Artigos sobre Radioamadorismo

TEMA CRIOULO

TEMA CRIOULO

Por José Carlos Löfgren Prates – PY3AVW

Num paralelo com a vida riograndense e o radioamadorismo, a propagação que irmana os povos é como um atalho pela picada do éter e a portadora tal qual a avestruz em seus largos passos e plumas ao vento, galgando as distâncias pelos chapadões a fora. A QRG, a porteira franca e acolhedora. O shack é a réplica de um galpão crioulo e hospitaleiro onde se reúne  a peonada dos pagos. Aqui o tição arde incandescente aquecendo o amor. Os estáticos chiam como a chaleira no braseiro ou churrasco no espeto, e assim, como na roda do amargo bem cevado, passa de mão em mão o microfone e cada modular é um trago de amizade estimulante na jornada do radioamador dos pampas. O QSO familiar e amigo traduz o caráter do índio taura e macanudo. Os fios rodilhados lembram as cordas dos preparos, e a antena, o palanque, o cabresto e o laço. A chamada geral é o rodeio, os primeiríssimos, a marcação.

Os QRMs  da faixa, quando entreverados, dão uma idéia do canto do joão-de-barro e do quero-quero com o alvoroço da boiada, e o SSB, o grasnar da saracura na várzea alagada, enquanto a interferência  reproduz a revoada de jacus, o sibilar do pampeiro constante ou o assobio do perdigão. A faixa silente traduz o coaxar das rãs lá na costa do mato. O anonimato daquele colega solícito sempre alerta na escuta e disposto a fazer estourar um QTC, simplificando as distâncias e abreviando as estradas faz alusão  à coruja, figura quase decorativa das tramas e moerões, espreitando pelos corredores dos campos. E, finalmente o crepúsculo, cena bonita barbaridade, é bem simbolizado pelo QRT que reflete o silêncio do radioamador sulino, adormecido sob o Cruzeiro do Sul, na expectativa de uma nova madrugada, prelúdio de outras campereadas pelas invernadas das faixas. Assim se repetem lado a lado, harmoniosamente, as atividades do radioamador gaúcho, a paisagem, os costumes e a vida nativa.