Artigos sobre Radiodifusão

AVENIDA PAULISTA

AVENIDA PAULISTA

Por Ethevaldo Siqueira

E tudo começou na Avenida Paulista.
Que tem a ver a Avenida Paulista com as comunicações? Muita coisa. Mais do que local preferido para comemorações, passeatas e protestos - que também são formas de comunicação -, essa via pública inaugurada em 1891 pelo prefeito Joaquim Eugênio de Lima foi palco, dois anos depois, de uma demonstração pioneira do padre inventor brasileiro Roberto Landell de Moura, que ali fez a primeira transmissão sem fio da voz humana no mundo, cobrindo a distância de oito quilômetros que a separa da colina de Santana. O incompreendido clérigo, no entanto, enfrentou até ameaça de excomunhão por suas “experiências diabólicas”. Mas, a rigor, essa avenida tem muito mais a ver com as comunicações sem fio, do que com fio. Ela foi o berço do wireless, na linguagem dos especialistas.

Por ser um dos pontos mais altos da Grande São Paulo, o espigão da Paulista tem sido a região preferida para a instalação de dezenas de antenas de emissoras de rádio, de televisão, de estações rádio base para celulares e outros serviços de telecomunicações. Tudo pelo rádio - Na verdade, a comunicação sem fio está cada dia mais presente em nossa vida. Eu já não saberia como viver sem a mobilidade e liberdade que permite o celular. Sem a informação instantânea da internet. Ou sem a comunicação eletrônica audiovisual a qualquer hora em qualquer lugar. Embora muita gente não preste atenção nesse área, a comunicação sem fio é algo quase mágico, como foi a reação mundial diante da primeira transmissão de sinais telegráficos sobre o Atlântico, em dezembro de 1901, por Marconi. Como acontece hoje, diante dos milagres da convergência digital.

A comunicação sem fio acelerou a história do mundo. Lembro que, antes de ir à escola, numa fazenda vizinha a vila de Aparecida, no município de Monte Alto, eu já me acostumara a ouvir um rádio de mesa, com uma caixa de madeira toda entalhada, tipo capelinha, de 8 válvulas, instalado no canto da sala de jantar. A emissora mais próxima que ouvíamos era a PRG-4, Rádio Clube de Jaboticabal, em ondas médias. Com meus irmãos, ouvia à noite as rádios mais distantes, de São Paulo, como a Rádio Tupi e Record. Em ondas curtas, ouvíamos a Rádio Nacional em seus áureos tempos, dos anos 1940.

Pelo rádio, Goebbels e Hitler berravam diariamente aos ouvidos de milhões de alemães, pregando suas idéias insanas. Pelo rádio, a Segunda Guerra parecia estar muito mais próxima de nós, pois meus pais acompanhavam quase todas as noites o noticiário internacional em português da BBC de Londres, que reproduzia até a voz do general Charles de Gaulle, incentivando da Inglaterra a resistência francesa. Essa proximidade do conflito mundial era tão grande que eu me lembro até hoje do noticiário dos bombardeios de Londres de 1940, quando eu tinha apenas 8 anos, mas já acompanhava, assustado, a descrição dos piores ataques aéreos impostos por Hitler à capital britânica. Nos ares, a grande batalha entre os caças Spitfire ingleses e os Stukas alemães.

Nessa época, o grande escritor de ficção, Arthur C. Clarke, engenheiro de telecomunicações do British Post Office, trabalhava no desenvolvimento do primeiro radar inglês, chamado naquele tempo de direction finder. Graças a esse avanço, conta Clarke, “a artilharia britânica chegou a abater mais de 200 aviões alemães numa única noite”. Nossa história - Pelo rádio, os paulistas acompanharam a Revolução de 1932, ouvindo os discursos inflamados de César Ladeira e Ibrahim Nobre, de madrugada, na Rádio Record. Anos depois, na escola primária, minha classe era instada a ouvir toda noite, das 8h às 9h, o monólogo autoritário da Hora do Brasil, do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas.

Pelo rádio, acompanhamos a redemocratização do Brasil em 1945 e, no futebol, choramos na mais dura derrota da seleção brasileira, na Copa de 1950, no Rio. Pelo rádio, tivemos que engolir o discurso da ditadura militar nascida em 1964. Pelo rádio, festejamos o Brasil campeão da Copa de 58, em Estocolmo. Quatro anos depois, vibramos com o bicampeonato mundial, no Chile. Em 1966, o vexame. Em 1970, no México, o tricampeonato, com televisão direta pela primeira vez. A alegria popular explodiu, sufocando os gritos da tortura, que a censura impedia de ser denunciada à Nação.

A era das redes - As telecomunicações nasceram com fio. Primeiro com o telégrafo, depois com o telefone. Com as ondas hertzianas, vieram o rádio e a televisão. Por fim, com a convergência digital, internet, multimídia e redes sem fio, que fazem uma revolução silenciosa, levando os benefícios das telecomunicações aos confins do planeta. Rádio em inglês é sinônimo de wireless (sem fio). Ao nos libertar do cabo, o rádio tornou o mundo pequeno e democratizou a comunicação. Nos últimos anos, assistimos à explosão do celular e das redes locais sem fio. A rede Bluetooth integra dispositivos e periféricos de computador, em pequenas distâncias. A rede Wi-Fi cobre distâncias maiores, até 50 metros, mas em alta capacidade. A rede Wi-Max, a mais recente delas, talvez seja a grande rede local sem fio do futuro, um novo padrão para acesso wireless de longo alcance. Ela deverá ser a alternativa mais poderosa que as atuais Wi-Fi. Desenvolvida pela empresa israelense Alvarion e pela canadense Redline, a Wi-Max é a tecnologia conhecida pela designação de 802.16a do famoso Institute for Electric and Electronic Engineering (IEEE). E pensar que tudo começou na Avenida Paulista.