Artigos sobre Radiodifusão

GUERRA NO DIAL

GUERRA NO DIAL

Por LUIZ MARANHÃO FILHO

Uma expressão que se consagrou nos primórdios da radiofonia foi a utilização do letreiro de indicação que vinha nos aparelhos de recepção importados do estrangeiro, para assinalar o botão de sintonia. Quatro letras apenas: D I A L que se pronunciavam “daier”. Muitas estações de rádio, no seu nascedouro, para valorizar o seu slogan da propaganda, diziam para o seu ouvinte: “sintonizem no seu dial os 720 quilociclos da sua emissora - PRA-8”. É o que acontecia no Recife, através do Rádio Clube de Pernambuco, a estação pioneira do Brasil que, em 6 de abril de 1919, identificava-se como PRAP. Foi em Buenos Aires, nos anos 20, que se reuniram empreendedores da América do Sul, em uma federação embrionária para atribuir aos prefixos existentes, uma numeração que, ao invés de obedecer a uma ordem por nascimento, preferiu um critério semi-geográfico. Nessa suposta “regionalização”, o Brasil ficou com alguns prefixos que se consagraram: PRA-2, por exemplo, ficou com a Rádio Clube do Brasil, implantada pelo engenheiro Elba Dias, do Observatório Nacional, parceiro de iniciativa do cientista Edgard Roquette Pinto, na utilização dos transmissores trazidos dos Estados Unidos pelas nascentes indústrias Westinghouse e Western Electric para a festa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro - SP-1 e SP-2.

Uma dissidência entre os dois, por causa dos critérios de utilização, Roquette Pinto voltado apenas para a Educação, Elba Dias vislumbrando fins comerciais, gerou as duas primeiras estações cariocas, Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e Rádio Clube do Brasil. Na reunião da Argentina, que ficou com 12 freqüências, o Brasil com 10 e o Paraguai com 1, todas elas mereceram a concessão de Canal Exclusivo, o que se traduziu no direito de manter os seus quilociclos numa faixa reservada e respeitada internacionalmente. Isto quer dizer que o mundo inteiro se obrigava a respeitar aquelas faixas. é que temos a primeira menção vinculada a uma pré-guerra, que se pode deduzir do seguinte episódio. No ano de 1938, anteriormente à eclosão da Segunda Grande Guerra, realizava-se no continente europeu, a Segunda Copa do Mundo de Futebol, com a participação do Brasil, cuja estrela era Leônidas da Silva, o “Diamante Negro” e também do Uruguai, a “Celeste Olímpica”, o primeiro campeão de 1934. A Rádio de Berlim, que transmitia os jogos para o mundo, inclusive com uma versão em espanhol para o nosso continente, enviou uma correspondência para a direção do Rádio Clube de Pernambuco, incluindo os horários das transmissões, para que a emissora do Recife desligasse o seu equipamento, o que facilitaria a recepção em toda a área do lado de cá do Atlântico.

O técnico de operação do Rádio Clube de Pernambuco, Otto Shiler, que era alemão, respondeu afirmativamente para a Rádio de Berlim e assim foi feito. Tal sintonia possibilitou o noticiário da imprensa brasileira, que captou a descrição das partidas sem interferência. Há, no entanto, na nossa visão de analista, uma dúvida persistente. Será que esse entendimento aparentemente pacífico, permitiu mais tarde, em tempos de conflito mundial, um outro tipo de interferência externa, quando a Rádio de Berlim invadia a freqüência do Rádio Clube de Pernambuco e fazia com que o nosso público recebesse as emissões do programa “A Maricota”, em português, minando a nossa posição anti-germânica? A propósito, é preciso inserir outro detalhe nesse episódio. “A Maricota” era um programa satírico, utilizando personagens cujo objetivo era depreciar costumes brasileiros e atos e fatos vinculados ao governo de Getúlio Vargas. Entre os participantes desse programa, havia uma pernambucana, que fora surpreendida na Alemanha, quando estudava música e que ficara impedida de voltar ao Brasil.

O pai desta pernambucana era o fotógrafo Antônio Barreto, vinculado ao jornal “Diário de Pernambuco”. Ele foi flagrado pelas autoridades, quando fazia fotos do Porto do Recife, das praias e de outros locais estratégicos. Na sua detenção, alegou que recebia pressões, por parte de sua filha ausente, para fazer tal tarefa, em conseqüência de sua atuação na Alemanha. Por isso, o fotógrafo foi confinado em uma cidade do interior. O registro do fato foi feito nos jornais da época. Mas as transmissões de “A Maricota”, apesar de sintonizadas em Pernambuco, não podiam ser comentadas pela imprensa, sob pena de sofrer sanções, embora tais comentários corressem de boca em boca, principalmente entre os militantes e simpatizantes da “Ação Integralista Brasileira”, uma facção política liderada pelo intelectual Plínio Salgado e simpática ao fascismo de Benito Mussolini. Essa guerra através do rádio, que levava os proprietários dos custosos receptores importados, a manipular o “dial” na busca de freqüências, hoje identificadas por quilohertz, implicava também em se manter em baixo volume os aparelhos.

O Recife sofreu longo período de black-out, quando as luzes das casas vinham apagadas ou protegidas por campânulas feitas de papel preto, as vidraças também tapadas e as ruas vigiadas por patrulhas, inclusive de jovens escoteiros. Não ficou nisso a participação da radiofonia na Segunda Guerra Mundial. Os boatos que circulavam na época, envolvendo pessoas e entidades, levavam as autoridades militares a uma constante vigilância. Tais denúncias que depois se desmentiam, chegaram a envolver entidades religiosas, como aconteceu com confrarias localizadas na cidade de Olinda e intregradas por religiosas de origem alemã. As Irmãs Beneditinas, procedentes de Leipzig, proprietárias da Academia Santa Gertrudes, colégio de freiras do Alto da Misericórcia, foram denunciadas como operadoras de radiotransmissores que estariam ocultos na clausura. Como o maior especialista em rádio pertencia à Rádio Clube e era alemão, o técnico Otto Shiler, ele foi confinado por Oscar Moreira Pinto, em seu sítio rural, na cidade do Carpina, como medida preventiva. E seus auxiliares João Ledo e Alberto Moreira, formados por ele, ficaram à frente da emissora. Requisitados pelas autoridades da Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco, fizeram várias varreduras nos conventos de Olinda e até em cidades próximas da costa, sem nada encontrar. Até mesmo na cidade do Paulista, onde estavam instaladas as fábricas da família Lundgren, das Casas Pernambucanas, que eram tidos como alemães, embora fossem de origem holandesa. Muitos técnicos em tecelagem, vindos da Alemanha, foram investigados e mesmo constatada a existência de uma célula do Partido Nazista entre eles, com suásticas e publicações hitleristas, apesar da ordem de confinamento em Paulista e Rio Tinto, na Paraíba, os tais transmissores de rádio jamais foram encontrados em Pernambuco.

O lado negativo, representado pelas potências do eixo, não chegou a ofuscar o lado positivo do rádio. Muito pelo contrário; isto beneficiou a Rádio Clube, que foi a terceira emissora do Brasil, depois do Rio e São Paulo, a receber o noticiário que ficou famoso no país, o Repórter Esso, o primeiro a dar as últimas, produzido pela United Press International - UPI, para a Standard Oil Company of Brazil - multinacional que produzia a gasolina Esso que “dá ao seu carro o máximo”. O Repórter Esso chegou ao Recife nos anos 40, na voz de Carlos Brasil, locutor que se transferiu, anos mais tarde, para Brasília, como assessor do Congresso Nacional e que foi um pioneiro professor de radiodifusão na capital do país. O rádio ganhou em importância por acompanhar a guerra, não só na informação, mas no jornalismo opinativo. Tanto que o jornalista Mário Libânio Alves da Silva, egresso do “Diário da Manhã”, para a Rádio Clube de Pernambuco, criou um dos primeiros programas especializados no assunto, o “Comentário Internacional” que assinava sob o pseudônimo de Capitão Simas e que era lido por Abílio de Castro, o professor de português que criou o termo “Locutor” e que foi um dos primeiros profissionais do microfone. A guerra trouxe também o lado bom para o rádio, quando as tropas americanas se instalaram no Recife e em Natal, esta cidade denominada de “O Trampolim da Vitória”, em razão de sua proximidade com Dakar, no continente africano, possibilitando o vôo dos aviões aliados, de forma direta, sem escalas e sem reabastecimento.

A chegada dos americanos para as bases aéreas do Ibura (Recife) e Parnamirim (Natal) pediu também a instalação do lazer, como parte do esforço de guerra. Alguns cassinos foram montados para praças e oficiais. No centro do Recife, na avenida Guararapes, o “U. S. O.”, tinha festas diárias em um prédio onde hoje se localiza a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Os americanos tiveram que recorrer ao Rádio Clube de Pernambuco, único existente na época. O locutor Ziul Matos (Luiz Ferreira Campos), professor de inglês, foi o animador contratado. As cantoras Maria Celeste - “a bonequinha do samba” - com música brasileira, e a vedete Salomé Parisio, com música internacional, eram atrações. O som vinha da orquestra do maestro Nelson Ferreira que instalou a “Jazz Melody”, reforçada pelo solista-pistonista Franz Zavazal que migrou dos Estados Unidos para o Recife. Foi muito utilizada a onda curta do Rádio Clube de Pernambuco, em 39 metros, para levar à pátria dos militares, programas de mensagens familiares, de viva voz, em horários preestabelecidos.

Esta união entre a radiodifusão e a retaguarda do conflito mundial permitiu ao recifense dos anos 40, conhecer de perto nos salões do Clube Internacional do Recife e nas ondas da PRA-8, as estrelas do cinema de Hollywood que participavam do esforço de guerra. Orquestras como a do pistonista Harry James, soprando o instrumento dourado que só se via no cinema, vieram ajudar no ânimo de marinheiros e aviadores aliados. Benny Goodman também marcou sua passagem nesta época. Sem falar das próprias bandas de música da Marinha Americana que animavam as festas do Cassino Atlântico de Olinda, que às vezes fechava as portas aos brasileiros e provocava pancadarias entre os dois públicos - “marines” e “revoltosos nativos” - do lado de fora do cassino, exigindo a presença e o cassetete dos sanguinários e violentos patrulheiros de serviço. O rádio também se inseriu no esforço de guerra no momento em que o governo de Getúlio Vargas declarou guerra ao eixo, pondo o Brasil no conflito. A partida do navio “Duque de Caxias”, levando o regimento do Quartel de Socorro, em Jaboatão, para o cenário da luta em Nápoles, foi registrada pela Rádio Clube de Pernambuco, ao vivo, do Cais do Porto, em Freqüência Modulada, tecnologia que o Recife já dominava desde 1939, quando o técnico Otto Shiler construiu, com esquemas alemães da revista “Antenna”, o primeiro transmissor registrado com o número um, na Repartição dos Correios e Telégrafos. Foi para uso nas procissões do 7º Congresso Eucarístico Nacional que contou com a presença do Cardeal Eugênio Pacceli, enviado do Vaticano e mais tarde eleito como o Papa Pio XII.

A partir de 1940 e até o final da guerra, a Rádio Clube de Pernambuco, em suas ondas curtas e médias, manteve programa de mensagens para os pracinhas da Itália. Da mesma forma, o moral dos brasileiros foi incentivado com programas locais, inclusive no radioteatro. Várias radiofonizações e dramatizações foram ao ar, sob a direção do pioneiro Luiz Maranhão que, ao lado de Manoel Durães, em São Paulo, Olavo de Barros, Floriano Faissal, Plácido Ferreira, no Rio, criou o formato no rádio brasileiro. O primeiro sucesso radiofônico do gênero radionovela teve seus scripts enviados de São Paulo, pelo autor Otávio Augusto Vampré. A história seriada teve o título de “Quando morre um herói” e motivou o público e outros autores. Na música, veio o frevo “A Cobra está fumando”, ganhadora de concurso, entre outros. O humorismo também se engajou no mesmo tema e muitos quadros focalizavam paródias com o Imperador Hiroito, do Japão, o italiano Mussolini e o próprio Adolf Hitler. Da época, é o embolador Manézinho Araújo com composições do tipo “Prá onde tu vai, valente? Vou prá linha de frente”. Nelson Ferreira fez o frevo “Carnaval da Vitória”, cantado nas ruas, para receber de volta os pracinhas pernambucanos, muitos deles entrevistados ao microfone da PRA-8.

Assim, para focalizar a ocorrência da Segunda Guerra Mundial em sua relação com a radiodifusão, é preciso descrever fatos aparentemente desconexos, mas que tiveram reflexos ou conseqüências do conflito. É preciso considerar, em primeiro lugar, o aspecto ainda imaturo do meio radiofônico. São apenas vinte anos de uma invenção ainda não consolidada, uma tecnologia apenas em evolução, sem metas definidas. Em segundo lugar, o forte apelo à criatividade do ser humano, que foi às últimas instâncias. Jornalistas, artistas, músicos, compositores, todos tinham um vínculo, direto ou indireto, com a batalha. Familiares tinham parentes no cenário da guerra, viajantes relatavam passagens diferentes, recordações eram ativadas, enfim, o mundo estarrecido sentia a agressão a monumentos como a Notre Dame de Paris, ao Big-Ben de Londres, ao Coliseu de Roma. E todos não acreditavam na insensatez do “Fuhrer”, na ânsia por uma solução. O Dia D para o ponto final na alucinação que sacudia a humanidade. O Recife, porto extremo do norte do país, teve que conviver com a hecatombe de perto. Os náufragos habitaram nossas praças, provenientes de navios estrangeiros, também torpedeados e resgatados por barcos aliados. Era no rádio do botequim da esquina que eles se socorriam para capturar notícias de seus países, manipulando o dial.

Assim se sabia da existência de uma emissora, Rádio Central, em Ancara, na Turquia, de outra, Nederland, na Holanda, a própria Deutsche Welle, em Colônia, na Alemanha. Ouvir o rádio, para notícias ou para lazer, foi um hábito incrementado pela guerra. Por isso mesmo, nos dias correntes, por mais que se expanda a tecnologia do vídeo, da câmera, na Internet, dos efeitos especiais, o velho rádio do “olho mágico”, do botão do “Dial”, é o companheiro da solidão, da guerra de sempre, aquele que deslumbrou Bertold Brecht.

Post Scriptum

O autor, nascido em 1933, viveu a guerra quando começou a se entender de gente. Viu passar, sobre as ruas do Recife, o “Zepelim”. Viu descer os hidroaviões da “Condor”, no Cais de Santa Rita. Viu chegar o 1º Telefunken em sua casa. Freqüentou o 1º estúdio do Rádio Clube de Pernambuco, onde seu pai, Luiz Maranhão, foi pioneiro locutor, radioator, novelista. Escoteiro “sempre alerta” nos anos 40, viveu o black-out e marchou, ainda escolar, na passeata da Vitória. Por isso, se “recordar é viver”, este exercício que agora faz, de relembrança, é com prazer. Muito prazer. Luiz Beltrão Cavalcanti de Albuquerque Maranhão Filho, o nosso querido amigo Luiz Maranhão Filho, residente em Olinda-PE, e-mail  luizmf@hotlink.com.br   é Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo - USP, Graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda-PE - AESO e Mestrado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.