas as internets, o RÁDIO, porém, mantém a sua vida e o seu vigor das primeiras décadas.

Nenhum meio de comunicação suplanta o anterior ou contemporâneo. Ainda o rádio tem lugar privilegiado nas freqüências FM ou AM, nos programas de esporte, nas audições musicais e sobretudo nos noticiosos rápidos ou comentados, sempre ouvidos. Ao considerar o vasto panorama coberto pelo rádio, almejo dias de muita fortuna aos 350 rádios do Rio Grande do Sul. Uma menção especial à Rádio Gaúcha que celebra os 75 anos, à Radio Guaíba que festeja os 45 anos. Bendita concorrência que aperfeiçoa os programas, que incentiva a criatividade para que os ouvintes possam captar sons e palavras que lhe façam bem ao coração e à mente.