Artigos sobre Radiodifusão

NAZARENO MEDEIROS - PP1WT

80 ANOS DE EVOLUÇÃO DO RÁDIO NO BRASIL

Por André Barbosa Filho

“... nós que assistimos à aurora do rádio sentimos o que deveriam ter sentido alguns dos que conseguiram possuir e ler os primeiros livros. Que abalo no mundo moral! Que meio para transformar o homem, em poucos minutos, se o empregar com boa vontade, alma e coração.”
Roquette Pinto

A 7 de setembro de 2002 comemoramos os 80 anos de convivência do rádio com o público brasileiro. A exposição comemorativa do Centenário da Independência, realizada na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi cenário da primeira transmissão radiofônica, com o discurso do presidente Epitácio Pessoa sendo veiculada por oitenta receptores espalhados na área da Feira Internacional, através de uma emissora instalada no alto do Corcovado, com transmissor de 500 watts, de propriedade da companhia norte-americana Westinghouse. Um ano depois, em abril de 1923, o etnólogo e escritor Roquette Pinto, ao lado de Henry Morize, fundava a primeira emissora de rádio brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, com a compra do próprio transmissor da irradiação inaugural. De início, o rádio era acessível a poucos. Refletia, portanto, os interesses de uma pequena parcela de aficionados que, reunida em clubes ou sociedades, ouvia as programações e até participava ativamente de sua construção, emprestando discos e material de apoio para os textos. Mas a mudança significativa acontece em 1932, ano em que Getúlio Vargas decreta a permissão do uso do rádio para fins comerciais. E é neste ano que o compositor e cartunista Antônio Nássara cria o primeiro jingle, o famoso “... seu padeiro não esqueça, tenha sempre na lembrança: o melhor pão é o da Padaria Bragança...”.

Os anos 30 foram os da consolidação do rádio. O barateamento do custo dos receptores, em razão de sua produção em série, populariza o veículo transformando a programação. A injeção de recursos provenientes dos anúncios comerciais permite profissionalização dos quadros, sendo possível observar, a este tempo, o nascimento de funções como a de speaker ou locutor, de programista ou produtor, e o pagamento regular de cachês a artistas, cantores, humoristas e redatores. É também o momento do surgimento dos gêneros que, mais desenvolvidos, serão, na década seguinte, a razão da grande popularidade do meio, fase consagrada como a Época de Ouro do Rádio. O radiojornalismo com seu Repórter Esso, fórmula consagrada de boletim informativo que ficou 28 anos no ar; as radionovelas, que até hoje são referência para o desenvolvimento de sua congênere, a telenovela; os programas de variedade como o Programa Casé; o humorismo com a PRK-30 e tantos outros; a cobertura esportiva, com a marca e o talento do narrador de jogos de futebol com sua criatividade e dinamismo, os programas de auditório, com a participação do público ao vivo, brincadeiras, concursos e apresentações artísticas. Com o fim da Segunda Grande Guerra, um novo meio, cujo brilho magnético iria ofuscar tudo e todos, surge esplendoroso. A televisão. No Brasil, em setembro de 1950, a população tem a primeira emissora de TV: a Tupi de São Paulo, empresa dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

O rádio brasileiro sofre um abalo. Ao longo da década, mais emissoras de TV são inauguradas e verbas publicitárias, profissionais, idéias, projetos, migram para o meio da telinha luminosa. E já, em meados dos anos 60, a televisão ultrapassa o rádio na média diária de audiência, tirando-lhe a hegemonia.
É necessário salientar que, concomitantemente, o Brasil passava por sérias e profundas transformações políticas e econômicas. O regime militar imposto em 1964 fechou emissoras, prendeu jornalistas e radialistas ferindo gravemente a base da estrutura radiofônica da época. O rádio, como se conhecia, nunca mais seria o mesmo. Teria de, forçosamente, mudar. Repensar conceitos. Modernizar-se. Algumas situações contribuíram para tanto. Desde 1947, quando surgem os transistores no mundo tornando possível a compactação dos equipamentos, o rádio pode oferecer ao público o conforto de ser portátil com a substituição dos equipamentos receptores de mesa pelas pequenas caixinhas que se podia carregar junto ao ouvido, na rua, no trabalho, nos campos de futebol. Outro fator de fundamental importância. O surgimento do tape, da fita magnética, que permite a fixação do produtos sonoros e audiovisuais com conseqüências positivas para a construção dos espaços de programação, seja na área da criação artística, educativa, jornalística ou comercial. Vale, porém, apontar a conseqüência mais direta do uso freqüente da fita magnética no rádio e na TV, a proliferação dos programas gravados ou enlatados, subtraindo, sobremaneira, o espaço de veiculação de eventos ao vivo.

Década de 70. A era dos satélites. O mundo conhece as transmissões planetárias. Os artefatos em órbita geoestacionária podem levar a bilhões de pessoas, simultaneamente, informações, lazer, publicidade. As distâncias encurtam, a comunicação transforma atitudes, o mundo é de fato a aldeia global onde o regional e o local são assediados pela comunicação globalizada. No Brasil, ao contrário de muitos países que ao lançar seus satélites reservaram espaço em seus transponders para o rádio, o Brasil-sat 1, explorado pela Embratel, só tinha emissoras de televisão entre os usuários. O rádio ainda navegava pelos links telefônicos e pelas redes de microondas. Foi por aí que surgiu a Freqüência Modulada, como complemento de uma política de esvaziamento da freqüência em Amplitude Média, tornando-a adstrita a um perímetro reduzido de cobertura, com uma programação preferencialmente popularesca, mudando o eixo de audiência. Inicialmente utilizada como linha de serviço entre a cental de operações e os transmissores, a FM passou a ser objeto de interesse comercial, já nos anos 60, nos Estados Unidos. De alcance limitado, traz em suas próprias características uma qualidade de transmissão que garante uma melhor definição do sinal sonoro, portanto, com resultados sensivelmente melhores para a veiculação de obras musicais e tantas outras ações. A FM passou a ser símbolo de programação voltada para o jovem e a AM a contar com espaços dirigidos a um público mais amadurecido. Este estigma é verificado até os nossos dias.

A realidade atual do rádio mostra que em sua tentativa de atualizar-se, subsistir o efeito televisão, buscou novas fórmulas de atuação, por exemplo, no campo da informação, onde sua credibilidade junto ao público mantém-se inatacável. O dinamismo de suas operações de produção e irradiação, as facilidades técnicas e o baixo custo garantem uma cobertura jornalística in totum, reconhecida por todos. No campo da música, é consagrado como o meio de divulgação mais importante, onde ainda se observa a falta de ousadia em diversificação das programações, atreladas que estão à veiculação massificada dos produtos da indústria do disco. Duas questões, por fim, devem modificar, sobremaneira, o panorama do rádio brasileiro na atualidade. O primeiro fator são as redes. Filhas diretas das cadeias de rádio, tão comuns nos eventos jornalísticos e esportivos, enlaçadas por linhas telefônicas ou por redes de microondas, as redes, como nós as conhecemos hoje, ou seja, a reprodução de uma programação gerada por uma cabeça de rede em direção a suas afiliadas, deu seus primeiros passos em 1991, pelo acordo da Rede Transamérica de Rádio e a Embratel, quando foi cedido espaço de subida de sinal radiofônico para o satélite por meio da emissora do Rio de Janeiro em direção às parabólicas, localizadas nas outras cinco emissoras da rede. Experiências de rede já haviam surgido: o pioneiro Walter Guerreiro, do estúdio Free, que nos anos 70 enviava programas como Chico Anísio Show para emissoras de rádio do interior paulista, fixados em fitas cassete. Anos mais tarde muitos tentaram, com sucesso, empreendimento radiofônico em rêde. A Rede LC, A Rede América, A Rádio 2 e a Criar, entre tantas outras empresas produtoras de peças e programações em áudio, realizaram projetos em rede nos anos 80 ainda enviando pelo correio fitas cassetes. São deste tempo as redes Nova no Rádio, Capricho, Moçada e Rádio Guia Rural, produzidas por Criar e Ali Associados para a Editora Abril, que cobriam 70% do território nacional com suas 300 afiliadas.

Hoje temos 26 redes radiofônicas no Brasil. Disputam a primazia duas grandes: a Jovem Pan Sat e a Band Sat. Podemos destacar também Gaúcha Sat, Antena 1 Sat, Rede Católica de Rádio, Rádio Renascer Sat, entre tantas. Cerca de 30% do mercado radiofônico já opera no sistema de redes, mas ainda se observa a tendência da primazia da audiência da rádio local sobre a rádio em rede. Provavelmente, em razão da cobertura dos motes informativos, culturais e comerciais locais em relação ao pacote de programas, com ótimo acabamento mas sem a preocupação do atendimento às demandas imediatas do público, seja o grande vetor do êxito do rádio junto à população. E, por fim, a grande transformação. A digitalização. Se já existe, em larga escala, nos elementos operacionais de captação, produção e finalização dos produtos sonoros, ainda está à espera de decisão governamental para a implantação de sistema digital de transmissão que, aos poucos, oferecerá aumento significativo de possibilidades de produção por meio da multiplicação de sinais de alta qualidade de recepção localizados num espectro comum. Poderíamos falar, no fechar das cortinas, do rádio na Web. A utilização dos espaços na rede mundial já é um fato consumado. Emissoras e organizações vêm, num crescendo, aproveitando a liberdade de uso da Internet para colocar suas ações sonoras em arquivos correspondentes ou por meio de streaming, que permite a transmissão em tempo real. Estamos aguardando com muita expectativa a promulgação, por parte do presidente da República, de projeto de lei, com tramitação e aprovação no Congresso Nacional, que permite o aporte de recursos advindos de fontes externas, no limite de até 30% do capital das empresas de radiodifusão.

Nestes 80 anos, nunca as perspectivas foram tão alvissareiras. A tecnologia vem aperfeiçoar o uso deste meio de grande alcance popular, para onde convergem as atenções gerais quando da veiculação de informações de qualquer espécie. Com a conquista da melhoria das transmissões, inversão de recursos, os programas de reciclagem de profissionais, em todos os níveis de atuação, a democratização dos espaços e a credibilidade institucional reforçada pela possibilidade de veiculação de comerciais, com garantia de inserção, o rádio estará apto a enfrentar os desafios inerentes ao tempo em que vivemos, traduzindo estes esforços na valorização da aposta dos anunciantes, tendo como aval a confiabilidade construída junto ao público, ao longo destes 80 anos.