Artigos sobre Radiodifusão

MEMÓRIA DA RADIODIFUSÃO NO RIO GRANDE DO SUL

MEMÓRIA DA RADIODIFUSÃO NO RIO GRANDE DO SUL

No dia 22 de setembro de 1923 entrou no ar a primeira emissora de rádio brasileira legalmente constituída: a SQ1A , Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, com o lema “Pela cultura dos que vivem na nossa terra, pelo progresso do Brasil”. Era, na realidade, um canal fechado de rádio. As famílias mais abastadas, que tinham importado receptores da Europa, formaram uma sociedade para a instalação da emissora. Pagavam mensalidades. E assim, podiam ouvir música clássica e trechos de obras literárias no conforto do lar. A SQ1A ficava no ar em três períodos: do meio-dia à uma da tarde, das cinco às seis e das oito da noite às dez-e-meia.

Um luxo reservado a uma minoria privilegiada. O rádio brasileiro nascia como um meio elitista de comunicação. Apesar da pequena potência, as ondas da Rádio Sociedade Rio de Janeiro chegaram ao Rio Grande do Sul, onde algumas famílias ricas já desfrutavam da novidade do rádio, sintonizando emissoras estrangeiras. E, junto com as ondas, chegou também a idéia do modelo criado pelos cariocas: uma sociedade de ouvintes para sustentar no ar uma emissora que falasse o nosso idioma, sintonizada com nossa cultura. Foi assim que surgiu nossa primeira emissora, instalada em Pelotas-RS, que era então a cidade de mais alto nível cultural do estado e, também, onde se concentravam as maiores fortunas. Estavam ali reunidos os dois ingredientes que dariam sustentação à idéia: a cultura e o dinheiro. Assim, em 1925 entrou no ar a primeira emissora do Rio Grande do Sul - a Rádio Pelotense.

Enquanto isso, em Porto Alegre, os poucos ouvintes privilegiados tinham ainda que se contentar com a programação da Rádio Sociedade Rio de Janeiro e das rádios estrangeiras. Já era tempo de se instalar uma rádio na capital do estado. E dois anos depois, em 1927, seguindo o modelo do “clube de ouvintes”, entrou no ar a Rádio Sociedade Gaúcha. Por volta dessa época, estava no ar, também em Porto Alegre, uma rádio que só tocava música e não tinha identificação. Não pertencia a nenhum “clube de ouvintes”. Seu transmissor era utilizado para a calibragem e ajustes dos receptores de rádio vendidos pela Casa Coates. Este foi o embrião de onde nasceria mais tarde a Rádio Difusora. A radiofonia do Rio Grande do Sul contava então com três emissoras: Rádio Pelotense, Rádio Sociedade Gaúcha e Rádio Difusora. As vendas de receptores importados aumentavam, ampliando cada vez mais o círculo da audiência. Mas as emissoras ainda dependiam das mensalidades pagas pelos ouvintes para se manterem no ar.

Até 1931 as emissoras de rádio não tinham permissão para transmitir propaganda. Sua única fonte de sustentação eram as mensalidades pagas pelos ouvintes, que exerciam grande influência sobre a programação. Eram ouvintes muito exigentes. Encaravam o rádio como uma fonte de difusão da cultura e da música clássica. Afinal, as ondas do rádio entravam livremente em todos os lares onde houvesse um receptor. E os receptores já começavam a se multiplicar em função dos preços cada vez mais acessíveis. Era a grande oportunidade para educar o povo, fazendo valer o lema da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Mas quando o governo acabou com a proibição, permitindo a veiculação de propaganda, as rádios começaram a se libertar da tutela da audiência mais elitizada. E uma nova sonoridade entrou no ar. Era a voz dos speakers, fazendo contraponto com a música clássica e os trechos de obras literárias.

Foi uma fantástica novidade para os comerciantes e fabricantes de produtos de consumo popular. Uma novidade que se refletiria imediatamente nas vendas. Entusiasmados com o poder de comunicação do rádio, mais e mais empresários disputavam os espaços para anunciar seus produtos e serviços. O rádio ia conquistando sua auto-sustentação. Livres da tutela da audiência elitizada, criando novos formatos de programação, mais sintonizados com o gosto do público. E os “clubes de ouvintes” deram lugar às emissoras independentes. Era o nascimento das rádios ecléticas. Em 1935 entrou no ar, em Porto Alegre, a primeira rádio que já nascia como empresa comercial,sustentada pela venda dos espaços de propaganda. Foi por ocasião das comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. Em homenagem ao grande evento, a emissora ganhou o nome de Rádio Farroupilha. Era propriedade da família Flores da Cunha.

Daí para a frente o rádio começou a fazer parte do dia-a-dia dos gaúchos, com a instalação de novas emissoras no interior do estado e na capital, graças à visão de homens empreendedores que investiram talento e dinheiro no novo meio de comunicação. Foi uma aventura calculada, onde tudo estava por fazer; uma longa jornada de aprendizado entre erros e acertos, com os pioneiros criando e definindo as bases administrativas e operacionais de um novo ramo de negócio: a radiodifusão. As emissoras ecléticas exigiam profissionais também ecléticos. Assim, os pioneiros tiveram que fazer de tudo: administração, programação musical, produção e apresentação de programas, locução comercial, noticiosos, reportagens e, até mesmo, a organização de eventos envolvendo a comunidade.

A música popular foi, aos poucos, ocupando os espaços da música clássica. A leitura de trechos de obras literárias foi enriquecida com os recursos da radiofonização, como prelúdio das novelas. Surgiram os patrocínios da hora-certa, da previsão do tempo, das mensagens fúnebres, dos avisos de utilidade pública. Começava assim a se configurar o formato dos programas de notícias. A partir dos avanços tecnológicos, o rádio foi aos poucos saindo dos estúdios e indo para as ruas, levando ao ar a voz do povo, fazendo reportagens, transmitindo partidas de futebol, transormando cinemas e teatros em alegres auditórios. Mesmo depois que os “clubes de ouvintes” se transformaram em rádios comerciais, a cultura ainda continuou merecendo alguma atenção na nossa radiofonia. Mas os tempos estavam mudando. A audiência começava a atingir contigentes cada vez maiores de segmentos populares, deixando de ser uma exclusividade das elites. Assim, as emissoras foram aos poucos descobrindo o meio-termo entre as músicas e obras clássicas e o gosto popular. Era preciso falar uma linguagem mais adequada à grande massa de ouvintes.

E o rádio foi ganhando força como fonte de entretenimento, como divulgador de notícias, formador de opinião, criador de novos hábitos e um poderoso instrumento de vendas. Os slogans de alguns produtos caíam no gosto do público e se incorporavam ao linguajar do dia-a-dia: “Se a marca é Cica, bons produtos indica”, “Melhoral - é melhor e não faz mal”,  “Tenha dias certos para certos dias - A Saúde da Mulher”. “Bromil - o amigo do peito”, “Se é Bayer é bom”. E por aí a fora... Com o passar do tempo, a balança começou a pender mais para o lado do gosto popular. Com isso, a música clássica e os temas culturais foram perdendo espaço na programação das rádios comerciais. Mesmo assim, havia ainda iniciativas na área cultural. Algumas, por conta das próprias emissoras; outras, por conta dos patrocinadores. O proprietário da Camisaria Tannhauser, por exemplo, era um admirador da música lírica. Ele então patrocinava a vinda de grandes cantores europeus para se apresentar em teatros, com transmissão pelo rádio.

Havia também apresentações de trechos de óperas e de concertos, em audições especiais, geralmente, aos sábados e domingos. Mas essas iniciativas eram exceções na programação normal das emissoras. E assim, nossa radiofonia continuou até novembro de 1957, quando entrou no ar a Rádio da Universidade. Foi a primeira emissora universitária do Brasil; um contraponto às rádios comerciais. Ali só havia espaço para a música clássica, para as artes, folclore, filosofia e outros temas ligados à cultura. A emissora não transmitia propaganda comercial. Com a Rádio da Universidade do Rio Grande do Sul teve início a era da segmentação. As elites culturais ganharam uma opção de sintonia, reconquistando um espaço no dial. E o rádio ampliou seu espectro de audiência, afirmando-se como o meio mais democrático de comunicação, conciliando o progresso e a cultura. A radiofonia riograndense fazia valer, na prática, a inspiração do lema da cultura de nossa terra, pelo progresso do país.