LABRE

A LABRE, O RADIOAMADORISMO E OS SEUS PROBLEMAS

A LABRE, O RADIOAMADORISMO E OS SEUS PROBLEMAS

Armando Cézar Bezerra - PR7LBV

Foi por demais proveitosa a reunião do Conselho Diretor da Confederação Brasileira de Radioamadorismo - LABRE, realizada em Brasília-DF, no período de 22 a 25 de novembro de 2001, conforme relatos dos nossos colegas Murilo Martins Ferreira - PR7AYE e Ivo Severiano Alves - PR7IVO, que representaram a Federação Paraibana de Radioamadorismo - LABRE/PB no referido conclave. Na parte relacionada com “Assuntos Gerais”, constante da ordem dos trabalhos, mereceram elogios dos representantes de quase todos os estados brasileiros, alí reunidos, as exposições, feitas pelos citados companheiros, sobre as atividades que vêm sendo desenvolvidas na LABRE/PB, destacando-se as demonstrações públicas de radioamadorismo, realizadas em 05 de maio e nos dias 03 e 04 de novembro deste ano, as primeiras, nas imediações do busto de Tamandaré, na Praia de Tambaú, no Dia das Comunicações e, as últimas, na Praia da Penha, dentro das comemorações da Semana do Radioamador. Tudo isso foi mostrado através de fotografias, inclusive sobre outras promoções feitas pelos colegas de Guarabira, como o Conteste WW que tanto sucesso alcançou.

 Ainda sobre a reunião em tela, o colega Rodrigo Octávio - PT2NJ, fez um relatório no qual destacou a presença alí do Cel. Paulo Roberto Cavalcanti Mourão Crespo, assessor da Secretaria Nacional de Defesa Civil e o anúncio feito por este da publicação, no Diário Oficial da União, da Portaria nº. 302, de 24 de outubro de 2001, sobre a criação da Rede Nacional de Emergência de Radioamadores - RENER. Sobre o pronunciamento do Cel. Paulo Roberto, o companheiro Rodrigo Octávio reportou que “ele foi suficientemente capaz de ressaltar, para todos os que compareceram a este encontro, de forma inequívoca e transparente, o nível qualificativo da nova realidade social defrontada pela figura do radioamador, face à criação da RENER e que despertou no seu âmago, para a vivência do presente, as sutilezas dos sonhos de há muito acalentados por todos aqueles que se encontravam e se encontram engajados na missão gloriosa de servir, onde o sentido maior é o reconhecimento do mérito dos seus próprios valores, das suas convicções, das suas virtudes e das suas supremas aspirações, que se perfilam, de forma arraigada, nos princípios e na crença realística ditada pela máxima de que QUEM NÃO VIVE PARA SERVIR, NÃO SERVE PARA VIVER.

 A Portaria citada, de certo modo, veio resgatar o reconhecimento das autoridades governamentais sobre a importância do radioamadorismo que, para muitos, já parecia fanada. Indiscutivelmente, esse serviço, a despeito do desenvolvimento extraordinário que tem se operado no setor das telecomunicações, ainda constitui uma necessidade, mormente num país de dimensões continentais como o nosso, quando são imensas as áreas sem quaisquer meios de comunicação. Ao nos referirmos ao termo “resgatar”, o fazemos porque, de certa época à esta parte, o radioamadorismo brasileiro vem sendo relegado por essas autoridades pois, ao invés de prestigiarem esse serviço e a entidade que congrega os seus participantes, vêm agindo de forma diferente, sem qualquer respeito ao seu passado, como pioneiros dos meios de comunicação e verdadeiros artífices de tudo o que existe nesse campo. Apesar do tempo decorrido, ainda não nos esquecemos do golpe arrasador, perpetrado contra a LABRE, pela Portaria nº. 913, de 12 de junho de 1985, do Ministério das Comunicações, que trata da desvinculação do radioamador da referida Instituição. Antes, o associado radioamador, eliminado dos seus quadros, por falta de pagamento ou por um motivo qualquer, implicitamente tinha a sua licença cassada. Agora, o permissionário não tem qualquer obrigatoriedade de se filiar à LABRE ou a qualquer outro órgão.

 A surpresa maior que essa medida causou, foi porque, 28 dias antes (15.05.1985), ao receber em seu Gabinete uma Comissão de dirigentes da LABRE, o Sr. Antônio Carlos Magalhães, então Ministro das Comunicações, fez uma verdadeira apologia, com relação à LABRE e o radioamadorismo, quando, a certa altura do seu discurso, assim se expressou: “É com enorme prazer e com muita honra que, como Ministro das Comunicações, recebo a visita dos dirigentes da LABRE. Quero dizer, nesta oportunidade, aos radioamadores de todo o Brasil, o quanto o nosso País lhes deve, pelo significativo trabalho que realizam em favor das comunidades quando, nas horas difíceis, o radioamador alí sempre se faz presente. Logo, a Nação, o seu Governo, todos, enfim, têm as suas ligações com os radioamadores. Conseqüentemente, nós do Governo, só podemos ter palavras de incentivo para que eles se sintam encorajados em continuarem o seu trabalho em favor do povo brasileiro. Eu quero dizer à essa Comissão tão significativa que nos visita, que o Ministério, enquanto aquí estivermos, será um prolongamento da LABRE. Portanto, a LABRE terá as portas abertas para a sua ação nesta Casa e, neste sentido, darei recomendações, que já existem por certo, mas reforçarei, junto ao DENTEL, para lhe criar facilidades e não dificuldades.“ E, concluindo: - “Quero dizer aos senhores que estarei aquí sempre ao seu inteiro dispor, pronto para atende-los, porque atendendo os senhores eu não só estou atendendo os sessenta mil radioamadores, mas, tenho a certeza, de que estou atendendo a quase cento e vinte e cinco milhões de brasileiros, que os escutam e aos quais os senhores servem com tanta dedicação e que aplaudem a atuação da LABRE. Muito obrigado!”.

 O Sr. Ministro, certamente, ao assinar a Portaria em causa, não mediu as conseqüências danosas que ela iria causar à LABRE, constituindo o fato uma antinomia, com relação ao seu pronunciamento. Até hoje, ninguém entendeu o porquê da edição do citado documento. Uns afirmam que foi em decorrência da ação impetrada, em fins de 1984, por alguns colegas gaúchos que, ao serem eliminados da LABRE, tiveram os seus prefixos cassados. O processo referido foi acatado pelo Tribunal Federal de Recursos, que considerou como “inconstitucional” o artigo 26º , do Regulamento do Serviço de Radioamador (Decreto-Lei nº. 74.810/74, de 05.ll.1974), por colidente com os artigos 8º e 153º, da Constituição de 1967. Mas, no Cap. IV - Dos Direitos e Garantias Individuais, do documento citado, não consta coisa alguma sobre o assunto.  Em 12 de junho de 1985 (data da Portaria nº . 913) que fizemos referência em linhas atrás, a Constituição ainda era a mesma. Somente na Carta Magna de 1988, no Capítulo I, dos Direitos e Deveres Individuais, Inciso XX é que reza o seguinte: “Ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado”. Mesmo assim, os profissionais liberais, não poderão atuar. Outra versão que circulou na época era que a atitude do Sr. Antônio Carlos Magalhães foi de natureza política. Acontecia que o nosso colega Márcio - PY6AZ era Diretor Seccional da LABRE da Bahia e Oficial de Gabinete do Governador do Estado, de quem ACM era inimigo político. Daí a cisma que se levantou. Em 28 de junho de 1985, como Diretor Seccional que éramos, endereçamos uma correspondência ao Presidente da LABRE CENTRAL, nosso companheiro Francisco José de Queiróz - PT2FR, dando conta “da nossa preocupação, diante da perspectiva da ocorrência de um esvaziamento no quadro social da LABRE, visto que, antes, mesmo diante da possibilidade da cassação da licença do radioamador, por conta de sua eliminação, muitos companheiros eram por demais negligentes, no que diz respeito ao pagamento das mensalidades. Imaginamos o que poderá acontecer quando não mais existe a exigência de filiação”.

 Infelizmente, aconteceu o que previmos e, o resultado, é que a nossa LABRE e, por extensão, o radioamadorismo brasileiro não têm mais a pujança de antanho. A esperança, agora, é que a RENER venha recuperar o prestígio de ambos isso, lógico, se houver uma completa integração dos seus participantes, com o emprenho de todos para que o órgão recém-criado cumpra a tarefa preconizada pelos seus idealizadores. É verdade que nós estamos a experimentar um outro sistema de vida, diferentemente do que acontecia nos idos de 1970, período que, no nosso entender, o radioamadorismo brasileiro atingiu a sua plenitude. Acontecia que os serviços de telefonia e os prestados pelos Correios e Telégrafos eram por demais precários e, por isso, quem supriam essas deficiências eram os radioamadores, mesmo com os “caxivaques” (nome que era dado aos “equipamentos caseiros, em Amplitude Modulada). Não foram poucas as vezes em que os jornais abriam largas manchetes exaltando o trabalho dos “bandeirantes do éter”. E não era somente em nosso País, como no mundo inteiro a febril atividade desses abnegados. Naquele ano foi exibido nos nossos cinemas e na rede de televisão, um filme francês com o título “Se todos os homens do mundo...” (A reticência, certamente, é a omissão da expressão “fossem como os radioamadores”). A película referida deve se encontrar nalguma cinemateca e retratava ficticiosamente o extraordinário trabalho de um grupo de radioamadores africanos, americanos e franceses, no afã de salvar a vida dos tripulantes de um navio norueguês, acometidos de botulismo, quando o referido barco se encontrava nas geladas águas do Mar do Norte. Os marujos referidos chegaram são e salvos ao porto de destino, graças ao empenho e a solidariedade dos radioamadores que tomaram parte nessa epopéia. Portanto, a Rede Nacional de Emergência de Radioamadores virá, com certeza, alavancar o entusiasmo dos nossos companheiros, quando a eficiência desse serviço demonstrará que o radioamadorismo ainda se encontra vivo e que muito poderá fazer pelas comunidades. Não é necessário, porém, que haja uma convocação. Diante do prenúncio de uma catástrofe, ou do estabelecimento desta, os colegas devem espontaneamente, se apressar na solicitação dos socorros que se fizerem necessários.
O desafio está lançado. Esperamos que os companheiros entendam o quanto é preciso o seu engajamento nessa tarefa, considerando que a LABRE é um “clube de serviços”, como o Lyons, o Rotary e a Maçonaria, sendo que, no nosso caso, ela tem uma abrangência mais ampla, por conta do apoio do radioamadorismo que é considerado “o maior clube do mundo”.

 O que nos preocupa, é a situação de uma maioria considerável de permissionários, que não pertence aos quadros da LABRE. É, por assim dizer, um grupo que vive completamente à margem, muito embora desfrutando de determinados benefícios que a citada Entidade reserva para os seus associados, inclusive das suas repetidoras de VHF e o ônus que ela assume, com relação à contribuição, em favor da IARU, representada por dois centavos de dólar, por cada radioamador, filiado ou não da referida Instituição, coisa que, particularmente, somos contra, por entendermos que tal anuidade devia ser paga pelos não associados da LABRE, diretamente ao citado órgão internacional. A propósito do assunto, certa feita, tivemos a oportunidade de “corujar” um QSO, estabelecido entre o nosso colega Nestor - PR7MV e um companheiro, se não nos enganamos, de Ruy Barbosa-BA. Ao término desse contato, este último reportou que “ía mandar o seu QSL via Correios, porque não era associado da LABRE”. Na volta do câmbio o Nestor disse-lhe para não enviar a “cartolina”, visto que não aceitava um radioamador sem ser filiado à LABRE. No íntimo, aplaudimos a reação do colega da Paraíba porque, de qualquer modo, a LABRE é a única entidade representativa do radioamador brasileiro, reconhecida pelo Ministério das Comunicações. É ela, ainda, que, como filiada à IARU e, juntamente, com centenas de associações congêneres internacionais, se faz presente nas reuniões da WARC (Conferência Radioadministrativa Mundial), promovida pela UIT, esta ligada à ONU. São nesses conclaves em que se discutem os problemas das comunicações internacionais, inclusive, os ligados ao radioamadorismo, isso no que dizem respeito à distribuição das freqüências, medidas essas tomadas, quase sempre, em meio de acirradas discussões, exatamente por conta das pressões exercidas pelos grandes países, que lutam por mais espaços para os seus mais diversos serviços. Numa dessas reuniões, que se realizou em Genebra, na tentativa de “abiscoitarem” algumas faixas reservadas aos radioamadores, foi alegada a “ociosidade” dos segmentos de 6, 10 e grande parte dos 80 metros.

 Por isso, entendemos que, se não houver uma aglutinação em torno das entidades que regem o radioamadorismo, indiscutivelmente, dentro de mais algum tempo, as freqüências a nós destinadas vão ficar por demais limitadas e, não se duvide, de que passaremos a atuar como “clandestinos”, a exemplo do que aconteceu antes da regulamentação desse serviço. É preciso convir que são muitas as vozes que proclamam “um excesso de faixas para poucos radioamadores”. Fazemos esse presságio, ao compararmos o que era a LABRE e o radioamadorismo, num tempo não muito remoto, e o que hoje representam. Evidentemente, esse fenômeno, como dissemos em linhas atrás, é reflexo do extraordinário desenvolvimento que se operou no seio das telecomunicações, sobretudo com o surgimento da Internet e da telefonia celular, considerados como grandes feitos nesse campo. Enquanto isso, o radioamadorismo vai caminhando devagar, devido, principalmente, à carência de equipamentos e, como resultado, o seu alto custo. Existiam em nosso País algumas indústrias eletrônicas, que incluiam na sua linha de produção tais equipamentos, como a DELTA, a BRAZAN, a EUDGERT, a CENTAURO e a INTRACO. Havia algumas outras mais que cuidavam da linha destinada à operação em VHF. De todas, só restou a primeira, a mais tradicional que, alegando “falta de demanda”, pôs de lado a fabricação desses aparelhos em série, passando a faze-los somente sob encomendas, mesmo assim com os seus preços muito acima da capacidade aquisitiva da maioria dos permissionários. O que tem salvo o radioamadorismo brasileiro, são os equipamentos antigos, que ainda estão a resistir à ação do tempo e aos ferros de solda, uns poucos importados, adquiridos pelos colegas mais abonados e, por fim, o “milagre” da criatividade dos radioamadores, que transformam os transceptores COBRA-SL 2000, próprios para a Faixa do Cidadão (27 MlHz) e que, com a modificação introduzida, passam a operar nos 7 com grande sucesso. São os conhecidos TRANSVERT que vêm, em parte, suprindo essa escassês. Em 1976, quando da reunião do Conselho Federal da LABRE, como representante da DS da Paraíba, apresentamos à mesa dos trabalhos, uma proposição “solicitando que, ouvido o Plenário, fosse encaminhado, ao Exmo. Sr. Ministro da Fazenda e ao Egrégio Conselho de Política Aduaneira, um pedido visando à dispensa das elevadas taxas, incidentes sobre a importação de válvulas, transistores, filtros, cristais e componentes, destinados à montagem de equipamentos em SSB”.

 Dias depois, coincidentemente, numa incursão nos 20 metros escutamos quando o colega Morato - Ex-PY2GO, de Goiânia-Go, em rádio com um outro de Juiz de Fora-MG, tecia comentários sobre a referida reunião do Conselho Federal e censurava a nossa propositura, com relação à importação de equipamentos, “como contrária à natureza do radioamadorismo”. Entramos na freqüência em que eles estavam e, depois de cumprimenta-los, informamos que éramos o autor do documento e que nele não constava coisa alguma sobre a “importação de equipamentos” e, sim de “componentes para a sua montagem”. O colega se desculpou e confessou que desconhecia o teor da propositura e que se escudava numa informação de um outro companheiro. Enviamos para ele cópias do documento da ATA da sessão, de 23 de setembro de 1976, que tratou do assunto. Em 1978, numa outra reunião do citado órgão, solicitamos da mesa diretora dos trabalhos, informações sobre o destino do nosso pedido e a notícia dada era de que o mesmo tinha sido indeferido pelo Ministério da Fazenda. Soubemos depois que a DELTA atuou no caso, dando conta da impropriedade da medida, visto que o nosso País os fabricava, o que não era verdade, visto que dependíamos de quase tudo, com exceção de alguns tipos de filtros. Talvez, agora, com a criação da RENER a questão volte à baila, porque, como é sabido, não é possível se formar uma Rede Nacional de Emergência de Radioamadores, sem se contar com o apoio, não dizemos de todos, mas da parte maior do contigente de radioamadores, visto que, segundo se calcula, 70% dos permissionários se encontram em permanente QRT, por falta de equipamentos, problema esse que já vem de longe, isso porque nunca se conseguiu uma fórmula capaz de soluciona-lo. Preocupados com essa situação, em 28 de abril de 1987, dirigimos uma correspondência à Administração Nacional da LABRE, na época em que o nosso colega Remy Flores Toscano - PT2VE era o seu Presidente, sugerindo que se fizesse uma pesquisa, junto às nossas indústrias eletrônicas, no sentido de verificar quais as que se interessavam em incluir na sua linha de produção kit’s destinados à montagem de equipamentos, sejam em SSB, AM ou CW. Era uma maneira de se dinamizar o radioamadorismo, induzindo os seus participantes à prática da técnica eletrônica e oferecendo a oportunidade deles próprios construírem os seus aparelhos, dentro dessas duas últimas modalidades de transmissão, sobretudo pela facilidade de se adquirir o material necessário, quase todo já fabricado em nosso País. Como muitos se lembram, esses eram os únicos sistemas de transmissão utilizados pelos radioamadores há pouco mais de 40 anos, período em que esse serviço mais cresceu pois, com o uso do AM , se favoreceu a formação da “Rede de Corujas” que, paralelamente, com os radioamadores, prestava também inestimáveis serviços à população. Acontecia que em todas as cidades existiam pessoas que viviam permanentementes “grudadas” aos receptores de rádio comerciais, escutando os QSO’s dos radioamadores. Muitas, quase sempre, ingressavam na RBR e se transformavam em excelentes operadoras.

 Nessa época, houve fatos marcantes. Dos muitos, que contaram com a participação desses “corujas”, vamos fazer referência somente a dois: - o primeiro, se deu com o colega Justino ex-PR7JJ. Como ele fazia habitualmente, antes de sair para o “batente”, ligava o rádio e dava uma “varrida” nas faixas. Num desses dias, ao sintonizar os 20 metros, escutou um companheiro de Brasília-DF chamando a cidade de João Pessoa. Tratava-se de um QTC de doença grave, sendo a enferma genitora de um jovem que se encontrava em Cuité-PB, integrando uma equipe do Projeto Rondon. O Justino deu o QSL e se deslocou para os 40 metros. Jogou a mensagem no éter, chamando a atenção do “coruja” João Moreno, alí residente. Eram 07:00 horas. Às 11:30 horas, o Justino, quando se preparava para ir almoçar, chega um mensageiro dos Correios, com um telegrama de Cuité, que dizia: - “Missão cumprida - João Moreno”. Esse cidadão se tornou radioamador, com o prefixo PR7CKN, e prestou inestimáveis serviços, não só à comunidade cuiteense, como às demais das cidades vizinhas. O Justino e o João Moreno já se encontram no “Oriente Eterno” e, naturalmente, estão a escutar os nossos QSO’s, sem poderem, entretanto, emitir o clássico QAP/ QRV. O outro caso, se deu com o companheiro Santos - PR7NK. Certa feita, ele chamava, insistentemente, por colegas do Recife, na esperança de que algum deles tivesse condição de adquirir uma determinada medicação, anti-hemorrágica, não existente nas farmácias de João Pessoa e destinada à uma senhora que se encontrava internada no Hospital do 1º Grupamento de Engenharia, em estado desesperador. Um desses “corujas”, da capital pernambucana, escutou a solicitação do Santos, anotou o nome do remédio, correu a uma das farmácias, comprou-o e, depois que o entregou a um dos motoristas, de um dos ônibus que fazem a linha Recife-João Pessoa, telefonou para um radioamador daquela cidade, pedindo para avisar ao Santos, que ainda se encontrava na freqüência, que a medicação já estava a caminho de João Pessoa e que o mesmo fosse apanha-la na Rodoviária. Tais histórias, dentre as muitas que aconteceram, vêm nos mostrar a necessidade do retorno do AM quando, certamente, iríamos contar com os serviços dessas abnegadas criaturas, dando, desse modo, vazão ao seu desejo de serem úteis e, ao mesmo tempo, desfrutarem desse gostoso passatempo. Há colegas, porém, que julgam o citado sistema de transmissão superado e que a sua volta iria causar tumulto nas faixas. Acreditamos que isso não ocorreria se fosse estabelecido um acordo no sentido de se utilizar os segmentos de freqüências de 7.200 a 7.300 KHz, muito embora sejam muitos os vazios em todas as faixas, sobretudo nos 40 metros. Aconteceu que, com o advento do SSB, houve uma queda substancia na prática de operação em Amplitude Modulada, coisa que se atribuiu a complexos ou mesmo inibições, muito embora fossem poucos os companheiros possuidores dos equipamentos concebidos dentro das modernas técnicas.

 A propósito do assunto, recentemente, lemos numa revista especializada, que muitos radioamadores dos EUA estavam “ressuscitando” antigos aparelhos em AM. Por que não imitamos os nossos colegas americanos? Precisamos, isto sim, povoar as nossas faixas, eliminando, assim, o risco de perde-las. É válida, portanto, qualquer iniciativa, mesmo que, para isso, se utilize um modesto equipamento, construído para os contatos “de esquina”. Às vezes, tais “cachivaques” fazem verdadeiros milagres de transmissões, cujos sinais chegam a ultrapassar as nossas fronteiras, atingindo remotas regiões do planeta, sendo incontida a alegria por tais feitos. Foi o que fizeram os nossos precursores, a começar pelo grande sábio brasileiro que foi o Padre Roberto Landell de Moura, que lutou, tenazmente, para concretizar o seu sonho, como inventor da telefonia sem fio, do telégrafo sem fio e das transmissões de ondas, isso nos anos de 1893 e 1894. Se não tivesse havido a incompreensão das autoridades civis e eclesiásticas brasileiras, ele teria sido o pioneiro, no mundo, na transmissão de sinais, através do éter, abrindo desse modo, os caminhos para as telecomunicações e o extraordinário desenvolvimento em que elas se encontram no momento. Foi considerado, entretanto, como um impostor, mistificador, louco, bruxo, padre renegado e herege. O que se dizia, na época, era que o mesmo tinha parte com o diabo, visto que fazia com que a sua voz chegasse a quilômetros de distância. Como não tivesse encontrado apoio das autoridades brasileiras viajou para os Estados Unidos, onde permaneceu por três anos, enfrentando grandes dissabores, decorrentes das dificuldades financeiras. Somente em 1904, conseguiu, finalmente, o registro das patentes do transmissor de ondas (nº. 771.917) , do telefone sem fio e do telégrafo sem fio (nºs. 775.337 e 775.848). Nessa altura, Marconi que havia emigrado para a Inglaterra, em 02 de junho de 1896, obteve a patente do seu invento.

 Em 1909, o radioamador Lívio Gomes Moreira, natural de São João da Barra, Estado do Rio de Janeiro, começou também a estabelecer contatos através do rádio, com uma estação de 2,5 watts, construída por ele próprio, dentro de um sistema rudimentar, inclusive, utilizando garrafas para a confecção de bobinas e fabricando condensadores com papel de chocolate e chapas fotográficas de vidro, visto que pouco, ou quase nada, se podia adquirir em casas comerciais. Com o mesmo ideal, um pouco mais tarde, se empenharam nessa tarefa José Jonotskoff Almeida Gomes, Álvaro S. Freire, Carlos G. Lacombe, Pedro S. Chermont, Henrique Morize e Edgard Roquette Pinto, no Rio de Janeiro; César Yazbek, João Ramos Baccarat, Elias Amaral,  Leonardo Y. Jones Júnior e João Tonglet, em São Paulo; Rubem Simas e Levy de Souza, no Paraná; Tyrteu Rocha Vianna e Pedro Carlos Schuck, no Rio Grande do Sul; Tito de Araújo Firmo Xavier, João Cardoso Ayres, Mário Penna e José Victor, em Pernambuco; Jayme Seixas, Lupércio de Souza Branco, João Pinto, Pedro Matos e João Miguel de Morais, na Paraíba. Esses e tantos outros abnegados, que viveram um passado que já vai longe, constituíram a glória do radioamadorismo brasileiro, porque muito lutaram procurando desvendar os mistérios e as múltiplas utilidades que do empreendimento poderiam surgir. Aí estão, portanto, alguns fragmentos da história da LABRE e, por extensão, do radioamadorismo, colhidos por nós em mais de quatro décadas de vivência, como labreano e como radioamador. Nesse período, com profunda tristeza, quando vimos essa caminhada começar a claudicar, exatamente, como já dissemos, devido aos mais diversos problemas e, dentre esses, um que julgamos de maior importância: - a falta de apoio da parte de um considerável número de permissionários, visto que, como sabemos, a LABRE tem a sua estrutura alicerçada no radioamadorismo, razão precípua de sua existência, como este depende, para o seu desenvolvimento, de uma atuação ativa da referida Entidade. Através desses relatos, conclui-se que ainda há muito o que fazer para que a LABRE e o radioamadorismo voltem a ser o que eram, há pouco mais de três décadas. Existe, portanto, um longo caminho a ser percorrido, cheio de muitos obstáculos, mas não intransponíveis, desde que haja uma intensa ação participativa, principalmente dos não associados que, usando o pouco do seu raciocínio, poderiam sentir quão necessária é a sua filiação à referida Entidade. Esta, com a sua estrutura fortalecida, teria mais condição de partir para os grandes pleitos, sobretudo agora, com a criação da RENER, quando haverá razões sobradas para essas reivindicações porque, como é óbvio, tal órgão não poderá funcionar plenamente, sem contar com a totalidade dos radioamadores, devidamente equipada, o que representa, na verdade, o cerne da questão. Isso implicará, além de muita habilidade, força de convencimento e muita pressão pois, só assim, se conseguirá sensibilizar, no caso, os componentes dos órgãos fazendários, visando, pelo menos, a redução nas alíquotas de importação, com referência aos componentes destinados à montagem de equipamentos, visto que a entrada no País de aparelhos prontos, de fabricação estrangeira, enfrenta sérias restrições, por constarem da relação da Comissão de Política Aduaneira como “artigos supérfluos”. Por isso, é que defendemos o fortalecimento da LABRE pois, do contrário, não chegaremos a lugar algum. Essa coesão é, portanto, de significativa importância para a concretização dos projetos estabelecidos pelos seus dirigentes. Isso ocorrendo, certamente, teremos uma LABRE engrandecida e um radioamadorismo participativo e fraterno, oportunidade em que se nos oferece para tornarmos a ouvir palavras enternecedoras, como as proferidas pelo jornalista Ivon Pinto e inseridas na edição de 20 de agosto de 1980, do Jornal Correio do Sul, de Santa Rita do Sapucaí-MG, cujos parágrafos finais assim diziam: - “Na vida atual, seria difícil ignorar as presenças da RNR e da LABRE, que congregam todos os radioamadores brasileiros, sob uma bandeira comum. Por toda parte, encontramos esses abnegados, presos a um dever ético intransigente. Eles também se espalham pelo mundo inteiro, sob as mais diferentes bandeiras, esperando, apenas, o sinal para se arregimentarem em torno do bem comum”.

 “É bem verdade que, de todos os indivíduos que, num esforço contínuo querem propiciar ao seu semelhante uma grande solidariedade que os imantize com todos os povos, ninguém obteve tão grandes resultados como os radioamadores. São eles, enfim, os anônimos dos confrontos mundiais”. E conclui: - “Onde quer que haja uma dor para minorar; onde houver uma aflição para suavizar; uma ansiedade para confortar; onde um homem selvagem necessitar conhecer o conforto civilizado dos seus irmãos, aí estará presente a voz enternecida desses heróis anônimos, sofrendo as dores que não são suas, suavisando as chagas que jamais viram e consolando almas que, nem sequer, conhecem”. Antes de encerrarmos estas considerações, queremos prestar  a nossa sincera homenagem aos componentes da “velha guarda” que fizeram a implantação da LABRE e do radioamadorismo em nosso Estado. Muitos já nos deixaram a caminho da eternidade, como João Miguel de Morais, ex-PY7LN e Pedro Matos - PY7LA, entre outros. Alguns deles, entretanto, estão ainda conosco neste mundo de Deus, como Diógenes Setti - ex-PY7NC, residindo, atualmente, no Rio de Janeiro, Hermano Araújo - PR7MP, que se constituiu numa grande bandeira e ao qual a LABRE muito lhe deve; Euclides - PR7MN e Nestor - PR7MV que, como detentores de conhecimentos da técnica eletrônica, orientavam os candidatos a ingresso no radioamadorismo; Santos - PR7NK, o eterno Tesoureiro, que cumpria a difícil tarefa de, todas as semanas, procurar os colegas, nos seus QTH’s ou nos seus “batentes”, a fim de conseguir deles os preciosos QSJ’s, destinados ao pagamento do pessoal responsável pela construção do prédio de nossa Sede. Além desses, formando o “grupo de apoio”, emprestaram também a sua colaboração os colegas Amaury - PR7NX, Vitoriano - PR7PN, Fernando - PR7NI, Abnilson - PR7PJ, Magdala - PR7LAB, Machado - PR7LAV e tantos outros, cujos nomes fogem de nossa memória. Mas, há um que não pode ser esquecido: - o do ex-Governador Pedro Gondim - ex-PY7PG, isso pelo muito que ele fez em favor da LABRE/PB, visto que foi na sua gestão, à frente do Governo do Estado da Paraíba, que ocorreu a doação do terreno onde foi construída a sua Sede. Com referência à citada Entidade, no momento, ela vai muito bem, graças à sua equipe administrativa, que tem, como seus timoneiros, os colegas Ivo Severiano Alves - PR7IVO, na Presidência da Federação e Murilo Martins Ferreira - PR7AYE, na Presidência do Conselho Federativo e que, por isso, merece o apoio, irrestrito, de todos os associados.

João Pessoa-PB, 27 de dezembro de 2001