Artigos sobre Radiodifusão

A INOVAÇÃO DAS FMs

A INOVAÇÃO DAS FMs

Se as AMs gaúchas alcançaram grande prestígio mantendo, há décadas, o mesmo estilo de leitura de noticiários, o inverso aconteceu com as FMs. A diversificação, e sobretudo as inovações de linguagem, sempre foram as marcas registradas das FMs. Tudo começou em 1972, com aquela que futuramente seria a Continental FM e que, por ironia, deu a largada para uma série de mudanças conceituais enquanto ainda era AM. A equipe coordenada por Fernando Westphalen tinha, entre outros, Nélson Ferrão, Marcos Aurélio Wesendonk, João Batista Schueler e os textos de Luiz Coronel, responsável pelos comerciais. Na época, a emissora tinha como slogan 1120 Toneladas de Som. Um de seus grandes sucessos foi o programa Cascalho Time - Cascalho, o apresentador, já era conhecido do público jovem por seu programa anterior, Bier Boy, inspirado no personagem Big Boy, da Rádio Mundial do Rio de Janeiro. Basicamente, a novidade era o uso de uma linguagem bastante informal, além da grande quantidade de músicas executadas. São quatro e meia da tarde na Porto Alegre do Cachorro do Rosário ou Na cidade que tem sessão à meia-noite no Cine ABC são dez e quinze da manhã, diziam os locutores. Nunca o rádio gaúcho havia estado tão próximo da linguagem das ruas.

- Falávamos com o ouvinte como se ele fosse um brother. Era a rádio dos magrinhos - conta Carlos Couto, que na época era sound-designer da Continental e hoje faz o mesmo na 107 Pop Rock. A partir do final dos anos 70 e início dos 80, com a fundação de emissoras que marcaram época, como a Cultura Pop, as FMs estouraram no Rio Grande do Sul. O formato de propagação de ondas em Freqüência Modulada era muito mais adequado à proposta basicamente musical, na medida em que possibilitava uma qualidade maior de som - em contraposição ao maior alcance do formato em Amplitude Modulada. O som menos claro e com mais ruídos das AMs não condizia com as inovações apresentadas pela Continental e firmadas pelo sucesso de emissoras como a Pampa AM, ainda na década de 70. Em meados dos anos 80, foi a vez de a Ipanema FM tomar a linha de frente entre as rádios nacionais e ser a precursora de significativas mudanças no estilo brasileiro de se fazer rádio. Kátia Suman, que trabalhou por 16 anos na Ipanema, relembra:

- As FMs jovens ainda eram novidade. No país inteiro, só tocavam música de fora. Não havia praticamente nada nacional até que se formou uma cena de rock muito forte em todo o país e também no Rio Grande do Sul. A Ipanema foi a primeira a tocar o rock produzido aqui, a dar espaço para o rock nacional. Todas as outras vieram atrás, dando a legitimação que o rock brasileiro precisava. De fato, foi a partir da experiência da Ipanema que as outras FMs voltadas para o público jovem começaram a valorizar o pop rock brasileiro. E, de quebra, o pop rock produzido no Rio Grande do Sul - até então muito pouco conhecido do público. Atualmente, as FMs do segmento jovem se identificam, cada vez mais, com a linguagem informal trazida pela Continental e com a cena roqueira local incensada pelas emissoras que seguiram os passos da Ipanema.

Mas nem só de rock e de música pop vivem as FMs . Das 174 emissoras que operam nesse sistema atualmente, no Estado, são poucas as que não optaram pela segmentação - que vai da música eletrônica à erudita, do nativismo ao rock’n’roll. Mauro Borba, um dos integrantes do time formado pela Ipanema nos anos 80 e autor do livro Prezados Ouvintes - Histórias do Rádio e do Pop Rock (Artes & Ofícios), acredita que “os gaúchos têm mais alternativas de emissoras do que o restante dos brasileiros - principalmente no gênero pop/rock. Borba acredita que as rádios gaúchas estão em um nível  de qualidade muito alto, se comparadas às  do restante do país. Dois bons exemplos são a FM Cultura que, com sua programação diferenciada, sobrevive longe do jabá e das imposições comerciais, cada vez mais presentes no cenário das FMs. E também a Guaíba FM, que persiste com uma programação musical ancorada nas gravações de grandes orquestras e de conjuntos internacionais. A sua prestigiada discoteca com mais de 25 mil discos está, há mais de 45 anos, sob os cuidados de Fernando Veronezi. É ele quem elabora, com 64 dias de antecedência (!), a inconfundível programaçao musical da Gauíba. Ele lembra que há pouco tempo a cantona Lenny Andrade foi conhecer a discoteca da rádio e ficou admirada com a quantidade de discos seus que ali existia. Ficou tão entusiasmada que queria levar seu primeiro LP. Outro que também lá apareceu foi Juca Chaves, que queria, igualmente, levar alguns de seus discos. Mas Veronezi negou.

Ele conta, com um ar de espanto, outra passagem transcorrida na discoteca:

- Tínhamos quase 50 LPs do Elvis Presley. Como não entravam na programação, ficaram anos na prateleira. Quando ele morreu, fomos procurar um de seus discos para ilustrar uma reportagem. Depois soubemos que um colega tinha vendido tudo. Aí criei um carimbo: Roubado da Rádio Guaíba. Colocava na capa e no rótulo dos LPs. Foi pior. Parece que tinha mais valor.