Artigos sobre Radiodifusão

O FENÔMENO RÁDIO

O FENÔMENO RÁDIO

Um locutor carioca de grande fama, que se intitulava Príncipe Baby, foi contratado certa vez para trabalhar na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre-RS, lá pela década de 50. Um dia, ao ocupar o microfone para anunciar o chorinho Enxame de Abelhas, de Benedito Lacerda, não teve dúvidas. Leu Encha-me de Abelhas. Em outra ocasião, ao anunciar a música Les Cloches de Comeville (Os Sinos de Comeville), disse, com a mesma empáfia: acabamos de ouvir As Conchas de...

Engraçado? Certamente. Na época, porém, ao cometerem gafes dessa ordem, os locutores precisavam de muito jogo de cintura para não virar motivo de absoluta piada entre o público e, pior, entre os próprios colegas. Historietas tragicômicas como essas integram a parte folclórica de uma ainda prematura história do rádio no Rio Grande do Sul. Uma trajetória, entretanto, cheia de peculiaridades e de personagens antológicos, alguns heróicos e aventureiros, responsáveis pela transformação do rádio gaúcho em um dos mais respeitados do Brasil. Uma história que, este ano, comemora grandes datas: a Rádio Pelotense, a mais antiga emissora comercial do Estado e terceira mais antiga do Brasil, criada em 1925, está completando 77 anos. A Gaúcha, de 1927, faz 75, enquanto a Guaíba comemora 45 anos.

São aniversários que devem ser festejados. Até porque a programação e o perfil dessas emissoras têm conseguido acompanhar os tempos de mudança, os fatos e, principalmente, mantido a audiência cativa do ouvinte. De quebra, sobretudo a Gaúcha e a Guaíba têm estabelecido padrões de referência para dezenas de emissoras brasileiras. “Nós somos o único Estado, por exemplo, que faz duplex. Ou seja: que transmite os jogos de futebol ao mesmo tempo, quando a dupla Grenal joga no mesmo horário. Em Minas Gerais, eles estão tentando fazer isso”, salienta João Garcia, o experiente radialista da Band AM e presidente da Associação de Cronistas Esportivos Gaúchos. Sobre possíveis diferenças entre o radiojornalismo feito aqui e o produzido em outros Estados, Garcia é taxativo: existem diferenças, sim.

- O nosso radiojornalismo é de opinião. O de São Paulo também tem opinião, mas tem muito mais informação, enquanto o rádio do Rio é informativo. Mas o tipo de rádio que nós fazemos é realmente único. Se a gente observar, a maioria das nossas entrevistas é ao vivo, e as intervenções dos repórteres são rápidas. Em emissoras do Rio e de São Paulo é diferente: há muita entrevista gravada. Essa é uma característica que distingue o nosso rádio, além do forte viés investigativo - pontua.

Para Armindo Antônio Ranzolin, diretor-geral da Rádio Gaúcha, os diferenciais do rádio daqui se explicam, também, pelo viés cultural: - É uma questão que herdamos da vizinhança. Ao longo das décadas de 20 e 40, ouvimos muito as emissoras argentinas. Hoje, o rádio argentino já não tem a mesma qualidade, mas durante muito tempo ele foi referência, e isso certamente nos influênciou.

Glênio Reis, lendário apresentador e showman da Gaúcha e da Farroupilha desde a década de 50, acredita que aqui, realmente, as coisas são diferente:  - Aqui, o rádio faz parte das nossas vidas, muito mais do que nos outros lugares. Muitas pessoas deixam o rádio ligado sempre, onde quer que estejam. É uma mania.

De fato, para muitos, o rádio é um verdadeiro chiclete para os ouvidos. Há pessoas que não conseguem trabalhar desligadas do aparelho, enquanto, para muitos ouvintes, se um determinado radialista ou comentarista não menciona alguma informação, é porque não se trata de algo importante, tamanha a credibilidade que certos nomes alcançaram. O fato é que, amados ou odiados, não podemos falar de uma “breve história do rádio no Estado”, sem mencionar profissionais como Ênio Rockenbach, Rogério Mendelsky, Manoel Braga Gastal, Lasier Martins, Ivan Castro, Lauro Quadros, Ruy Carlos Ostermann, Flávio Alcaraz Gomes, Lauro Hagemann, Cândido Norberto, Armindo Antônio Ranzolin, Milton Jung, Walter Galvani, Fernando Veronezi, Amir Domingues, Sérgio Zambiasi, entre tantos, tantos outros. Todos já passaram por poucas e boas. As passagens são muitas, e algumas precisam ser relembradas.

DOIS DEDINHOS DE HISTÓRIA

Tudo começou em 1924, quando um grupo de radioamadores trouxe de Buenos Aires a Porto Alegre um aparelho transmissor e inaugurou a Rádio Sociedade Riograndense, nos mesmos moldes da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, criada um ano antes por Roquette Pinto e Henrique Morize. Na noite de lançamento, estranhas engenhocas atraíam os espectadores. Eram as galenas, muito semelhantes aos fones de ouvido, que, ligadas a baterias, captavam o som. Alguns aparelhos tinham também cornetas acopladas para amplificar o áudio. A Rádio Sociedade Riograndense deveria se manter por meio da mensalidade de 5 mil réis dos cerca de 300 associados, mas poucos pagavam. Sem fôlego para bancar os custos de operação, encerrou melancolicamente suas atividades antes de completar dois anos de vida.

Pouco tempo depois, o rádio já chegava a Pelotas, e é de lá a primeira emissora organizada em moldes comerciais, registrada, inclusive, como uma sociedade anônima. Era a Rádio Pelotense, até hoje em atividade. Com seu prefixo POP, baseava sua programação nas emissoras de Buenos Aires e Montevidéu. Tanto o estúdio quanto o transmissor ficavam no interior do Palácio dos Cristais, tradicional loja do centro da cidade, que tinha seus produtos oferecidos em reclames animados transmitidos pelo sistema. Mas eram poucas as famílias que dispunham do aparelho.  Astutamente, os donos do empreendimento passaram a alugar rádios receptores mediante a taxa de 25 mil réis mensais. E assim o negócio foi se estruturando.

De olho no sucesso alcançado pela Pelotense, o empresário Carlos Ribeiro de Freitas seguiria o exemplo e faria a primeira transmissão da Rádio Gaúcha, apresentada à sociedade por meio do prefixo PRA-Q, A Voz dos Pampas, mais tarde mudada para PRC-2. Os estúdios e o transmissor ficavam no 6º andar do Grande Hotel, na Rua dos Andradas, em frente à Praça da Alfândega. A aparelhagem se constituía de uma vitrola a manivela, um microfone e uma enorme corneta - que servia para a propagação das músicas e da voz do speaker, como era chamado o locutor -, além de alguns discos de acetato. A potência de 50 watts era inexpressiva, se comparada aos 100 quilowatts atuais. Mas, para a época, tratava-se de um ambicioso empreendimento. Tanto que a direção se preocupou em criar um departamento comercial, em que os locutores muitas vezes se transformavam em corretores de anúncios.

Não demorou para que o rádio virasse febre, transformando-se no primeiro veículo de comunicação de massa do país. Getúlio Vargas, como poucos, soube utilizá-lo em seu governo, conquistando brasileiros em todos os cantos do país. Assumido como veículo de integração nacional, o rádio foi criando uma base sólida de ouvintes. No Rio Grande do Sul, a crescente audiência abriu caminho para o surgimento das rádios Difusora e Farroupilha em meados da década de 30. A Difusora, “transmitindo diretamente de seu salão grená”, surgiu em 1934, sob o prefixo PRF-9, graças à visão comercial de Arthur Pizzoli, proprietário da Casa Coates e representante dos rádios Philco. Seu objetivo eram, evidentemente, o de vender receptores de rádio, discos, além dos próprios instrumentos musicais e eletrodomésticos. Já a Rádio Farroupilha, PRH-2, surgiu em 1935 e seu nome era uma homenagem ao centenário da Revolução Farrapa. Com potência única no Brasil de 25 quilowatts, instalada em morro da Bela Vista, era conhecida, por isso mesmo A Mais Poderosa. Os amplos estúdios ficavam no alto da Borges de Medeiros com a Duque de Caxias e ali permaneceram até 1954, quando foram incendiados por populares inconformados com a morte de Getúlio Vargas.

OS ANOS DE OURO DA FARROUPILHA

A Farroupilha foi das mais exuberantes rádios brasileiras. Manoel Braga Gastal, 85 anos e radialista desde 1936, cujo nome se mescla à própria história da emissora, lembra de um episódio que ilustra com exatidão o glamour alcançado pela Farroupilha dos anos 40 aos 50: - Certa vez, um famoso flautista europeu foi contratado para dar um espetáculo noturno, que seria transmitido ao vivo. Mas ele insistiu em se apresentar em traje esporte. Não tive dúvidas em suspender o programa. No dia seguinte, ele apareceu de traje de gala, como mandava o figurino. A emissora exibia várias singularidades. Ela mantinha, por exemplo, a célebre Orquestra Farroupilha, só comparada à Orquestra da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Sob a coordenação do maestro Salvador Campanella, de 30 a 40 músicos executavam as composições que marcaram a época. A Farroupilha também chegou a ter 106 músicos contratados, disputando com a Gaúcha os melhores instrumentistas e arranjadores: músicos que eram estrelas dos programas de rádio e que fizeram a glória de um período que ficou conhecido como a Era do Rádio. Por essa época, a emissora chegou a apresentar 12 novelas semanais, além dos programas de auditório, que provocavam filas e histeria coletiva.

Para se ter uma idéia do sucesso e da repercussão alcançados por esses shows, vale dizer que boa parte dos mais marcantes programas da televisão gaúcha teve inspiração no rádio, sobretudo na programação da Farroupilha. O Rádio Seqüência, por exemplo, pode ser considerado um precursor do Jornal do Almoço, um dos mais tradicionais da TV do Rio Grande do Sul. As semelhanças são evidentes: o Rádio Seqüência era um fenômeno de audiência das 11h30min às 13h, dirigido por J. Antônio D’Ávila e formado, basicamente, por quadros musicais, de variedades e comentários. O grande destaque ficava por conta de Drama do Futebol, em que os hilários personagens Pinguinho e Valter Broda discutiam arduamente um dos assuntos preferidos dos ouvintes: a rivalidade Grêmio-Internacional. Qualquer coincidência com Paulo Sant’Anna e Kenny Braga no Sala de Redação, da Gaúcha, hoje em dia, não é mera coincidência.

Outro programa que fez escola foi Campeonato em Três Tempos, apresentado por Carlos Nobre todas as terças-feiras à noite, também na Farroupilha, e que inspirou o Conversa de Arquibancada, dirigido por Nelson Cardoso e Batista Filho na TV Piratini, a primeira emissora gaúcha, fundada em 1959. A Farroupilha ainda veiculava o Grande Rodeio Coringa, enorme sucesso de audiência. Todos os domingos à noite, Darcy Fagundes e Luiz Menezes abriam espaço para atrações musicais identificadas com o nativismo.

Esse programa ajudou a definir o modelo adotado posteriormente pelo Galpão Crioulo, que se mantém no ar há mais de 18 anos pela RBS TV. Mas um programa que marcou o vigor e a singularidade da Farroupilha foi Cassino Farroupilha, veiculado entre 1935 e 1936, em comemoração ao centenário da Revolução Farroupilha. Tratava-se, na realidade, de um espetáculo musical, transmitido diretamente do Parque da Redenção, onde ficava o Cassino: - Ali, todas as noites, exibiam-se artistas do maior cartaz do rádio brasileiro. Eram Carmem e Aurora Miranda, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Mário Reis... o que havia de melhor. Havia uma orquestra típica de tango, que veio da Argentina, e um conjunto de jazz. Os artistas deixavam a praça do Rio e de São Paulo. Até os ultrapassávamos - relembra Manoel Braga Gastal, que devido ao grande sucesso de seu programa Dois Dedos de Prosa, acabou elegendo-se vereador, deputado e até vice-governador.

Na época, entre as grandes emissoras brasileiras, estavam as rádios Nacional, Mayrink Veiga e Tupi, todas no Rio de Janeiro. Eram rádios que podiam ser sintonizadas em várias partes do país, impingindo um modelo de radiodifusão. A Farroupilha, orgulhosamente, fazia parte desse time, relembra Braga Gastal. - Mais do que uma rádio, a Farroupilha constitui um patrimônio importantíssimo para a história gaúcha. Por exemplo: a enchente de 1941. Eu estava trabalhando à noite quando recebi telefonemas de cidades da beira do Taquari, informando que o rio estava subindo de uma maneira inusitada. A partir daí, começaram a vir chamados de outros pontos do Estado. E nós começamos a alertar as autoridades, orientando os salvamentos. Num determinado momento, quando cessou todo tipo de comunicação, só ficou a Farroupilha. E isso porque suas torres estavam numa região que não havia sido atingida pelas águas. Quando não conseguimos mais transmitir, porque também as torres foram atingidas, consegui com o DAER um gerador, e colocamos a rádio no ar. E assim prestamos um grande serviço para o Estado. Depois, recebemos uma placa de várias entidades civis, em que estava escrito À Rádio Farroupilha, pelos relevantes serviços prestados na enchente de 1941, a gratidão do Rio Grande. Quando, em 1954, o prédio foi destruído por um incêndio criminoso, a única parede que ficou de pé foi a que tinha a placa.

De fato, em 1954, os estúdios foram consumidos pelas chamas de um incêndio provocado por centenas de pessoas, que culpavam a rádio, integrante dos Diários e Emissoras Associados de Assis Chateaubriand, de conspirar contra Getúlio. Depois desse incidente, a Farroupilha nunca mais foi a mesma, passando por diversas dificuldades e adotando um perfil popular. De semelhanças com a rádio de antigamente, apenas o topo da audiência. Na época, qualquer observador mais atento perceberia o quão poderosa era a indústria do entretenimento que a Difusora, a Gaúcha e a Farroupilha movimentavam. Breno Caldas, além de observador atento, era grande jornalista e empresário. Dono da Companhia Jornalística Caldas Júnior, detentora dos dois jornais de maior circulação na década de 50, o Correio do Povo e a Folha da Tarde, resolveu entrar no negócio, fundando, em 1957, a Rádio Guaíba.

A CONCORRÊNCIA APERTA

12h do dia 30 de abril. Sob os acordes iniciais de Prenda Minha, entrava no ar a Rádio Guaíba, ZYU-58. Na ocasião, Alberto Pasqualini, nomeado diretor da emissora, dizia: “Vos posso adiantar em poucas palavras que a Guaíba não terá o luxo das grandes montagens. Mas, mesmo usando a singeleza, jamais cairá na vulgaridade”. Tendo à frente nomes como Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes, primeiramente na parte comercial, a Guaíba introduziu uma linguagem sóbria, com estilo de locução pausada, sem comerciais gravados nem jingles e apresentando músicas de intérpretes e de conjuntos célebres. Entre seus primeiros locutores, estavam Aden Rossi, Petrônio Corrêa, Marco Aurélius, Paulo Flores e Zalmiro Zimmermann, entre outros. Jorge Muccilo foi o primeiro diretor de radioteatro e era, também, narrador de turfe. Na lista dos programas de maior sintonia estavam Você é o Sabichão, Marcelino, Pão e Vinho, Lendas de Todo o Mundo, Dê Asas a Sua Imaginação, Discorama, Teatrinho Cacique, Ricardo, o Herói do Espaço, e O Disco Que Eu Gosto, entre outros. Foi com essas equipe e programação que a Guaíba começou a fazer história, inspirada no modelo da BBC de Londres e firmando-se, ao completar cinco anos, como uma das melhores emissoras nacionais. O respeito e a credibilidade que ela desfrutava eram tais que, em 1961, o então governador do Estado, Leonel Brizola, requisitou-a para liderar a Rede da Legalidade. A campanha encabeçada por Brizola defendia a posse de Jango, logo depois da renúncia de Jânio Quadros. Sitiado, Brizola passou a transmitir diretamente do Palácio Piratini.

            Mas a grande inovação estabelecida pela emissora estava no Correspondente Renner, apresentado desde o início das operações. Com apenas dez minutos de duração, sem intervalos comerciais e tendo a leitura de notícias executada pela entonação inconfundível de Milton Ferreti Jung - locutor titular até hoje -, o noticiário não foi apenas um dos mais duradouros da história do rádio brasileiro. Fez escola. Ditou o que seria a forma mais usada para a leitura de notícias nas AMs gaúchas - basta conferir o Correspondente Aplub e o Correspondente Ipiranga, veiculados respectivamente pela Guaíba e pela Gaúcha em quatro edições diárias. Mais popular que o Correspondente Renner, apenas o Repórter Esso, o famoso noticiário radiofônico brasileiro, transmitido no Rio Grande do Sul pela Farroupilha. Durante 14 anos, o santa-cruzense Lauro Hagemann foi locutor do programa. 

O ESPAÇO DO ESPORTE

O esporte sempre atraiu a atenção do público. É tradicionalmente, é a melhor fonte de renda das emissoras. Aliás, quando falamos de esporte, estamos falando de futebol. E se hoje, como sustentou João Garcia na abertura da reportagem, as emissoras gaúchas são referência por fazerem o duplex, ou seja, a transmissão simultânea de jogos, até poucas décadas era difícil a simples veiculação de um único jogo. No final dos anos 30, Amaro Júnior e Rui Vergara Corrêa, da Farroupilha, transmitiam os jogos através de uma linha telefônica. Foi na mesma emissora que Luiz Mendes começou a se destacar como narrador, assim como Rafael Merolino. Ênio Melo era o comentarista.

Em 1951, Mendes Ribeiro estreava como narrador esportivo, não tardando a ocupar a chefia do Departamento de Esportes da Rádio Gaúcha. Criou o bordão Deus não joga, mas fiscaliza. Com a inauguração da Guaíba, migrou para lá, auxiliado por Milton Ferreti Jung, repórter de campo, e pelo legendário e carismático Pedro Carneiro Pereira, que também era piloto de corridas. Walter Galvani conta como foi seu último e inesquecível encontro com o colega, em 1973, ano em que Pedrinho, como era chamado, morreu num acidente automobilístico: - Em uma sexta-feira, eu estava no gabinete do Francisco Antônio Caldas, filho do Dr. Breno e vice-presidente da empresa. Aí chegou o Pedro Carneiro Pereira, que o Dr. Breno queria que fosse diretor da TV2 Guaíba, em implantação. Nesse dia, o Francisco Antônio disse a ele: Pedrinho, nós não podemos correr o risco de tu continuares praticando automobilismo, que tu sabes que é um esporte de risco. Aí o Pedrinho disse: Domingo vai ser minha última corrida. Eu vou me sagrar campeão gaúcho. Basta pontuar. Eu corro domingo, ganho o campeonato e, segunda-feira, anuncio meu afastamento. No dia em que vocês quiserem, estarei pronto para assumir a direção da TV. E aquela foi a última corrida dele.

Muitos e muitos jornalistas e comunicadores passaram pelo esporte. Cândido Norberto foi um deles. - Fui locutor esportivo da Gaúcha por necessidade. E fiquei durante largo tempo. Achavam que, dos ruins, eu era o menos ruim. Nessa condição, em 1950, como deputado e comparecendo a um congresso em Moscou, gravei um jogo entre as seleções russa e húngara, aquela famosa do Puskas, que depois foi transmitida aqui. Também fiz a primeira cobertura esportiva internacional do Estado, em 1949, quando o Grêmio foi convidado para jogar em Montevidéu, contra o Nacional. Foi o primeiro clube gaúcho a jogar no estrangeiro. E, para surpresa geral, ganhou. No ano de 1958, a Guaíba se consolidava como a emissora líder no esporte, ao transmitir da Suécia a Copa do Mundo de futebol, com fidelidade de som até então jamais alcançada em irradiações de grande distância. O feito se deveu aos engenheiros Homero Simon, Alcides Krebs e Hélio Custódio, depois que Flávio Alcaraz Gomes, chefe da equipe, conseguiu do centro de comunicações de Berna as condições necessárias às transmissões. Mendes Ribeiro teve, assim, a oportunidade de fazer o público não apenas gaúcho, como de outros Estados, manter-se ligado aos receptores de rádio, acompanhando com som praticamente instantâneo os jogos da Copa em que o Brasil se sagraria campeão.

Hoje, talvez mais do que nunca, o esporte representa para as emissoras fatia importante de suas programações. Os espaços mais nobres, por exemplo, são destinados ao futebol, enquanto já existem emissoras dedicadas exclusivamente aos esportes, como é o caso da Rádio Pampa AM. A Pampa opera, inclusive, em duas freqüências, e tem oportunizado aos ouvintes se manifestarem sobre seus times, dando opiniões por telefone.

O MUNDO ENCANTADO DOS RADIOTEATROS

Certamente não existe brasileiro acima de certa idade e com certa vivência cultural que não tenha ouvido uma peça de radioteatro. Foi sob direção do carioca Peri Borges e de Estelita Bell que o “teatro do invisível” começou no Estado, no final da década de 30. Inicialmente, eram os sketches, interpretados por pequeno elenco da Farroupilha que desde cedo tinha como galã Valter Ferreira. Ele estava na maioria das histórias, geralmente extraídas integralmente de revistas ou de livros, como é o caso d’A Estalagem Maldita, grande êxito da época.

O sucesso dos radiotreatros era tanto que, num único dia, a Farroupilha chegou a apresentar cinco montagens. Somente nos seis primeiros anos, foram 278 peças. Entre as grandes audiências, títulos como Em Busca da Felicidade, Um Rosário e Uma Saudade, Anoiteceu, Descansa Coração, O Impostor, A Dama das Camélias. Segundo cálculos da própria emissora, em 1939, mais de 23 mil ouvintes acompanharam as interpretações, um índice e tanto para a época. Outro dado: no início dos anos 50, eram 12 novelas semanais. E não porque eram boas, mas porque não havia nada melhor e, além disso, eram sempre garantia de centenas de ouvintes. Ernani Behs, por exemplo, chegou a interpretar nove personagens simultaneamente: numa peça era cego; na outra, político, fazendeiro, escritor, médico, advogado, presidiário, boêmio, paralítico.

Sobre sua experiência como ator, contou certa vez ao amigo Sérgio Dillenburg uma passagem, no mínimo, rocambolesca: - Em determinado capítulo, dois homens duelavam pelo amor de uma donzela. Era um duelo ao ar livre. E como eram ruídos dirigidos à vida rural, tínhamos sons de folhas secas, de pássaros cantando, sons de tiro ao ar livre, havia também mugido de vaca, relincho de cavalo, tinha de tudo. O operador, que era um sujeito muito competente, marcava os ruídos que a gente usaria com uma fita durex. Mas, naquele dia, ele não marcou. Bem, estávamos no meio do duelo, viramos de costas, contamos 15 passos e ficamos esperando o tiro. Mas aí veio: Muuuu!!! Quando entrou aquilo, foi um horror no estúdio. O operador, nervoso, desligou tudo. Então, o Valter Ferreira, sem saber que o microfone estava desligado, gritou: Não te escondas atrás da vaca, covarde! Depois, disse outras asneiras. Mas isso não estava no ar. Quando voltou, contam que eu estaria dizendo: Não vá me matar a vaca! Depois, todos caímos na risada.

O radioteatro era, sim, uma garantia de sucesso, mas o veículo também tinha de se virar para surpreender o ouvinte. E aí vieram as mais variadas maluquices, como a transmissão de corrida de automóveis, feitas por Ernani Behs, que também saltou de pára-quedas e mergulhou no cais do porto, ocasião em que levou o maior susto, quando começou a entrar água pelo equipamento.

AUDITÓRIO E GRANDES FESTAS

Se os radioteatros e as esquisitices inventadas pelos repórteres procuravam atrair a audiência e provocar uma balbúrdia saudável entre o público, o que dizer dos programas de auditório? O primeiro que se tem notícia, o A Hora do Bicho, era animado por Antônio Amábile, mais conhecido como Piratini. O programa era apresentado semanalmente na Difusora, entre o final dos anos 30 e meados da década de 40. A fórmula para lotar o auditório da Rua 7 de Setembro era simples: sorteio de brindes, conjuntos musicais, cantores convidados ou amadores, além das indefectíveis piadas. Piratini, entretanto, optou por largar o rádio e cuidar de seu comércio, uma joalheria. Depois dele, começaram a pipocar programas de auditório em todas as emissoras. Na Difusora mesmo, havia o humorístico Serões da Dona Generosa, escrito por Érico Kraemer, também conhecido como Roberto Lys, que era o mais sintonizado.

Já a Farroupilha dos anos 50 e 60 tinha o talento de Ary Rêgo, que apresentava o Clube do Guri, programa que revelou a genialidade precoce de Elis Regina. Mas foi Maurício Sirotsky Sobrinho quem marcou a época dos grandes programas de auditório. Já em 1939, em Passo Fundo, ele dava os primeiros sinais de vocacionado comunicador. Trabalhando no Serviço de Alto-Falantes Guarany, convenceu o proprietário a lançar um programa de calouros por meio dos alto-falantes. Projeto aprovado, Maurício colocava um microfone na janela do prédio onde estava a cabine de locução, enquanto centenas de pessoas, de pé, junto à Praça Marechal Floriano, participavam. O sucesso da brincadeira motivou o convite, por parte de Arnaldo Balvé, para que Maurício trabalhasse com corretagem de anúncios para as Emissoras Reunidas. Isso em Passo Fundo mesmo. Ele seguiu no ofício, até que se mudou para Porto Alegre. Na Capital, consagrou-se com o Programa Maurício Sobrinho. Veiculado pela Gaúcha diretamente do antigo Cinema Castelo, então um dos maiores da cidade, o programa se transformaria no maior acontecimento radiofônico desse gênero. Entre os astros e estrelas convidados, nomes como Lúcio Alves, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Marlene, Agostinho dos Santos, Emilinha Borba e Dircinha Batista, todos com cachês pagos. “O programa do Maurício constituiu o antes e o depois do rádio rio-grandense”, enfatiza Ênio Rockenbach.

E relembra: - Ao final das audições, eu e Salimen Júnior embarcávamos no reluzente Chevrolet do Maurício e íamos para o centro bebericar na Confeitaria Indiana. Muitas vezes, ficávamos os três sentados, eu e o Salimen ouvindo o Maurício falar sobre seus projetos e sonhos. Ele fazia sempre um misterinho sobre determinada tacada que pretendia dar. Um desses mistérios, depois ficamos sabendo, era a compra da Rádio Gaúcha, do Arnaldo Balvé.

OUTROS TEMPOS

A aquisição da Gaúcha marcou o início da construção da RBS, hoje o maior império de comunicação do sul do Brasil e um dos maiores do país. A Rádio Gaúcha é um braço forte da rede, podendo ser sintonizada nas regiões mais distantes do país e também, em ondas curtas, na Europa e em toda a América. - Quando veio o satélite, passamos a ter um som mais puro, vencendo distâncias. Logo depois, chegamos ao telefone celular, que teve a mesma importância que a portabilidade do rádio representou num primeiro momento, para enfrentar a televisão. E, agora, vem aí o rádio digital, que vai melhorar o sinal. Assim, o som AM passará a ter a qualidade do som FM, enquanto o FM vai ficar igual ao som de um CD. Ou seja, o rádio vem aproveitando magnificamente a evolução tecnológica - assinala Armindo Antônio Ranzolin.

A Gaúcha, por exemplo, coordenada por Ranzolin, reestruturou-se ao longo dos anos, adotando um viés essencialmente informativo. Seu conteúdo são reportagens, entrevistas e opiniões quase ininterruptamente. Na maioria das vezes, com um tom coloquial e improvisado. Para Cândido Norberto, no entanto, esse viés da improvisação, presente em várias emissoras brasileiras, constitui uma espécie de tendão de Aquiles do rádio: - É que os comunicadores abusam do direito de improvisar, o que põe em risco a qualidade das informações que os ouvintes recebem. Eu, que sempre dei muito valor ao texto, o que significa dizer menos improviso, se pudesse, teria tido uma equipe de redatores de rádio maior do que a que eu consegui juntar na Gaúcha. Entre eles, estavam talentos como Sérgio Jockymann e José Paulo Bisol.

O rádio realmente ajudou a formar alguns dos mais respeitados comunicadores gaúchos, como Jayme Copstein, que comanda um dos programas de maior sintonia do rádio sulino, o Brasil na Madrugada, Lauro Quadros, dono de um carisma incomum, e Ruy Carlos Osterlmann, o professor, um dos melhores entrevistadores do rádio brasileiro e comentarista esportivo que faz a diferença.

O RÁDIO NA TV

- Na sala das pessoas, o rádio perdeu lugar para a TV. E quando isso aconteceu, percebeu-se que ele não podia ser mais um receptor estático. Tinha de ser um receptor portátil - comenta Ranzolin. Enquanto o rádio procurava alternativas para se manter, a TV, por outro lado, ia se apropriando e adaptando a programação radiofônica ao seu formato. É lícito dizer que a maioria dos primeiros programas de TV era totalmente inspirada no parente mais velho. Aliás, grande parte dos apresentadores desse novo veículo também vinha do rádio. E, se muita gente, acostumada às imagens por vezes estonteantes exibidas na televisão, vê no rádio um veículo limitado devido ao fato de ele, justamente, não trabalhar com imagens, o veterano Cândido Norberto faz a justa defesa dos sons e das palavras.

- Eu sustento a tese de que o rádio tem as imagens mais bonitas que se pode dispor. É aquela história da imagem criada pela imaginação de cada um dos ouvintes, ao toque mágico desta coisa fantástica chamada palavra. A palavra deflagra o processo da criatividade. E o ser humano, por mais humilde, por mais ignorante que seja, tem imaginação que extrapola, que supera a melhor imagem da TV. Cada ouvinte faz a sua bela mulher, que pode ser alta, magra, esguia, gordinha... E é informando ouvintes, fazendo companhia a centenas de milhares de pessoas e sugerindo aquelas que podem ser as mais sublimes imagens, que o rádio tem não apenas se mantido e se superado, como conquistado admiradores e ouvintes dentro e fora do Estado há, pelo menos, 77 anos.

Texto: Daniel Feix e Paula Ramos
Reportagem: Sérgio Roberto Dillenburg
Produção e pesquisa: Daniel Cassol, Fábio Pri e Fernanda Albuquerque

Obs.: Este texto foi publicado na Revista Aplauso, Ano 5, nº. 38, 2002.