Artigos sobre Radioamadorismo

O RESTO DA HISTÓRIA DO RADIOAMADORISMO

O RESTO DA HISTÓRIA DO RADIOAMADORISMO NO BRASIL, NA AMÉRICA LATINA, NO MUNDO

Escrito por João Ramos Baccarat - PY2AJ

O DIA DO RADIOAMADOR

I - CONJETURAS

Dizem as notícias antigas, publicadas há longos anos, que a LABRE FOI FUNDADA NA MEMORÁVEL ASSEMBLÉIA GERAL DE 02.02.1934. (1) Há duas observações a fazer, quanto ao que vem dito acima:

a) - não foi assembléia geral, mas, simplesmente, ASSEMBLÉIA, a reunião, porque não estava, ainda, fundada a LABRE, e não haveria sócios dela para, daquela forma, se reunirem. Essa assembléia foi, apenas, assembléia de amadores, com o objetivo de fundar uma associação, que seria a terceira, substituta das duas existentes, uma em São Paulo, a LABRE, outra no Rio, a RÊDE. Se se falasse em ASSEMBLÉIAS, no plural, com um pouquinho de boa vontade, poderia aceitar-se a afirmativa, porque, nesse caso, seriam duas assembléias, das duas entidades que se fundiram, realizadas SIMULTÂNEAMENTE: E, ainda, assim, seria uma só a reunião...

b) - a notícia fala em MEMORÁVEL assembléia, mas verdade é que, a despeito de ser digna do qualificativo, pelo amor que os labreanos devem à entidade da classe, deixou de ser MEMORÁVEL, de merecer lembrança, pela razão de ter sido sepultado em negro vaso de água do esquecimento: ninguém, hoje, dela se recorda.

Até agora tem passado despercebida a data “MEMORÁVEL” da FUNDAÇÃO da LABRE. Há mais, desgraçadamente: - existem filhos de ÉRIS, enojosos, que a querem destruída... Comemora-se, hoje, o dia do RADIOAMADOR em data que não corresponde ao nascimento do radioamadorismo aquí, como tive oportunidade de demonstrar nos artigos escritos e intitulados: “O PRIMEIRO AMADOR DO RIO GRANDE DO SUL” e “MARANHÃO - AMADOR ESQUECIDO”. Foi instituído o radioamadorismo brasileiro, ao reconhecer-lhe o Governo a existência, deferir, em 1925, a requerimentos dos interessados, e conceder-lhes prefixos, os mesmos que figuram na lista publicada na “REVISTA TELEGRÁFICA”, de Buenos Aires. (2)

É sugestivo o documento:

“Tenho o prazer de comunicar ao colega que RGT (3) lhe concedeu, oficialmente, o prefixo 2AJ. Não foi possível obter o prefixo pedido, pois a repartição está dando em ordem alfabética sem levar em consideração as diferentes cidades do mesmo distrito. Pse comunique ao seu primo Carlos que o prefixo dele é 2AK. Espero breve ter o prazer de fazer QSO com o colega. Breve enviarei lista completa amadores brasileiros.” Comprovadas as afirmativas, pelo que consta neste cartão de CHERMONT, (Documento 1) datado de setembro de 1925, não há fugir à conclusão a que cheguei, nos referidos artigos deste livro. Nessa época, ficou “OFICIALIZADO” o radioamadorismo no Brasil. Até aí, era ele clandestino, segundo informação de LEONARDO JONES, 2 SP, em visita que me fez, no mês de janeiro do ano corrente, de 1968. Comemorar o dia do radioamador, porque lhe regulamentaram as atividades numa PORTARIA MINISTERIAL, a de número 829, de 22.10.1935, é um contrasenso, é injustificável, pois, antes deste ato, JÁ EXISTIA RADIOAMADORISMO, que vinha de 1923, embora “CLANDESTINA, ou OFICIOSAMENTE”: as instruções, deveres e limitações às atividades amadoristas nela reguladas, preexistiam-lhe.

Entre esse ano, no qual os amadores do Rio de Janeiro iniciavam o aprendizado da recepção auditiva do morse, nas aulas ministradas pelo professor ALBERICO DE MORAIS, (4) e a “PORTARIA 829” medeiam DOZE ANOS, e comemorado o dia do radioamador, na data desta, forçosamente, teremos de reconhecer, QUE O RADIOAMADORISMO NÃO EXISTIU NESSE LONGO PERÍODO DE TEMPO, nesses doze anos!
Torna-se, portanto, insustentável, comemorar-se o DIA DO RADIOAMADOR a 22 de outubro. Puxando pela memória, e consultado o arquivo, concluo que esse “RECONHECIMENTO-AUTORIZAÇÃO” do radioamadorismo se deu em fins de agosto, ou na primeira quinzena de setembro de 1925, porque entre os dias 14 e 20 deste mês, bz2AB se encontrava no éter, com este prefixo “OFICIAL ou OFICIOSO” do DCT, e JONES, 2SP, clandestino, “SE OFICIALIZARA”, por esse ato, passando a transmitir com o prefixo 2AA.

Infiro, dos argumentos expendidos, ante a documentação até agora compulsada, que existiriam duas datas para se comemorar o DIA DO RADIOAMADOR, uma excluindo a outra, como é óbvio:

a) - a da autorização, ou reconhecimento do radioamadorismo, em agosto-setembro de 1925;

b) - a da fundação da LABRE, em 1934.

Não se poderá cogitar desta última data, para essas comemorações pelo mesmo motivo por que se não deverá comemorar a de 22 de outubro: - o dia do radioamador não é o dia da LABRE, se como é sabido, notório - o radioamadorismo NASCEU ANTES DELA. O fato capital, que deverá ser, para todos nós, MEMORÁVEL, e portanto, digno de COMEMORAÇÃO, é o dia em que o GOVERNO BRASILEIRO reconheceu e autorizou a existência “OFICIAL” do radioamador. Acredito que o Presidente da LABRE ao iniciar essas comemorações, esse 22 de outubro, ao aceitar a sugestão do ex-PY2KO, Padre CÍCERO DA COSTA REVORÊDO, artífice da idéia desse dia dedicado ao radioamador, nunca por nunca, cogitara no ato governamental antecedente, o que reconhecera e autorizara o radioamadorismo. (5) Por que comemorar esse dia 22 de outubro, se na realidade, ele nada significa para a classe, diante da grande data em que o Governo autorizou o trabalho dos amadores? (6)

II - Clareza

Que dia é esse que substituirá o de 22 de outubro?

Em setembro de 1925, o QST, da ARRL, publicou o STRAY de 2SP, JONES, que se referiu à LEGISLAÇÃO BRASILEIRA do radioamadorismo. (7) Que LEGISLAÇÃO seria essa, em 1925, anterior a setembro, se os mesmos JONES, LACOMBE e FREIRE, já se encontravam no éter, no primeiro semestre do ano? Em artigo anterior, mostrei que a IARU se organizara no Congresso de amadores, em Paris, em ABRIL DESSE ANO, e que LACOMBE representara OS AMADORES DO BRASIL, nessa reunião. Na revista QTC, 103/15, afirmou ÁLVARO FREIRE, que o primeiro comunicado brasileiro - não confirmado com QSL - fôra entre ele, b1AB, e LACOMBE, b1AC, em 1923, clandestinos, segundo barrunto, logo depois de iniciadas as aulas do professor ALBERICO DE MORAIS.
O número 94/22 da mesma revista iniciou publicação de “QUADRO DE HONRA - VETERANOS e RECORDISTAS”, de início com os nomes de 1AB, ÁLVARO FREIRE, e 1AJ, JOÃO DO LAGO, que realizaram QSO, em 14.06.1925, o primeiro, e em 26.11.1925, o segundo. Antes disso, porém, já havia muitos brasileiros no éter, servindo a referência, apenas, para fixar a época, anterior a 22.10.1935.

Há mais. Em janeiro de 1925, BRAGGIO, na RT-148/28, publica “que em duas noites, OUVIRA A ESTAÇÃO BRASILEIRA 1AB”, de ÁLVARO. Se a publicação fôra em janeiro, a recepção constante das “LLAMADAS OÍDAS”, seria, pelo menos, DO MÊS ANTERIOR, de DEZEMBRO de 1924! Na mesma RT-149/60, na seção “DEL EXTERIOR-BRASIL”, LÍVIO MOREIRA acusa a recepção de 1AC (LACOMBE), no dia 03.12, às 00:30 horas, e de mensagem de CB8 (BRAGGIO) a 2SP (JONES), a 00:00 horas de 30 de dezembro de 1924. Compreende-se, agora, o que significaria a afirmativa do referido STRAY de 2SP, no QST de 1925 citado.

No mesmo local da RT, na página seguinte, vem transcrito o

         “EXTRACTO DE LA REGLAMENTACION APROBADA POR EL GOBIERNO DEL BRASIL”.

         QUE ENTROU EM VIGOR EM DEZEMBRO DE 1924!

Entre os quatro grupos de estações de rádio, reconhecidas pelo Governo Brasileiro, figura as da letra “D”: “ESTAÇÕES DE AMADORES”. Assim, teria sido este, o primeiro diploma legal que reconheceu o radioamador, no Brasil. Agora, em al me fundo, mais convincente, como se verá, para que não seja necessário buscar outros adminículos de prova à afirmativa - o dia 22 de outubro não é o DIA DO RADIOAMADOR. Não fôra no período de agosto-setembro de 1925, que o Governo reconhecera o radioamadorismo. Repito a pergunta: - se não fôra em 1925, em que data, de 1924, o fizera? Deste ambívio devo fugir e escolher a trilha da verdade.
No discurso de ROQUETTE-PINTO, na LABRE, no “DIA DO RADIOAMADOR” ( ! ), publicado no QTC-53/26, encontro isto:

“Finalmente, ainda no mês de novembro, DIA 24, vinha o reconhecimento do Governo, dos radioamadores não existia. Eram verdadeiros “maquis”. Faziam suas transmissões, lá, escondidinhos, como Deus queria. Agora, não: tudo ia mudar, porque, pela primeira vez, na legislação brasileira, graças à REPRESENTAÇÃO QUE NÓS FIZEMOS EM 23, na Academia de Ciências, o Governo baixava o decreto 16.657, de 05 de NOVEMBRO dizendo o seguinte:

Art. 43 - As estações rádio emissoras para o serviço particular ficam divididas em quatro grupos: estações destinadas ao estabelecimento de comunicações; estações destinadas a difusão pública de comunicações de interesse geral (broad-casting); estações destinadas a ensaios de ordem técnica, ou experimental; Parágrafo 4 - Estações de amadores ! Ah! com que alegria a gente encontrou isso na lei. Pela primeira vez o amador passava a ser alguém. Estava batizado. Já não era mais pagão. O artigo 48 dizia: “Os proprietários de estações emissoras a que se refere o parágrafo 4 (que eram os amadores) devem ser habilitados mediante prova prestada na Repartição Geral dos Telégrafos, a qual constará de transmissão, de recepção a ouvido a razão de 10 palavras por minuto e a arguição sobre o funcionamento da sua estação...”

Como se vê, ROQUETTE põe em limpo o assunto. Por muitos anos, apesar de lidas algumas vezes, espaçadamente, estas palavras do vexilário do rádio não vislumbrei a chave do mistério, que, para mim, se continha naquele “DIA 24”. Somente após descobrir, ao dar tonto, que a fala autorizada fôra taquigrafada, aventei a razão porque não conhecera, antes, a verdade. Aquele “DIA 24” fôra invento do taquígrafo ao traduzir, erradamente, dos taquigramas, a frase “NO MÊS DE NOVEMBRO DIA 24”. Não dissera o orador “DIA 24”, mas “novembro “DE” 24”, que é outra coisa: “MÊS DE NOVEMBRO DO ANO DE 1924”! Esvaeceram-se, assim, as trevas do pretérito, pela palavra inconcussa e incontestável do “PAI DO RÁDIO”, não deixando no espírito ressumbro da menor dúvida, como o testificam as provas obtidas, no sentido de demonstrar que o DIA 22 DE OUTUBRO NÃO É O “DIA DO RADIOAMADOR” ! Influiu, ainda, em que perdurasse o equívoco, a circunstância de as licenças aos radioamadores, dadas pelo DCT, lhes terem vindo às mãos, somente em novembro de 1926. Como se vê neste clichê da licença de JONES ( ) e do memorando que a acompanhou, fôra ela passada “DE ACÔRDO COM O ARTIGO 62 DO REGULAMENTO APROVADO PELO DECRETO Nº. 16.657, DE 05 DE NOVEMBRO DE 1924”.

As licenças dos demais radioamadores brasileiros foram recolhidas, anos depois, para RENOVAÇÃO, como se fez, há pouco, após a Revolução de 1964, instituindo o CONTEL. Os títulos das licenças posteriores não falavam nesse Decreto nº. 16.657, pelo que por longos anos, passou despercebida a data de 05 de NOVEMBRO. JONES abandonara o radioamadorismo, como ficou dito neste livro, motivo por que conservou a licença primitiva, reproduzida agora, em clichê, e esclarecedora do assunto (Doc. 2 e 3). Não é possível coacervar mais fatos, mais notícias, mais provas a favor de uma opinião de certa certeza. Não me tornei obsequente seguidor de parecer alheio, mas descobrira a verdade, cortadas quaisquer controvérsias, para o diante. Como ficarão, no cabo, quanto a elas, os propugnadores desse dia 22 de outubro? O decreto número 16.657, de 05 de novembro de 1924, baixado pelo Governo, em virtude da representação da Academia Brasileira de Ciências, (ROQUETTE e MORIZE) em 1923, ao reconhecer a existência do radioamador no Brasil, dera-lhe autorização de operar, livremente, e surdir como deanteiro, inconteste e prestigioso, do rádio, no mundo. Assim, se este decreto reconheceu o radioamador, passe que, forçosamente, de remate, afirmem todos os labreanos:

O DIA 05 DE NOVEMBRO É O DIA DO RADIOAMADOR !

Obs.: Capítulo do Livro “O RESTO DA HISTÓRIA DO RADIOAMADORISMO NO BRASIL, NA AMÉRICA LATINA, NO MUNDO”, escrito por JOÃO RAMOS BACCARAT - PY2AJ, apresentado ao Egrégio Conselho Federal da LABRE, na Reunião de Curitiba, Paraná, no ano de 1968.