Artigos sobre Radioamadorismo

O RADIOAMADORISMO NO BRASIL

O RADIOAMADORISMO NO BRASIL

Maurílio Britto

De início eram poucos, localizados no antigo Distrito Federal e nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Maranhão e Pará. Queremos nos referir aos radioamadores, estes abnegados auxiliares dos nossos meios de comunicação. Nos primeiros tempos eles “viviam” escondidos, isto porque os serviços de radiotelefonia eram privativos do Governo Federal, que por intermédio da Repartição Geral dos Telégrafos mantinha permanente guerra aos frágeis galenas hoje pouco lembrados (injustamente, digamos de passagem). Esta discriminação deixou de ser feita a partir de 5 de novembro de 1924, quando o Presidente da República Arthur Bernardes assinou o Decreto nº. 16.657, permitindo que as estações receptoras pertencentes a qualquer pessoa nacional ou estrangeira atuassem livremente, sujeitando-se ao cumprimento dos dispositivos legais regulamentadores da matéria. Assim, por exemplo, eram proibidas de funcionar das 19 às 23 horas, excetuando-se nos casos de salvação pública devidamente comprovados. Com a assinatura do Decreto nº. 16.657 (resultante da campanha que Roquete-Pinto vinha empreendendo pelo livre exercício da radiofonia) o número de amadores foi crescendo surgindo, então a “Associação Brasileira de Rádio Amadores”, como noticiou a Revista Antenna de abril de 1926:

“Com o comparecimento de quase todos os amadores da transmissão em onda curta realizou-se no dia 6 de março último, a primeira convenção de radiotransmissão de que resultou a fundação da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RÁDIO AMADORES. Estiveram presentes mais de cincoenta pessoas amadores de vários estados do Brasil, destacando-se entre ellas os Drs. Alberto Couto Fernandes e João Valle, respectivamente sub-director technico e Eng. da Repartição Geral dos Telegraphos. Aberta a sessão pelo Sr. Carlos Lacombe, foram por elle expostos os fins da reunião. Em seguida foi acclamado o Sr. José Jonostkoff para presidir os trabalhos, o qual convidou para seus secretários os Srs. Sampaio Goes, de São Paulo e Pedro Chermont, desta capital. Depois de longa discussão foram aprovados os Estatutos redigidos pelo Dr. Gentil Pinheiro Machado e escolhido o nome de Associação Brasileira de Rádio Amadores para a novel aggremiação. A Diretoria ficou assim constituida. Democrito Seabra, presidente; Gentil Pinheiro Machado, secretário; Manuel de Macedo, thezoureiro” (sic).

O Radioamadorismo ia crescendo. Em junho de 1926 Antenna dava a seguinte relação das estações transmissoras em onda curta existentes no antigo Distrito Federal e respectivos indicativos: José Jonotskoff de Almeida Gomes - 1AA; Godofredo Damm - 1AB; Carlos G.Lacombe - 1AC; Pedro S.Chermont - 1AD; Victorino Augusto Borges - 1AE; José Cardoso de Almeida Sobrinho - 1AF; Edgard Roquette-Pinto - 1AG; Harold May - 1AH; Elvan Costa Guimarães - 1AI; João E.do Lago - 1AJ; Cid Santos - 1AK; Mário Liberalli - 1AL; Alberto Regis Conteville - 1AM; Waldemar Leite Aguiar - 1AN; Fernando N.Andrade Costa - 1AO; Newton de Barros Ignarra - 1AP; Mário Barbedo - 1AQ; Joaquim de Paula Rosa Júnior - 1AU; Antônio C.da Silva Lima - 1AV; João Victoriano Pareto - 1AX; Yvonne Moorby - 1AY; Juvenil Pereira - 1AZ; Vasco Abreu - 1AW; Narciso dos Anjos Lima - 1BA; Raul Kennedy de Lemos - 1BB; Raul Berrogain - 1BC; Alberto Leite Villela - 1BD; Manoel de Macedo - 1BE; Godofredo Mesquita - 1BF e Gentil Pinheiro Machado - 1BG.

Em 1927 os radioamadores alcançaram o número de 94, assim distribuidos: Distrito Federal (antigo) - 55; Rio de Janeiro - 4; Espírito Santo - 1; São Paulo - 24; Paraná - 3; Rio Grande do Sul - 2; Pernambuco - 5; Maranhão -2; Pará - 1. Hoje eles são encontrados em todas as regiões do País, sempre atentos à oportunidade de servirem sem fins lucrativos a quem estiver necessitando do envio de uma mensagem urgente. Realçando a grandeza de suas finalidades disse o Prof. Carlos Simas, quando na qualidade de titular do então Ministério das Comunicações, em 1967:

“Realizou-se em Brasília, de 10 a 17 de dezembro do ano passado, sob o patrocínio dêste Ministério, a Terceira Convenção Nacional de Radioamadores. Nesse conclave, que despertou grande entusiasmo, foram apresentadas e discutidas proposições e recomendações, bem como um anteprojeto do Regulamento de Radioamadores e um anteprojeto das Instruções para a Execução do Serviço de Radioamadores. Saudando essa Convenção, tive a oportunidade de dizer: “Aos Companheiros Radioamadores de todo o Mundo: Consideramos o Radioamadorismo como técnica, como escola de aperfeiçoamento do indivíduo, para que, no Mundo conturbado em que vivemos, possa prestar reais serviços às Nações e, em suma, a toda a humanidade. Como segundo aspecto, humano, de solidariedade, apresenta, realmente, uma possibilidade de ajuda mútua entre irmãos de um mesmo país, entre irmãos de países distantes, e são inúmeros os casos de ajuda mútua e socorro prestado pela brilhante plêiade de Radioamadores do mundo inteiro. O terceiro aspecto, como companheirismo , enseja o estreitamento dos laços de amizade entre as Nações, confirmando, a todos os sêres humanos imensa possibilidade de compreensão, de harmonia e entendimentos. Como serviço, presta à coletividade, mundialmente, a necessária cooperação, promovendo intercâmbio cultural e científico entre as Nações. É, finalmente, um grande instrumento da tão almejada paz universal. Constituiu-se o Radioamadorismo, em nosso modo de entender, num positivo instrumento de paz, de fraternidade, neste Mundo em que a incompreensão ainda predomina. Aos Radioamadores pertence, por certo, o grande mérito de se conhecerem como companheiros, como irmãos, como instrumento da paz universal. No capítulo das telecomunicações especiais o radioamador será considerado como reserva técnica do País, e por este motivo deve ser auxiliado e estimulado pelo Governo, através de regulamentação que delimite os seus direitos e deveres, em bases mais modernas e compatíveis com a missão que desenvolvem. O desenvolvimento da Rede Nacional de Radioamadores deve ser considerado como trabalho auxiliar nos serviços de segurança humana e nacional. (Relatório MC/1967)”

Encerrando estas ligeiras notas lembramos que o dia 25 de setembro último marcou a passagem do 65º aniversário do primeiro exame para radioamador realizado no Brasil. Foram poucos os candidatos. Entre eles estava Edgard Roquette Pinto. O exame constou de três partes: 1º - Transmissão em Morse de um trecho com a velocidade média de 10 palavras por minuto. 2º - Recepção auditiva de um trecho transmitido em Morse, com velocidade média de 10 palavras por minuto. 3º - Prova escrita com diversas questões de radioeletricidade. O exame teve a presença de um representante da Repartição Geral dos Telégrafos.