Artigos sobre Radiodifusão

ADVENTO DA RADIODIFUSÃO BRASILEIRA E CATEGORIZAÇÃO DAS FASES DE ATUAÇÃO

ADVENTO DA RADIODIFUSÃO BRASILEIRA E CATEGORIZAÇÃO DAS FASES DE ATUAÇÃO

Categorização  das Fases de Atuação da Radiodifusão no Brasil

Procuramos fazer uma categorização e divisão das fases significativas da radiodifusão, levando em conta objetivos e consecução, busca de novos processos de atuação, implantação de novas estratégias adequadas para a manutenção do equilíbrio, consenqüente adaptação às pressões e impactos da conjuntura e do ambiente, dos quais decorreram as mudanças estruturais. Assim, consideramos como advento a demonstração pública de 1922 e emissões experimentais até 1924, destacando a fase da instalação da primeira emissora até o impulso disseminatório inicial. A primeira fase realmente se iniciou em 1925 e vai até 1934, considerando-se a ideologia presente no pressuposto (ideais) de utilização do veículo, características e formas de atuação (situação real), e impulso para as mudanças. A segunda fase considerada entre 1935 e 1955 reporta-se à consolidação do veículo (década de 40), fase áurea (década de 50), fatores conjunturais e novos impulsos para a mudança com a concorrência publicitária da TV e introdução do video-tape (1955). Para a terceira fase consideramos a mudança estrutural, porque as rádios tiveram que passar, na medida do carreamento das verbas publicitárias para a televisão (1955 a 1965), e a fase (1966 a 1976) que enfoca a consolidação da televisão nos anos 60, sua afirmação como veículo de massa, após mudanças introduzidas posteriormente à Revolução de março de 1964 e sua reafirmação nos primeiros anos de 70 (inclusive introdução da TV a cores em 1972).

Apesar dessa categorização, não nos reportamos senão às fases que marcaram estruturalmente o rádio e a televisão, exceto o caso da primeira fase, onde nos demoramos na cronologia dos acontecimentos, porque reportamo-la como a mais importante de toda a história da radiodifusão, onde esta escolheu  e definiu estruturalmente o caminho a seguir como meio de comunicação.

Advento da Radiodifusão Brasileira 1922 - 1924

         Foi nesse período que telegrafistas, radiotelegrafistas (amadores e profissionais) e alguns intelectuais de nossa sociedade passaram a se reunir  em sociedades denominadas Rádio Sociedades e Rádio Clubes onde eles discutiam os avanços da radioeletricidade, da radiotelegrafia e da radiotelefonia, utilizando-se para isso de literatura estrangeira, tanto proveniente da Europa como dos Estados Unidos. Era através de comentários e críticas levantadas nesses encontros, da leitura de recortes de artigos em revistas e jornais da época, que eles tomavam conhecimento do avanço do rádio, o qual na ocasião se encontrava ainda em caráter de experimento laboratorial. A maioria dos adeptos da radiotelegrafia não era sequer radiotelegrafista na verdadeira acepção da palavra, pois não possuía senão a capacidade de se apresentar como rádio-escutas com seus aparelhos rudimentares, que não lhes permitiam se constituírem em fontes de emissão de sinal. Ouviam eles os comunicados de navios adentrando os portos e de algumas estações costeiras nacionais e até mesmo internacionais.

Essa fase constituiu o que autores, como Humberto Sodré Pinto, denominaram como fase da curiosidade. Curiosidade motivada pela novidade do aparelho técnico em desenvolvimento e utilizado como fins de salvamento de vidas no mar, por propiciar comunicações efetivas entre navio-terra, navio-navio e terra-navio, enquanto que as modalidades anteriores não permitiam mais do que aquelas que as condições de visibilidade dos sinais gestuais e luminosos possibilitavam. Curiosidade também pela divulgação através da imprensa escrita dos avanços estratégicos conseguidos na Primeira Guerra com a utilização da nova modalidade de comunicações à distância. Essas entidades dessa fase tinham a finalidade, além de divulgar os conhecimentos sobre o rádio, de angariar novos adeptos e até mesmo propiciar-lhes treinamento para se constituírem pelo menos em rádio-escutas. Os pioneiros eram indivíduos carregados de idealismo cujos laivos permanecem ainda nos radioamadores atuais, sendo porém diferentes destes na medida em que não possuíam, na maioria das vezes, estações transmissoras.

Realmente essas agremiações se constituíram em precursoras da implantação da radiodifusão, pois facultaram a seus afiliados a possibilidade de se colocarem a par do desenvolvimento do veículo, antes mesmo da sua institucionalização entre nós. Essa situação perdurou até 1922, quando, por interesses econômicos de expansão de mercado e por demanda da Repartição Geral dos Telégrafos para serviços telegráficos, a Westinghouse se propôs a fazer uma demonstração do seu aparato de transmissão, instalando a estação transmissora de 500 w e enviando para isso seu engenheiro, o senhor N. H. Slaughter e seus assistentes Black e Bair, que montaram, no alto do Corcovado no Rio de Janeiro, a primeira estação de radiotelefonia do Brasil em colaboração com a Light e com a Cia. Telefônica Brasileira. Essa estação teve receptores alto-falantes colocados estrategicamente nos recintos da exposição do centenário de nossa independência, pelos quais os visitantes puderam ouvir o pronunciamento do Presidente Epitácio Pessoa que a inaugurou. Esses receptores em forma de corneta propiciaram ainda a audição da canção “O Aventureiro”, da obra “O Guarani”, de Carlos Gomes. Os ouvintes, maravilhados com o invento milagroso que trazia os sons de pontos distantes, nem se aperceberam dos sons metálicos, tipo fonógrafo antigo, dados pela transmissão e equipamentos precários. Os sons transmitidos do Municipal eram ouvidos nos prédios da exposição como o Palácio Monroe, Palácio do Catete, nos Ministérios e até na Prefeitura de Petrópolis.

“Uma nota sensacional do dia de hontem foi o serviço de radio-telephonia e telephone alto-falante, grande atractivo da Exposição. O discurso do Sr. Presidente da República, inaugurando o certamen foi, assim ouvido no recinto da Exposição em Nictheroy, Petropolis e em São Paulo, graças à instalação de uma possante estação transmissora no Corcovado e de aparelho de transmissão e recepção, nos logares acima. Desse serviço se encarregara a Rio de Janeiro and São Paulo Telephone Company, a Westinghouse International Company. À noite, no recinto da Exposição, em frente ao posto de Telephone Público, por meio do telephone alto-falante, a multidão teve uma sensação inédita: a opera “Guarany” de Carlos Gomes, que estava sendo cantada no Theatro Municipal, foi, ali, distinctamente ouvida, bem como os aplausos aos artistas. Egual cousa succedeu nas cidades acima.”

Fonte: A Noite, Rio de Janeiro, 8 de setembro de 1922

No dia 15 de setembro, uma semana após a abertura da exposição, as Cias. Light e Telefônica realizaram, no pavilhão das Indústrias, uma demonstração à qual compareceram os membros da comissão organizadora da exposição do centenário, pessoas de destaque político e social e a imprensa. Idêntica demonstração ocorreu no Palácio Monroe, quando números musicais foram captados de transmissão direta do Corcovado. Os sons emitidos para o recinto da Exposição, que teve lugar nos arredores da Esplanada do Castelo, também foram ouvidos nos 80 aparelhos receptores Westinghouse, distribuidos pelas altas elites militares e civis brasileiras. Fonte: Rio Antigo, Primeira Estação de Rádio, in O Estado, 13 de dezembro de 1956. Essas demonstrações públicas ainda não podiam ser consideradas como radiodifusão pelas características da recepção em recinto aberto através de alto-falantes, muito embora houvesse também a possibilidade de recepção individual, com fones de ouvido, em algumas “aeriolas” e galenas distribuidas no recinto da exposição, porém estas eram insignificantes em número. Havia emissões todas as noites com números de concertos, óperas cantadas nos Teatros Municipais e Lírico, palestras e até anúncios, como era o caso da promoção de venda e compra do Bônus da Independência, onde o locutor amador Mário Liberalli dizia: “... nenhum bom brasileiro pode prescindir...”

Em 1923 a Western Electric Co. mandou vir dos Estados Unidos duas emissoras, de 500 w cada uma, para serem adquiridas pelo Governo brasileiro para o serviço telegráfico nacional. Foi na ocasião dessa compra que adeptos da radiotelefonia, os idealistas Roquette Pinto e Henry Moritze (que era diretor do Observatório Nacional), anteviram a potencialidade do veículo como elemento de informação e formação do povo. Tendo em vista a extensão territorial e decorrente impossibilidade de efetivação de um planejamento integrado para projetos educacionais de alcance nacional e a curto prazo, aventaram eles a possibilidade de utilização de uma das emissoras com finalidades educativo-culturais. Após muitos esforços e instâncias junto aos órgãos públicos e ao governo, conseguiram fundar a primeira estação radiodifusora do Brasil no dia 20 de abril de 1923, e seus objetivos traduzidos no slogan: “Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Os radiouvintes deviam armar-se de muita paciência e boa vontade para captarem os sinais fanhosos e metálicos que não podiam ser considerados fidedignos. Em 1923, se editou a primeira crônica de São Paulo sobre o veículo recém-surgido. Em seu “Bilhete do Rio” no O Estado, Amadeu Amaral narrou a sua primeira experiência mencionada por Roquette Pinto em publicação do Jornal do Brasil e transcrita posteriormente por Gondin da Fonseca:

“Em começo de abril nós nos encontramos na Rua do Ouvidor, à porta da sua redação. Falei-lhe do rádio; era só do que se falava naqueles tempos... Ele se interessou e na mesma hora levou-me ao seu gabinete, onde redigi a primeira crônica radiofônica de que tenho tratado aqui. Alguns dias depois levei Amadeu Amaral à nossa casa de Vila Rica, no Túnel Velho, proporcionei ao meu amigo uma demonstração prática do rádio. A estação do Corcovado já tinha silenciado; ainda havia a da Praia Vermelha, da Western. Pedi a dois queridos discípulos: Francisco Venâncio Filho e Edgard Sussekind de Mendonça, que de lá transmitissem algumas poesias de Vicente de Carvalho, Olavo Bilac e do próprio Amadeu. Em Vila Rica, num receptor de Galena, dos mais simples, o poeta ouviu emocionado, maravilhado. No seu habitual “Bilhete do Rio” enviado ao grande diário paulista, ele narrou tudo isso e não escondeu a impressão que lhe ficara da aventura”.

Das várias pequenas crônicas entusiásticas e emocionadas da época percebe-se o espírito com que os pioneiros do rádio e os primeiros ouvintes eram tomados em 1923, quando das primeiras experiências. Preferimos mostrar nas próprias palavras de Roquette Pinto a experiência vivida por Amadeu Amaral, porque a crônica pode ser vista como depoimento do impacto vivido na primeira vez em que ouviu sons transmitidos à distância. Roquette, como se depreende do artigo, já tinha vivência e ele mesmo se refere a seus discípulos com euforia, o que demonstra as características da utilização do rádio pelos pioneiros. conseguirem permissão do Governo para utilização do transmissor da Western Electric na Praia Vermelha, tinham os pioneiros já bem definidos, os objetivos delineados para o rádio, fundados nos ideais patrióticos e no que consideravam potencialidades do veículo. No entanto, esses ideais não se concretizavam em sua essência em vista de vários fatores que determinaram sua atuação. O primeiro, o entusiasmo presente nos experimentos, não permitia uma visão crítica da sua efetivação; segundo, o tempo de utilização (uma hora), era mínimo e se perdia na euforia, no júbilo entusiástico do veículo pelo veículo , tal como se depreende da crônica de Roquette Pinto transcrita acima; outro fator, talvez o mais importante, a falta de aparelhos receptores e o escasso número de fabricantes dos rudimentares “Galena”.

A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro nasceu a 20 de abril de 1923, tendo sido fundada na Academia Brasileira de Ciências da qual os fundadores faziam parte. A 19 de maio foi instalada na Escola Politécnica e funcionou depois na Livraria Científica Brasileira à Rua São José, 114. Posteriormente, veio a fixar-se na Casa Guinle, à Av. Rio Branco, 109; ali ocupou várias salas do sexto andar onde dispunha de sala de leitura, biblioteca, laboratório, etc. Nessa ocasião, seu estúdio ocupava o último andar e estava equipado com um transmissor Telefunken. Em setembro de 1923, foram feitas experiências com os equipamentos doados aos pioneiros pela Casa Pekam de Buenos Aires, que além do tansmissor mandou vários componentes. O equipamento Telefunken foi doado pela Telefunken (Cia. Brasileira de Eletricidade S.A.), por intermédio de Demócrito Seabra e montado pelos seus engenheiros Eickhoff e Kellermann. No primeiro número da revista Rádio, evidencia-se que as atividades radiodifusoras realmente efetivadas em 1923 foram as transmissões realizadas da Praia Vermelha no equipamento da Western e cedido pela Cia. Radiotelegráfica Brasileira nos intervalos dos serviços telegráficos.

Fonte: História da Comunicação Rádio e TV no Brasil, de autoria de Maria Elvira Bonavita Federico, Editora Vozes - 1982.