Artigos sobre Radiodifusão

DOCUMENTÁRIO RADIOFÔNICO:

DOCUMENTÁRIO RADIOFÔNICO:

RELEITURA DE ANTIGAS FÓRMULAS

Por Luiz Maranhão Filho

INTRODUÇÃO

A carência de investigações profundas na área da Radiodifusão e, particularmente, no meio Rádio, tem conduzido os raros estudos acadêmicos a sucessivas imprecisões e equívocos que se cristalizam. Há algumas causas que motivam esses desvios; o que se publicou até hoje sobre o rádio brasileiro foi feito assistematicamente. Sem desmerecer o valor intrínseco dos depoimentos dos primeiros executantes da radiofonia no país - Saint Clair Lopes, Renato Murce, Olavo de Barros - é necessário notar que o posicionamento unilateral do radialista, defensor do seu próprio padrão, impede que se faça, com isenção, a análise do momento vivido, em confronto com uma metodologia específica. Donde se deduz que o repetido hábito acadêmico de produzir textos, tem levado as novas gerações a reconduzir verdades que não resistem ao menor cruzamento de informações.

Entendemos que o estudo das raízes da audiência, em grandes ou pequenos centros, não pode isolar o público televisivo de hoje, das gerações que se acostumaram a ter o rádio como lazer e, por extensão, chegaram a se constituir a platéia básica do cinema brasileiro e da televisão que se implantou nos anos 50, nas capitais privilegiadas por Chateaubriand. A acusação de “rádio filmado” que atingiu as películas da “Atlântida”, principalmente as da fase carnavalesca, e de “rádio televisado” que marcou as duas Tupi - São Paulo e Rio de Janeiro - tem procedência. A audiência não se formou gradativamente, desviada, em parcelas, de outros meios. Ela veio formada em bloco, desde o Rádio. Por isso, é nosso propósito, no presente estudo, demonstrar que existem imprecisões e equívocos nas generalizações terminológicas, usadas em muitas pesquisas, que buscam raízes e origens, sem o devido aprofundamento, calcadas apenas no “inteiro teor” de depoimentos.

CONCEITUANDO “DOCUMENTÁRIO”

O clássico poema “I-Juca Pirama”, de Gonçalves Dias, marcado pelo vocativo “Guerreiros, eu ví”, poderia até traçar um limite entre o documento e o testemunho, na visão de muitos analistas da informação. Enquanto a mídia impressa de ontem apegou-se à prova autêntica, transcrevendo, usando o “fac-simile”, na sua ânsia de veracidade, os meios que lançaram mão do som, seja isolado, seja associado à imagem, deram ênfase à testemunha. Uma delas - “a testemunha ocular da História” - fez a própria história da informação radiofônica. ( A referência é a um dos slogans do Repórter Esso). O rádio se iniciou na experimentação e descompromissado com o que iria dizer a outrem. Os primeiros passos foram dados por vozes cantantes e sons instrumentais. Seguiram-se leituras de terceiros, poemas já publicados, palestras tidas como de educação e instrução.

Quando a assistência manifestou vontade de se informar pelo rádio, este não buscou a documentação. A notícia nasceu no rádio, dentro de um pacto de confiança entre o leitor do texto e o ouvinte de casa. Mesmo porque a incipiente tecnologia não permitiu facilidades no arquivamento e na guarda de documentos, inclusive na forma de levá-los à audiência. Foi muito lenta a confiabilidade dos aparelhos de gravação, desde os magnetofones volumosos até a modernidade dos cassetes. Por isso, o rádio optou pelo testemunhal, conduzindo aos estúdios a informação de viva voz. O “Jornal Falado” do rádio evoluiu sem se valer do documental. O rádio esportivo sempre valorizou o testemunho de dirigentes, de atletas, juízes, astros e estrelas. As discotecas das emissoras com raras exceções, foram estruturadas em cima de produtos industriais já finalizados sob a forma de discos, sem cuidar de formar acervos. Os documentos oriundos do rádio, por isso mesmo, são fruto do elemento surpresa e constituem casos raros.

UM FORMATO INEXISTENTE

Há muitas referências aos “programas montados” do rádio de 1950/1960, mas poucos esclarecimentos sobre a estruturação do formato. Muito longe de ser o “documentário radiofônico”, este surpreendente produto do rádio primou pelo seu aspecto épico. Textos de exaltação a temas históricos, personalidades, rincões do Mundo, eles mereciam especial tratamento de maestros-arranjadores que compunham partituras especiais para acompanhar o libreto e reuniam intérpretes radio-teatrais, corais, solistas e uma figura indispensável ao fio condutor: o narrador. As emissoras optaram pelos “programas montados” nos seus horários noturnos - o Nobre -, nas grandes datas cívicas, nos seus dias de aniversário. Eram realizações essenciais de estúdio, feitas ao vivo, sem o uso de intervenções externas e muito menos gravadas.

Quando a emissora abandonava os limites de seus estúdios e lançava mão de seus equipamentos de Freqüência Modulada ou linhas telefônicas, para falar das ruas, ela o fazia sob duas características: ou a reportagem do fato que estava acontecendo naquele instante, ou a promoção do espetáculo de variedades, com atrações e prêmios. Tal variante, a partir da presença de soldados americanos no Brasil, durante a 2a. Guerra Mundial, ficou conhecida como “Show”, denominação que persistiu até aos nossos dias. O radiojornalismo, feito por reportagens externas e noticiários internos, jamais ofereceu ao seu ouvinte, o Documentário Radiofônico, na sua conceituação mais abrangente. Pelo menos, no ciclo conhecido como “Era de Ouro do Rádio”, não são citados programas de repercussão continuada que possam ser enquadrados na documentação jornalística ou cultural. Assim, é possível assegurar-se, com rigor acadêmico, que o formato documental não teve vida inteligente no rádio, não figura nas citações e não pode ser provado.

A TENTATIVA FRUSTRADA

Houve um momento na vida do rádio brasileiro em que se buscou acentuar a urgente necessidade de se bifurcar os caminhos seguidos pelo empresariado da radiodifusão e os canais pertencentes e operados pelo Estado, através de entidades. Animados pela promessa de êxito, manifestada quandoda junção de televisões educativas em uma rede de cunho oficial - SINTED - Sistema Nacional de Televisão Educativa - os dirigentes da área, no Ministério da Educação e Cultural - MEC - decidiram expandir e consolidar a idéia com a inclusão das emissoras de rádio. Transformado em SINRED - Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa, o organismo não confirmou as esperanças e teve vida efêmera. Afogou-se no entrechoque entre profissionais de rádio, embasados em longa vivência, embora distanciados dos objetivos de instrução do sistema, e pedagogos sem experiência técnica, mas autocráticos na suficiência dos seus planos de interpretação do que seja o rádio.

Nos anos 80, e por um período inferior a 24 meses, as rádios reunidas conseguiram produzir duas séries que ousaríamos apontar como a primeira experiência coletiva de realização de documentário em nosso rádio.“Coisas da Província”, com 30 minutos de duração, revelou ao país, momentos e aspectos curiosos de diferentes regiões brasileiras, lançando mão do “documento gravado”; não era apenas o testemunhal, mas o registro “ao vivo”, da banda de pífanos de Caruaru, tocando in loco, dos Ternos de Reis do interior baiana, das Festas do Divino, etc. A segunda série foi “Meu Brasil Brasileiro”, em formato semelhante, mas contida nos parâmetros da conceituação geográfica dos Estados-membros. Gaúchos ouviram pernambucanos, cariocas ouviram maranhenses e vice-versa. Gerou-se um acervo razoável que, como soi acontecer com iniciativas oficiais, jaz empoeirado nos arquivos mortos e sepultados das rádios educativas.

O ESPAÇO EXISTE

O que deve ser um “documentário radiofônico?” É imperioso que se faça a releitura das antigas fórmulas da radiodifusão, para se edificar um modelo que desmistifique as imprecisões e equívocos. Como, de fato, o formato não existiu ou, pelo menos, não teve espaço na retrospectiva extra-acadêmica que tentamos elaborar, será mais atraente utilizar elementos concretos do rádio e, com eles, formular a hipótese. O locutor quase que nasceu com a radiodifusão. Primeiro, foi o dono da Rádio que usou a sua voz. Depois, virou função de “Speaker”, um inglesismo que perdurou até ao final da fase laboratorial. O pernambucano Abílio Leôncio de Castro, latinista e lente do idioma pátrio nos gináios de sua terra, propôs o termo, aprovado pelos colegas consultados, após ligeira polêmica na imprensa com alguns que sugeriam o “Falador”.

Esta voz marcante no rádio, voz empostada, neutralizadora dos sotaques e, por isso, lusitanizada, evoluiu para o Narrador, muito mais intérprete do que leitor. Introduzido nos teatros completos pelo ar, na função de descrever os cenários para o ouvinte, ele se espraiou para outros formatos, fez crônicas, legendas de musicais, poemas e chegou até à prece da Ave Maria. A fórmula pode ser retomada, dentro da conceituação de que o documentário deve ter um fio condutor. O narrador deve ser Personagem, se quisermos atualizá-lo. Será o turista que viaja em um território que vai descobrindo, será o filho Pródigo que retorna à terra natal, etc. A Externa é a segunda fórmula, revitalizada pela alta tecnologia dos gravadores. Hoje, pode-se ouvir, com fidelidade, a banda tocando, as beatas rezando, crianças brincando de roda, o trem chegando na estação. A reconstituição é um novo elemento que demonstrará a pujança do radioteatro e a razão de sua hegemonia no passado. Onde não for possível retransmitir, será provável reconstituir.

COMO VIABILIZAR

A radiodifusão hoje praticada no Brasil tem faces novas e que, nem de longe, relembrariam a emissora de ontem. O ponto de discrepância é a propriedade: não há mais o “clube de sócios”, admiradores que sustentavam parcela significativa do custo, com as suas contribuições mensais. Nem tampouco existem, com a mesma identidade, as “sociedades educadoras”. Faz-se radiodifusão com cotistas e acionistas, regidos por assembléias que partilham resultados. Quando positivos, há o agrado geral; porém, o negativo no balanço é causa de cortes, demissões, reformulações, abandono de modelo ou de segmentação, para usar terminologia hodierna.Não será temerária a conjectura de que muitos desses participantes financeiros não sabem onde se capta a “sua” propriedade na faixa do “dial” e não conseguem citar um único título de sua programação nem um só integrante do seu “cast”.

O panorama traçado, que não chega a ser aterrador, mas pode ser qualificado como desanimador, diz-nos claramente que não se conseguirá jamais reativar ou ressurgir o rádio de ontem. Não será esta a proposta e sim, fazer uma radiodifusão “à moda antiga”, por fórmulas ágeis e passíveis de uma releitura. Tal finalidade será obtida, se o modelo ensejar inalterabilidade do balanço, quando discutido e analisado pelas assembléias. O “dono da Rádio” de hoje é simbolizado pelo executivo que se reporta a concessionários oriundos da política ou das elites empresariais; de perfil amorfo, não reage a impactos culturais e artísticos. Repousa seu reinado em cifras. Para tanto, respalda-se num traçado de audiência, cuja apuração sempre foi discutível, desde tempos imemoriais, quando o organismo popularizado como IBOPE era hegemônico. Há dois passos para penetrar neste óvulo: ter o produto sob CQ (controle de qualidade) e fazer com que este produto evolua de simples “traços” na pesquisa para índices que despertem o olho de lince do citado executivo.

O CAMINHO É ACADÊMICO

Trata-se de uma afirmativa. A radiodifusão brasileira perdeu credibilidade, desde o momento em que começou a perder valores. A reposição de seus estoques não aconteceu, nem aritmética nem geometricamente. O artifício engenhoso do passado, a calourada, foi desprezado, porque as portas foram escancaradas. A consequência mais danosa não se deu em relação a vozes, mas em função de formação cultural. O que se constata, na atualidade, é um rádio, escrito por alinhavadores, lido por soletradores e tocado por esquemas industriais de vendas. A Academia ingressou na radiodifusão, antes mesmo que se criasse uma habilitação em Rádio e Televisão - depois Radialismo - no currículo dos cursos de Comunicação Social. Mesmo no advento do ensino de Jornalismo, o rádio se fez presente, como espaço viável para os aprendizes e estagiários, que eram excedentes da mídia gutemberguiana.

É forçoso reconhecer deficiências e defeitos na formação acadêmica, mas o simples mérito de levar ao estudo, de provocar leituras, de avaliar conhecimento, deve ser exaltado no instante de identificar parcela, ainda modesta, de radialistas que sabem pensar e expressar esse pensamento. Por isso, é imperioso preservar o caminho e fazer com que a Escola reensine o Rádio. A ocorrência levará ao mercado, os graduados que demandarão às emissoras. Diante da dificuldade de acesso, esses contigentes chegarão, fatalmente, à saída encontrada por jornalistas e publicitários que os antecederam: a Produção Independente. O surgimento da empresa radiofônica, sem vínculo a freqüências ou canais, há de gerar produtos expostos ao mercado. Que produtos serão estes? Os vídeos independentes não estiveram nos festivais e não estão chegando aos canais? Os filmes não usaram a mesma trilha? O Rádio heverá de mostrar que, com edição profissional, com cabeças pensantes, com uma boa coleta de insumos nos diversos rincões do país, o documentário radiofônico poderá se afirmar, sem necessidade de exibir ou comentar o passado. Pois, a rigor, este não existiu.

RECIFE-PE, 1996